Opinião: O Que Sabe o Vento | Amy Harmon

Autor: Amy Harmon
Título Original:
What the Wind Knows (2019)
Editora: TopSeller
Páginas: 416
ISBN: 9789896686598
Tradutor: Fernanda Semedo
Origem: Comprado
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Sinopse: Anne Gallagher cresceu encantada pelas histórias do avô acerca da Irlanda. Destroçada pela morte dele, viaja até à sua casa de infância para espalhar as cinzas do avô no lago Lough Gill. Aí, invadida pelas lembranças do homem que adorava e consumida pela história que nunca conheceu, vê-se levada para uma outra época. A Irlanda de 1921, à beira de uma guerra civil, é um sítio turbulento e instável? Mas é lá que Anne inesperadamente desperta, desorientada, ferida e ao cuidado do Dr. Thomas Smith, o homem que a resgatou do invulgar acidente que sofreu e que é tutor de um rapazinho que lhe é estranhamente familiar. Confundida por todos como a mãe perdida do rapaz, Anne adota a sua identidade, convencida de que o desaparecimento dessa mulher está ligado ao seu. Com a tensão a escalar no país, levando Thomas a juntar-se à luta pela independência da Irlanda, Anne vê-se arrastada para o conflito e percebe que vai ter de decidir se estará disposta a desistir da vida que conhecia por um amor que nunca pensou vir a encontrar. Mas será mesmo dela a escolha?

Opinião: Parti para este livro sabendo muito pouco sobre a história, apenas guiada por algumas vozes em que confio, que o tinham elogiado bastante. E que bom é partir para um livro com poucas expectativas e ser surpreendida como eu fui neste caso.

Depois de ter ficado órfã muito cedo e de ter sido criada pelo avô, Anne Gallagher é agora uma escritora de sucesso. Eoin sempre lhe falou do seu país Natal, a Irlanda, mas Anne nunca lá tinha ido; quando na fase terminal da sua vida Eoin lhe pede para levar as suas cinzas para a Irlanda e as deitar num lago perto da casa onde tinha sido criado, Anne não consegue imaginar como esta viagem vai alterar a sua vida. Não há como falar sobre a história deste livro sem referir a componente das viagens no tempo, porque boa parte do enredo gira em torno da declaração e reconhecimento da independência da Irlanda, entre 1916 e 1922, época para a qual a personagem principal é inadvertidamente transportada.

Não sabia praticamente nada sobre a história da independência da Irlanda, e por isso este livro foi um manancial de informação, através da participação direta no enredo de algumas figuras históricas, como Michael Collins, ou das entradas no diário de Thomas Smith, uma personagem ficcional que a autora colocou a ter uma participação importante nos eventos históricos. Mas mais do que esta componente histórica muito interessante, e que nunca se torna maçadora, o que me cativou por completo neste livro foi a forma subtil e emocionante como a autora desenvolveu a história entre Anne e Thomas. Não posso deixar de referir que adorei a escrita de Amy Harmon; é notável a sua capacidade para descrever emoções sem parecer demasiado lamechas ou óbvia. 

A adaptação de Anne a uma época e país completamente diferentes daqueles em que nasceu e cresceu é um claro ponto de interesse do enredo, bem como o seu conhecimento antecipado acerca de marcos históricos importantes e o impacto desse conhecimento no desenrolar da história. Julgo que a autora foi inteligente ao não complicar em demasia a questão da viagem no tempo e das suas implicações, apesar de ter detetado, aqui e ali, alguns pontos que talvez tivessem ganho com uma explicação mais coerente. 

O Que Sabe o Vento é um livro que contém em si as doses certas de romance e História, com uma pitadinha muito bem-vinda de ficção científica. Foi uma das minhas melhores leituras dos últimos tempos e deixou-me com a certeza que não demorarei muito a ler o outro livro da autora publicado em Portugal, Procura-me Quando a Guerra Acabar.

Classificação: 5/5 – Adorei

Desafio de Leitura – Mangalipa Mania

Já sigo os canais da Filipa e da Manganet praticamente desde que descobri o Booktube no final de 2017. Desde então, tenho vindo a acompanhar com assiduidade os vídeos que elas vão publicando e posso dizer que são duas das minhas booktubers preferidas, apesar de terem estilos e vídeos algo diferentes. No passado mês de março, embarcaram numa competição de leitura entre elas – a que chamaram “Mangalipa” – cujo objetivo era ler o maior número de páginas possível no espaço de um mês, cumprindo os desafios diários selecionados de forma aleatória, que podiam ir desde ler x páginas a não ler nada.

Fui acompanhando os vídeos semanais com os vlogs do desafio e achei imensa piada. Elas conseguiram cativar os seus subscritores com uma série de vídeos engraçados e entusiasmantes, criando uma expectativa enorme acerca de quem seria a vencedora. E, naturalmente, começaram a ter pedidos para organizarem algo em que todos pudessem participar, e que acabou por se transformar no “Mangalipa Mania”, que decorreu nas duas últimas semanas de abril. 

Ainda hesitei um pouco, mas depois decidi inscrever-me, à semelhança de outras cerca de 170 pessoas. Foram feitas duas equipas, cada uma liderada ou pela Filipa ou pela Manganet (eu fui #TeamManga) e, durante duas semanas, todos demos o nosso melhor. Tínhamos um chat no Skype que foi pensado para podermos trocar os desafios diários com outros membros da equipa, caso o desejássemos, e para podermos informar que queríamos passar o desafio para a outra equipa (podíamos usar cada ajuda apenas uma vez). Mas a verdade é que o chat se tornou numa outra coisa completamente diferente: passou a ser um sítio para falarmos uns com os outros sobre livros e, na verdade, sobre um pouco de tudo. Sempre cheio de boa-disposição, foi tão, mas tão divertido, que acabou por ser melhor coisa que retirei desta experiência.

O balanço de leitura foi espetacular: terminei 10 livros nos 15 dias do desafio (ainda que dois já tivessem sido iniciados), mas a verdade é que senti que estava a recuperar o ritmo de leitura que sei que consigo e desejo ter. Por isso, foi uma forma divertida e entusiasmante de retomar leituras e sair desta letargia literária em que me encontrava. Mas como dizia, o melhor de tudo foi mesmo os laços que se criaram com os meus companheiros de equipa: houve sempre um ambiente incrível e uma excelente compreensão daquilo que estava em causa neste desafio de leitura. Continuamos a comunicar e essa é sempre uma das melhores partes dos meus dias, agora que nos encontramos nesta situação tão particular. Fica o agradecimento às duas organizadoras deste projeto (nem quero imaginar o trabalho que tiveram e as horas que perderam!) e uma palavra de carinho para todos os novos amigos que fiz, esperando que possamos em breve conhecer-nos pessoalmente.

Se quiserem ver os vídeos da Filipa e da Manganet acerca deste desafio, é seguir este e este link.

P.S.: Foi a #TeamLipa quem acabou por ler mais páginas, mas isso não interessa nada 😀 

Opinião: O Pintor de Almas | Ildefonso Falcones

Autor: Ildefonso Falcones
Título Original:
El pintor de almas (2019)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 650
ISBN: 9789896659608
Tradutor: José Vala Roberto/Lufada de Letras
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Barcelona, 1901. A cidade vive dias de grande agitação social. A miséria sombria dos mais desfavorecidos contrasta com a elegante opulência das grandes avenidas, onde começam a destacar-se alguns edifícios singulares, símbolo da chegada do modernismo. Dalmau Sala, filho de um anarquista assassinado, é um jovem pintor que vive preso entre dois mundos. Por um lado, a sua família e Emma, a mulher que ama, são fortes defensoras da luta dos trabalhadores; homens e mulheres que não conhecem o medo ao exigir os direitos dos trabalhadores. Por outro lado, o seu emprego na oficina de cerâmica de Dom Manuel Bello, o seu mentor e um conservador burguês de fortes crenças católicas, aproxima-o de um ambiente em que prevalecem a riqueza e a inovação criativa. Deste modo, seduzido pelas tentadoras ofertas de uma burguesia disposta a comprar o seu trabalho e a sua consciência, Dalmau terá de encontrar o verdadeiro caminho, como homem e como artista, e afastar-se das noites de vinho e drogas para descobrir o que realmente é importante para ele: os seus valores, a sua essência, o amor de uma mulher corajosa e lutadora e, acima de tudo, aquelas pinturas que brotam da sua imaginação e capturam, numa tela, as almas mais miseráveis que perambulam pelas ruas de uma cidade agitada pelo germe de rebelião. Com O Pintor de Almas, Ildefonso Falcones oferece-nos a poderosa história de um tempo conturbado, ao mesmo tempo que narra uma trama emocionante, onde o amor, a paixão pela arte, a luta pelos ideais e a vingança combinam com mestria para recriar uma Barcelona, outrora sóbria e cinzenta, que agora caminha para um futuro brilhante, onde a cor e a esperança começam a espalhar-se pelas suas casas e ruas.

Opinião: No início do século XX, Barcelona era uma cidade em agitação; por um lado, fervilhava a criatividade artística que dava corpo e cor a tantas obras marcantes da cidade que hoje conhecemos; por outro, foi uma época de grandes convulsões sociais e de luta pelos direitos dos trabalhadores. É neste cenário extremamente interessante e desafiador que Ildefonso Falcones coloca as suas personagens principais: Dalmau, filho de gente humilde e a começar a subir na sociedade graças ao seu incrível talento para a pintura, e Emma, a sua namorada, uma rapariga também de origens modestas, que luta sem medos para ver melhoradas as condições de trabalho.

À história destas duas personagens principais muitas outras se vão juntando – gostei particularmente da jovem mendiga Maravillas – mas há uma que não podia deixar de referir: a cidade de Barcelona é descrita nos seus vários tons e matizes, e é impossível não nos sentirmos transportados para aquela época. Eu sou particular admiradora da obra de Antoni Gaudí e ainda que ele ou o seu legado não sejam o foco principal deste livro, foi a principal figura do modernismo catalão, sobre o qual tanto aprendi neste livro. Muitos foram os artistas e as obras que participaram neste movimento, e foi realmente interessante saber mais sobre quem foram e o que fizeram. Nota-se a extensa pesquisa do autor, apesar de por vezes me ter parecido haver alguns blocos de informação que poderiam ter sido melhor integrados na narrativa.

O contraste entre toda esta beleza que se criava e a pobreza extrema em que boa parte dos habitantes da cidade vivia é por demais evidente, e Ildefonso Falcones traz neste livro um bom equilíbrio entre estas duas facetas da cidade, aparentemente tão opostas. É no meio das duas que encontramos o pintor Dalmau, que vagueia constantemente entre a beleza e a decadência, e que procura encontrar o seu lugar depois de um desentendimento com Emma o ter levado a perder o foco. Muitos são os avanços e recuos na vida dos dois, ficando por vezes a sensação que tudo lhes acontece.

O Pintor de Almas é um livro extenso e que, por isso, requer dedicação. Houve alturas mais mornas, em que achei que o livro teria ganho com a redução de algumas páginas, mas esses momentos foram recompensados por outros mais emotivos e que me fizeram querer virar páginas para saber o que iria acontecer. No cômputo geral, apesar de achar que podia ter sido melhor na caracterização das personagens e no rumo do enredo ficcional, é um sólido romance histórico, com muito para aprender e descobrir. É um autor que quero continuar a ler, sem dúvida!

Classificação: 3,5/5

Opinião: Star Wars – A Saga Completa (BD)

Editor: Randy Stradley
Título Original:
Star Wars Omnibus: The Complete Saga—Episodes I through VI (2011)
Editora: Planeta
Páginas: 600
ISBN: 9789896576400
Origem: Comprado
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Sinopse: Todas as adaptações a banda desenhada dos filmes de Star Wars num só volume! Desde o fatídico encontro de Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi com Darth Maul até à vitória de Luke Skywalker sobre os Sith e a redenção de Darth Vader. Este volume de 600 páginas inclui as versões redesenhadas ou remasterizadas das adaptações da Edição Especial, e a lista de guionistas e desenhadores que participaram, assim como uma de personagens do mundo da banda desenhada. Uma peça de coleção a não perder.

Opinião: Começando pelo óbvio: esta coletânea das várias adaptações a BD das duas primeiras trilogias do franchise Star Wars já não se trata da saga completa, porque desde 2015 a saga principal passou a contar com mais três filmes. Dito isto, não achei falta dos três últimos episódios – dos quais gostei – e uma reflexão a frio me leva a concluir que provavelmente não teriam sido necessários, ainda que tenham sido bastante divertidos e emotivos. 

Cresci com Star Wars, bem como a maioria das pessoas da minha idade e da geração anterior à minha. Numa época em que não havia Internet e em que o cinema consumido passava em grande parte pelo que passava na TV, recordo com grande carinho as tardes de cinema aos fins-de-semana, em que regularmente éramos presenteados com filmes das minhas séries preferidas – Regresso ao Futuro, Indiana Jones e Star Wars. Vi os três filmes de cada uma delas tantas vezes que lhes perdi a conta; tinha-os gravados em cassetes de vídeo, cuja imagem já era sofrível pela quantidade de vezes que eram postas a funcionar. Sempre tive um fascínio especial por Star Wars, que é difícil explicar. Ou talvez não, porque esta história vai muito para além dos sabres de luz, das naves espaciais e dos “dróides”. A minha relação com a trilogia que funciona como prequela é mais complicada, e acho que muitos fãs deste universo estão comigo; ainda assim, há qualquer coisa de magnético em ver o potencial de Anakin Skywalker descer ladeira abaixo até ele se transformar no mítico Darth Vader.

Esta coletânea de BD junta no mesmo volume as adaptações dos episódios I a VI e, por terem sido publicadas num espaço temporal de cerca de 30 anos pelas mãos dos mais diversos ilustradores, temos aqui bastante diversidade no traço e nas cores. No que respeita a essa parte, e apesar de perceber pouco do tema, gostei mais das ilustrações dos primeiros três episódios, que me pareceram mais realistas. Tendo em conta que estas histórias se baseiam nos filmes e que os atores que deram corpo às personagens são uma parte tão fundamental da nossa identificação com a história, foi na primeira metade que senti que as ilustrações recriaram melhor a sua imagem e performance nos filmes. Mas a verdade é que a minha ligação emocional com o arco narrativo da segunda metade é muito maior, e foi nesta parte que me senti mais agarrada ao livro.

Alguns detalhes são deixados de fora, como seria natural, mas ainda assim não consegui evitar a sensação de que por vezes as histórias estavam demasiado corridas. No final de contas, o balanço foi muito positivo, porque ler as adaptações a BD teve o condão de me fazer voltar a emocionar com a história da família Skywalker. Só por isso já valeu a pena.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: No Escuro | Cara Hunter

Autor: Cara Hunter
Título Original:
In the Dark (2019)
Editora: Porto Editora
Série: Adam Fawley #2
Páginas: 368
ISBN: 9789720032362
Tradutor: Cláudia Ramos
Origem: Comprado
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Sinopse: Uma mulher e uma criança são encontradas fechadas numa cave, em risco de vida. Ninguém sabe quem são – a mulher não consegue falar e nenhuma descrição de pessoas desaparecidas corresponde aos perfis das vítimas. O proprietário da casa, velho e muito confuso, jura que nunca as viu. À medida que a polícia desespera por pistas, o detetive Adam Fawley recorda-se de um caso antigo, nunca resolvido, que também envolveu uma criança e uma mulher desaparecida. Curiosamente, tudo se passou numa tranquila rua de Oxford. E os moradores estão em choque: como pode tal ter acontecido debaixo dos seus narizes? Mas Fawley sabe que nada é impossível. E ninguém é tão inocente como parece. Da autora bestseller Cara Hunter, um romance profundamente inquietante que nos acelera o coração à medida que se revelam segredos há muito enterrados. Afinal, os piores monstros são os que se escondem à vista de todos.

Opinião: Depois de ter lido Perto de Casa e de ter gostado bastante, parti para o segundo volume desta série policial com um bom grau de certeza de que ia gostar. Desta vez, a história inicia-se quando uma jovem e uma criança são encontradas por acaso na cave de uma casa antiga, quando as obras da casa ao lado acidentalmente revelam a sua presença naquele sítio sombrio. 

Adam Fawley, personagem central desta série e detetive de serviço, é chamado para liderar as investigações deste caso, que de início parece ter uma solução fácil e relativamente linear, mas como devem imaginar muitas voltas e reviravoltas esperam o leitor. Antes de partir para esta leitura, e por ter lido algumas opiniões, já sabia que muitas surpresas me esperavam, e praticamente desde que comecei a leitura tentei adivinhar tudo o que tinha contribuído para o cenário de horror que nos é apresentado no início do livro, mas a verdade é que é quase impossível perceber qual o desfecho que a autora nos reserva.

À semelhança do que sucedeu no primeiro livro, temos no meio da narrativa excertos de notícias, entrevistas policiais e outros, que mais uma vez dão à história aquela dimensão real que é sempre bem-vinda, ainda que desta vez os comentários das redes sociais, que tanto tinha apreciado em Perto de Casa, tenham sido em muito menor quantidade.

Mais uma vez, Cara Hunter apresenta-nos um livro altamente viciante, que é muito difícil largar. Era precisamente disto que procurava nesta altura, e por isso posso dizer que o livro cumpriu o seu propósito. Quanto ao final… bem, realmente é inesperado e tem impacto, mas quando comparado com a forma muito satisfatória como a autora ata todas as pontas em Perto de Casa, o desenlace deste livro deixa a sensação de ser um pouco forçado e algumas coincidências desafiam a suspensão da descrença do leitor. Apesar disso, gostei igualmente bastante desta leitura, porque me entreteve e me manteve a virar páginas sem parar, o que normalmente é bom sinal. Sem dúvida que Cara Hunter é uma autora para continuar a seguir!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: A Última Carta | Cecelia Ahern

Autor: Cecelia Ahern
Título Original:
Postscript (2019)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 320
ISBN: 9789896659608
Tradutor: Susana Serrão
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Faz sete anos que o marido de Holly Kennedy morreu — seis, desde que ela leu a sua última carta, na qual ele lhe pedia que encontrasse coragem para forjar uma nova vida. Holly orgulha-se da forma como tem evoluído e crescido. Até que recebe a mensagem: «Precisamos desesperadamente da sua ajuda, Holly. Estamos a ficar sem ideias e…» — ela respira fundo, em busca de energia — «… todos nós estamos a ficar sem tempo.» Os membros do Clube P. S. Eu amo-te, inspirados nas últimas cartas do seu marido, Gerry, querem que Holly os ajude a escrever as suas próprias mensagens de despedida para os que lhes são queridos. Holly vê-se atraída, de novo, para um mundo que se esforçou tanto por deixar para trás. Relutante, começa a relacionar-se com o clube, mesmo quando a amizade deles ameaça destruir a paz que ela acredita ter alcançado. Porque cada uma dessas pessoas espera de Holly a ajuda para deixar algo significativo àqueles que mais ama, ela embarcará numa jornada notável que a desafiará a questionar se abraçar o futuro implica trair o passado e o que significa amar alguém para sempre…

Opinião: Li P.S. – Eu Amo-te há 12 anos e, ainda que não tenha sido um livro da vida, recordo-me de ter gostado e de me ter emocionado com a jornada de Holly, na tentativa de sobreviver à trágica morte do seu marido. Foi por isso com bastante curiosidade que parti para esta leitura, que esperava ser “leve” apesar de saber que um dos temas do livro não o era. 

Voltamos a encontrar Holly sete anos depois dos acontecimentos de P.S. – Eu Amo-te. Naturalmente, prosseguiu com a sua vida, que parece estabilizada: tem um emprego, um namorado e uma rede familiar e de amigos que está lá para tudo o que ela precisar. Por isso, fica surpreendida quando, ao gravar um podcast com a sua irmã acerca das cartas que Gerry lhe escrevera sete anos antes, isto desencadeia uma série de acontecimentos que levam Holly a questionar a sua vida e se terá realmente ultrapassado a morte do marido – tanto quanto o poderia fazer.

Tal como a Holly que encontramos aqui não é a mesma de P.S. – Eu Amo-te, por tudo o que entretanto aconteceu na sua vida, também eu não sou a mesma leitora. Tendo eu própria passado por um processo de luto, que é algo tão pessoal quanto um acontecimento marcante da vida pode ser, todas as mensagens que este livro transmite tiveram particular ressonância com a minha vida pessoal. Perder alguém que se ama é terrível, mas mesmo daí é possível retirar coisas positivas, como forma de nos fortalecermos e de nos reconstruirmos a cada dia que passa.

Cecelia Ahern consegue neste A Última Carta pôr o dedo na ferida, como se costuma dizer, e não facilita a vida da sua protagonista. Fá-la hesitar, avançar e recuar, questionar constantemente quem é, o que sente e o que poderá ser a sua vida – e, enquanto isso, o leitor faz precisamente a mesma viagem. Muitas das personagens secundárias possuem histórias igualmente interessantes, com destaque para Ginika, a jovem adolescente com um bebé do qual se terá de despedir em breve.

Em suma, foi uma leitura que me conseguiu verdadeiramente emocionar e que conseguiu trazer valor acrescentado à minha vida de uma forma que eu não antecipava. Na minha opinião, trata-se de uma sequela que vale a pena ler não só porque tem valor por si própria, mas também porque é superior ao livro que a antecede. Recomendo! 

Classificação: 5/5 – Adorei

Opinião: Uma Pequena Sorte | Claudia Piñeiro

Autor: Claudia Piñeiro
Título Original:
Una suerte pequeña (2015)
Editora: Dom Quixote
Páginas: 256
ISBN: 9789722064491
Tradutor: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Origem: Comprado
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Sinopse: Uma mulher regressa à Argentina vinte anos depois de a ter deixado para fugir de uma tragédia. Mas aquela que regressa é outra: já não tem a mesma aparência e a sua voz é diferente. Nem tem sequer o mesmo nome. Será que aqueles que a conheceram em tempos a vão reconhecer? Será que ele a vai reconhecer? Mary Lohan, Marilé Lauría ou María Elena Pujol – a mulher que ela é, a mulher que foi e a mulher que terá sido –, volta aos arredores de Buenos Aires, ao subúrbio onde formou uma família e viveu, e onde irá enfrentar os atores do drama que a fez fugir. Ainda não compreende porque aceitou regressar ao passado que se havia proposto esquecer para sempre. Mas à medida que o vai compreendendo, entre encontros esperados e revelações inesperadas, perceberá também que às vezes a vida não é nem destino nem acaso: talvez o seu regresso mais não seja do que um pequeno golpe de sorte… uma pequena sorte. Claudia Piñeiro surpreende e cativa com este romance incisivo e comovente, onde a realidade e a intimidade se cruzam numa densa teia urdida para prender o leitor.

Opinião: Depois de vinte anos afastada do seu país natal, Marilé regressa a Buenos Aires no âmbito da certificação do método de ensino de uma escola. A sua escola. Aquela repleta de recordações. Aliás, desde que aterra na capital argentina, as recordações apoderam-se da protagonista deste livro, se é que alguma vez a largaram.

Percebemos desde o início da narrativa que algo de muito grave aconteceu no passado de Marilé, algo que a levou a abandonar a Argentina e a sua família. Há um pedaço de texto, repetido e ampliado com frequência no início do livro, que vai contando ao leitor – enquanto o mantém a tentar adivinhar – qual foi a fatalidade que marcou a vida de Marilé para sempre.

E enquanto vamos acompanhando o regresso de Marilé no presente, o foco emocional da história situa-se, sem dúvida, no passado; mas não só no fatídico acontecimento, porque a vida anterior da protagonista, com direito a tudo o que uma vida convencional implica, mais não parece ser do que um mar de lugares-comuns desprovidos de verdadeira felicidade.

Aliás, o conceito de felicidade é um dos grandes temas deste livro, a par das segundas oportunidades e de termos a capacidade de isolar os pequenos momentos felizes e deles retirar energia para enfrentarmos todos os outros – as pequenas sortes, que por vezes parecem tão complicadas de identificar e valorizar.

Uma Pequena Sorte é um livro extremamente bem escrito, parecendo não ter nem mais nem menos palavras do que as necessárias, alinhadas de forma habilidosa para compor uma história cativante e poderosa. É, sem dúvida, uma autora a manter debaixo de olho.

Talvez a felicidade seja isso, um instante onde estar, um momento qualquer em que as palavras sobram, porque seriam precisas muitas para o contar. Atrever-se a tomá-lo na sua condensação, sem permitir que elas, na sua ânsia de o narrar, lhe façam perder a sua intensidade.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: Os Outros | C.J. Tudor

Autor: C.J. Tudor
Título Original:
The Other People (2020)
Editora: Planeta
Páginas: 368
ISBN: 9789897773334
Tradutor: Mário Dias Correia
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Uma rapariga pálida num quarto branco…
Ao conduzir uma noite para casa, Gabe vai atrás de um velho carro, quando vê a cara de uma menina aparecer na janela. Ela diz uma palavra: papá. É a sua filha de cinco anos, Izzy. E nunca mais a vê.
Três anos mais tarde, Gabe passa os dias a conduzir na auto-estrada à procura do carro que levou a filha, recusando-se a desistir. Apesar de todos pensarem que Izzy está morta. Fran e a filha, Alice, também estão na auto-estrada. Não estão à procura. Estão em fuga. Tentando manter-se um passo à frente das pessoas que lhes querem fazer mal. Porque Fran sabe a verdade. Ela sabe o que aconteceu à filha de Gabe. Sabe quem é o responsável e o que lhe farão a si e a Alice se a apanharem.

Opinião: Há períodos na vida de um leitor em que nenhuma leitura parece fluir. Quando é assim penso que não vale a pena insistir, restando esperar que a vontade de ler regresse. Por mais desanimadora que uma ressaca literária possa parecer, tem uma grande vantagem: quando se encontra um livro que nos devolve a vontade de ler, é uma sensação fantástica. Foi precisamente isso que me aconteceu com Os Outros, da inglesa C.J. Tudor, o terceiro livro de sua autoria e também o meu preferido dos três.

A premissa desta história é arrepiante: um dia, na viagem de regresso a casa, Gabe vê a sua filha de 5 anos dentro de um carro desconhecido; apesar de ter tentado perseguir a viatura, perde-a de vista. Pouco depois, recebe a notícia que a mulher e a filha foram assassinadas em sua casa. Mas como, se Gabe acabou de ver a filha? Passados três anos, Gabe vive obcecado em encontrar a filha e assombrado por aquela última vez em que a viu. É nesta altura que aparece o primeiro indício que parece provar que aquela visão não foi uma alucinação e que abre caminho à descoberta d’”Os Outros” e da sua possível relação com o que aconteceu à pequena Izzy.

Desde o início, Os Outros revela-se um livro viciante, não só pela forma como é narrado, mas também pela atmosfera misteriosa, quiçá com umas pitadas de terror e sobrenatural, que a autora consegue imprimir à narrativa. Ao mesmo tempo que acompanhamos a jornada de Gabe, outras personagens vão ganhando protagonismo e contribuindo para que as várias peças do puzzle comecem a encaixar. Eu gosto muito da analogia do puzzle quando falo de livros; neste caso, parece que estamos a montar um daqueles bem bicudos, com algum receio que no final falte alguma peça ou que as que já estão montadas não encaixem na perfeição. Mas o receio é infundado, porque C.J. Tudor consegue atar todas as pontas, enquanto vai continuamente surpreendendo o leitor com o desenrolar da história.

Talvez não seja muito justo, mas é quase impossível não comparar este livro com os anteriores da autora. Os Outros foi sem dúvida aquele que me pareceu mais consistente e cativante, enquanto é igualmente bem escrito e dedica o tempo suficiente a desenvolver as suas personagens e a fazer o leitor refletir acerca do que faria se estivesse no seu lugar. Recomendo!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: A Agenda Vermelha | Sofia Lundberg

Autor: A Agenda Vermelha
Título Original:
Den röda adressboken (2019)
Editora: Porto Editora
Páginas: 320
ISBN: 9789720031310
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Origem: Comprado
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Sinopse: Doris pode ter noventa e seis anos e morar sozinha em Estocolmo, mas tal não significa que não continue ligada ao mundo. Todas as semanas, aguarda ansiosamente o telefonema por Skype com Jenny, a sobrinha-neta americana que é, simultaneamente, a sua única parente. As conversas com a jovem mãe levam-na de volta à sua própria juventude e tornam mais suportável a iminência da morte, que Doris sente a rondá-la. De uma forma muitíssimo lúcida, escolhe, de entre as inúmeras memórias que uma vida longa carrega, as que estão relacionadas com aqueles que conheceu e amou e cujo nome inscreveu numa pequena agenda vermelha. As histórias desse passado colorido – o amor platónico pelo pintor modernista Gösta Adrian-Nilsson; o trabalho como manequim de alta-costura em Paris, na década de 1930; a fuga clandestina num barco que é bombardeado pelos soldados alemães do III Reich, no auge da Segunda Guerra Mundial – recriam uma existência plena que, embora se aproxime do derradeiro final, não está isenta de surpresas: um lembrete agridoce de que, na vida, os finais felizes não são apenas ficção.

Opinião: Aos 96 anos, Doris vive sozinha em Estocolmo e ainda vai conseguindo desenrascar-se com alguma ajuda externa para refeições e limpeza da sua casa. Tem apenas uma familiar, a sua sobrinha-neta Jenny, que vive nos Estados Unidos da América e com quem contacta frequentemente via Skype.

Com esta idade tão avançada, é natural que a grande maioria dos amigos e familiares próximos de Doris já tenha falecido. No entanto, ela continua a guardar uma agenda vermelha que o pai lhe ofereceu em criança, onde escreveu sobre boa parte dos principais acontecimentos da sua vida e sobre as pessoas que por ela passaram. As entradas nesta espécie de diário são o mote para vários saltos ao passado, levando o leitor pela mão para conhecer a vida singular desta mulher que, entre várias outras coisas, passou pelo complicado período da II Guerra Mundial.

Mas a verdade é que, depois de uma queda em casa, Doris é levada para o hospital e percebe-se que a sua vida, provavelmente, se aproxima do fim. À medida que conhecemos a história de vida de Doris, vemos que ela passou por muito, mas houve poucas alturas da sua vida em que foi verdadeiramente feliz. Agora que está no final da vida, será tarde demais para tentar remendar alguns erros do passado e trazer-lhe ainda um conforto final?

Para além da edição muito bem conseguida (o livro é mais pequeno do que o habitual e tem os cantos arredondados, a fazer lembrar uma agenda propriamente dita), tenho de admitir que a premissa deste livro agradou-me imenso. E a verdade é que a história é bem contada e tem todos os elementos para poder agradar a leque alargado de leitores, mas pessoalmente falhou em me emocionar como penso ter sido intenção da autora. Provavelmente o final algo melodramático e um pouco irreal não ajudou muito a isto.

Doris é, em si, uma personagem muito interessante, e penso que esta é a parte mais bem desenvolvida do livro. Ela tem uma história de vida intensa e cheia de provações, na qual o interesse amoroso foi, para mim, a parte menos cativante. Talvez por isso o final tivesse falhado em me emocionar – nunca me senti verdadeiramente investida na parte romântica da história de vida de Doris e o ênfase final que lhe é dado acaba por, de certo modo, desfazer um pouco daquilo que me tinha cativado anteriormente. Ainda assim, foi um livro que entreteve e que deixa curiosidade relativamente a futuras publicações desta autora.

Classificação: 3/5 – Gostei

Opinião: Uma Família Quase Normal | Mattias Edvardsson

Autor: Mattias Edvardsson
Título Original:
En helt vanlig familj (2018)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 472
ISBN: 9789720031310
Tradutor: Carmo Figueira
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Stella é uma adolescente comum, de uma família honesta. O pai, Adam, é pastor da Igreja da Suécia, respeitado e de uma moral irrepreensível, casado com Ulrika, advogada de defesa. Os Sandell são a família perfeita, até que Stella é acusada do assassinato brutal de um homem muito mais velho, Christopher Olsen. Mas que motivo poderia ela ter para conhecer um homem de negócios obscuro, quanto mais para o matar? Tudo deve não deve passar de um erro terrível. Neste emocionante thriller, o magistral contador de histórias Mattias Edvardsson arquitecta uma teia na qual todos se envolvem e nada é o que parece. A história de um crime e a destruição de uma família é contada através de uma estrutura incomum de três partes que mantém o leitor a questionar tudo e todos. Tudo é virado do avesso à medida que a perspectiva muda, uma nova voz assume o controlo e novas sombras são lançadas na luz.

Opinião: E se, de repente, um filho nosso fizesse algo completamente contra os nossos princípios, pondo em causa todos os valores que tanto nos esforçámos por lhe transmitir? É com esse dilema que o pastor sueco Adam Sandell se depara no início desta história, quando a sua filha Stella, de 18 anos, é detida por suspeita de homicídio. 

É ele o primeiro a relatar-nos o sucedido, antes de dar voz à sua filha e, por último, à sua mulher. Em cada uma das três partes, o enredo vai sendo tecido e as complexas peças deste puzzle vão sendo encaixadas, até ao desfecho final. Para além do relato dos acontecimentos que antecederam o crime e dos desenvolvimentos legais do caso, estas três vozes vão mostrando ao leitor a sua dinâmica familiar, com particular destaque para a complexa personalidade de Stella, cujos comportamentos na adolescência se desviam muito das expectativas dos seus pais.

Apesar do óbvio interesse em seguir os desenvolvimentos do caso policial e o julgamento, penso que a grande força deste livro é o dilema moral que apresenta. A maioria de nós tenta defender valores fundamentais na nossa vivência do dia-a-dia, e por isso é extremamente desafiante refletir sobre o limite a partir do qual esses valores ficam para segundo plano; ao apresentar-nos a possibilidade da realização de um ato atroz por um filho, o autor joga com a nossa perceção do certo e do errado, tocando naquilo que mais valorizamos na vida. Neste caso em concreto, o alcance do dilema é ainda maior pela profissão do pai e da mãe desta família: ele, alguém que deverá ao máximo reger-se pelos ensinamentos religioso; ela, uma advogada experiente que conhece bem a gravidade de ir contra a lei, sendo réu ou testemunha.

Uma família quase normal pinta um retrato complexo e moralmente desafiante do significado da palavra “família”. Junta num só livro a emoção das reviravoltas de um thriller e a muito bem-vinda densidade psicológica das personagens e das suas relações, tantas vezes esquecida neste tipo de livros. Gostei muito e recomendo.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: Perto de Casa | Cara Hunter

Autor: Cara Hunter
Título Original:
Close to Home (2018)
Editora: Porto Editora
Páginas: 320
ISBN: 9789720031310
Tradutor: Cláudia Ramos
Origem: Comprado
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Sinopse: Como pode uma criança desaparecer sem deixar rasto? A noite passada, Daisy Mason de oito anos, desapareceu enquanto decorria uma festa de família. Ninguém viu, ouviu ou percebeu o que quer que fosse, ou pelo menos, é o que todos dizem. O Inspetor Adam Fowley está a tentar manter o espírito aberto, mas ele sabe que nove em dez vezes, o responsável é alguém que a vítima conhece muito bem. Alguém está a mentir. E o tempo está a esgotar-se.

Opinião: Perto de Casa era um thriller/policial que vinha muito bem referenciado. Ainda assim, tenho tentado refrear as expectativas com os livros destes géneros, porque a quantidade que tenho consumido leva-me a começar a adivinhar algumas das reviravoltas e técnicas narrativas normalmente utilizadas – e todos sabemos que um bom thriller/policial não sobrevive se for previsível.

Perto de Casa é narrado na primeira pessoa pelo detetive Adam Fawley, e é também o primeiro de uma série prestes a ver o seu 4.º volume original publicado em que este detetive é a personagem principal. Este primeiro caso conta a história do desaparecimento de Daisy, de 8 anos, no meio de uma festa que decorria em casa dos seus pais. A polícia é rapidamente chamada para começar a investigar o desaparecimento, e depressa se percebe que há muitos aspetos neste caso que não são o que parecem. Em livros deste género, não vale a pena falar muito mais do que o essencial acerca da premissa da história, sob pena de se revelar em demasia, numa experiência de leitura para a qual se deseja partir com o mínimo de informação possível.

Apesar de a narrativa decorrer na primeira pessoa, Cara Hunter decidiu incluir vários excertos de notícias e de reações ao caso nas redes sociais, dando assim à história uma dimensão mais real. Qualquer caso semelhante que ocorresse atualmente seria obviamente escrutinado e comentado ao pormenor, e por mais ou menos que se goste das redes sociais, estas são uma realidade com bastante impacto nos dias que correm. Para além disso, a inclusão destes excertos ajuda também a história a ganhar asas para além da visão do seu narrador.

O desenrolar do enredo está repleto das normais reviravoltas e a leitura é bastante compulsiva, chegando a um determinado ponto em que se torna bastante difícil largá-lo, até descobrirmos finalmente o que aconteceu a Daisy. O final conseguiu surpreender-me e isso é sempre positivo. Há outro aspeto que me agrada bastante nestes livros pertencentes a séries, que é o explorar do lado pessoal dos detetives principais; neste caso isso foi feito de uma forma bastante discreta, mas deixando o leitor com muita vontade de saber mais sobre Adam Fowley. É sem dúvida uma série para continuar a acompanhar.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Leituras de 2020

JANEIRO

  1. Perto de Casa, Cara Hunter (4/5)
  2. Uma Família Quase Normal, Mattias Edvardsson (4/5)
  3. A Agenda Vermelha, Sofia Lundberg (3/5)

FEVEREIRO

  1. Uma Pequena Sorte, Claudia Piñeiro (4/5)
  2. Os Outros, C.J. Tudor (4/5)

MARÇO

  1. A Última Carta, Cecelia Ahern (5/5)
  2. A Trégua, Mario Benedetti (4/5)
  3. O Corpo – Um Guia para Ocupantes, Bill Bryson (4/5)

ABRIL

  1. Daisy Jones & The Six, Taylor Jenkins Reid (4/5)
  2. O Pintor de Almas, Ildefonso Falcones (3,5/5)
  3. Mistério em Nine Elms, Robert Bryndza (3/5)
  4. Isto Vai Doer – Diário Secreto de um Médico, Adam Kay (5/5)
  5. No Escuro, Cara Hunter (4/5)
  6. Star Wars – A Saga Completa, Vários (4/5)
  7. O Meu Mapa de Ti, Isabelle Broom (3,5/5)
  8. Maybe You Should Talk To Someone, Lori Gottlieb (5/5)
  9. A Vida no Campo: Os Anos da Maturidade, Joel Neto (4/5)
  10. Maus, Art Spiegelman
  11. Divided in Death, J.D. Robb

MAIO

  1. Teatro de Fantoches, Siri Hustvedt
  2. O que Sabe o Vento, Amy Harmon
  3. The Seven Deaths of Evelyn Hardcastle, Stuart Turton

Opinião: Como Parar o Tempo | Matt Haig

Autor: Matt Haig
Título Original:
How to Stop Time (2017)
Editora: TopSeller
Páginas: 320
ISBN: 9789898869470
Tradutor: Ana Beatriz Manso
Origem: Comprado
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Sinopse: «Tal como basta apenas um instante para se morrer, também basta apenas um instante para se viver. Fecha-se simplesmente os olhos e deixa-se que todos os receios fúteis se esvaiam.» O meu nome é Tom Hazard. Pareço ter 40 anos, mas não se deixe iludir… sou muito mais velho do que isso. Séculos mais velho. E este é o meu perigoso segredo. Fui contemporâneo de Shakespeare, vivi em Paris nos loucos anos 20, cruzei os mares de uma ponta a outra. Eternamente a fugir do meu passado e à procura daquilo que me foi roubado. Mas sem identidade ou raízes, a vida eterna pode tornar-se um vazio. Numa tentativa de voltar à normalidade, arranjei trabalho como professor de História. (Quem melhor para relatar o passado do que alguém que o viveu realmente?) Talvez desta forma consiga perder o medo de viver. A única regra para pessoas como eu é nunca se apaixonarem. Infelizmente, descobri isto tarde demais. Escrito com alma e coração, Como Parar o Tempo celebra aquilo que nos torna humanos e ensina-nos uma verdade universal: a vida deve ser vivida sem medos.

Opinião: Se acompanham este blogue com regularidade, devem ter visto a minha opinião sobre o livro Um Mundo à Beira de um Ataque de Nervos, que li recentemente e de que gostei bastante. Por querer continuar a explorar a obra de Matt Haig e ter visto Como Parar o Tempo a um bom preço, decidi que o próximo livro que ia ler dele seria de ficção, começando por este que tem uma premissa que adorei.

Tom Hazard tem 439 anos – nasceu com uma condição que o faz envelhecer muito mais devagar que o comum dos mortais, sendo que por cada 14-15 anos normais ele apenas envelhece um. Ao longo dos séculos, Tom escondeu a sua condição do conhecimento público, com a ajuda da Sociedade Albatroz, que protege outras pessoas iguais a Tom, ajudando-as a, periodicamente e para não levantar suspeitas, mudar de identidade e começar a sua vida noutro local qualquer. 

Quando o livro se inicia, Tom encontra-se a recomeçar a sua vida em Londres, como professor de História no ensino secundário. O facto de já anteriormente ter vivido em Londres, e de esta cidade trazer uma imensidão de recordações, é o pretexto ideal para irmos recuando no tempo e conhecendo um pouco mais acerca da história de Tom. O desespero que muitas vezes sentiu por ter de continuar a viver sem os entes queridos e o cansaço que sente pela constante mudança de vida e identidade são, de certo modo, atenuados pela busca constante pela sua filha Marion, que possui a mesma condição do pai, mas da qual Tom perdeu o rasto há muitos, muitos anos.

Penso que Matt Haig quis com este livro pôr o seu leitor a refletir sobre o tempo e a forma como o aproveitamos (ou não). Há muitas coisas extremamente preciosas na nossa vida porque temos noção que um dia irá terminar. Como seríamos se soubéssemos que nunca iríamos morrer? Fez-me lembrar aquelas pessoas ricas, que virtualmente podem comprar tudo, mas que, no fundo, só querem ter uma vida normal.

Como dizia há pouco, gostei muito da premissa deste livro e gostei muito também das reflexões sobre a condição humana quando o autor nos apresenta a hipótese de viver para sempre (ou, pelo menos, muito mais tempo do que o normal). E por ter gostado tanto destes dois aspetos, tive pena da sensação com que fiquei de que a escrita e o enredo não estiveram à altura. Matt Haig tem uma escrita muito direta, que pessoalmente, achei que funciona muito melhor em livros de não ficção. Depois, no que respeita ao enredo, a suposta motivação principal do protagonista, que é encontrar as filha, parece muitas vezes esquecido, para ser retomado no final e resolvido de uma forma um pouco apressada. 

Volto a afirmar: gostei muito da premissa deste livro e das reflexões que induz, mas infelizmente achei que teria ganho muito com um enredo mais sólido, uma escrita mais rica e uma caracterização mais aprofundada das personagens e das suas motivações. Ainda assim, fico com curiosidade de ler Os Humanos.

Classificação: 3/5 – Gostei 

Opinião: O Suspeito | Fiona Barton

Autor: Fiona Barton
Título Original:
The Suspect (2019)
Editora: Planeta
Páginas: 376
ISBN: 9789722533799
Tradutor: Victor Antunes
Origem: Comprado
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Sinopse: Quando duas jovens de dezoito anos desaparecem durante as suas férias de ano sabático na Tailândia, as famílias são lançadas para a ribalta internacional: desesperadas, tomadas de angústia e presas de uma inquietação frenética. O que andavam as raparigas a fazer antes de terem desaparecido? A jornalista Kate Waters faz sempre tudo o que pode para ser a primeira a chegar a uma história, a primeira a obter o exclusivo, a primeira a descobrir a verdade, e esta vez não constitui excepção. Contudo, não consegue deixar de pensar no seu próprio filho, que não vê há dois anos, desde que saiu de casa para viajar. Desta vez o caso é pessoal. À medida que o caso das raparigas desaparecidas se vai desenrolando, percebe-se que, mesmo a tão grande distância, o perigo pode ocultar-se mais próximo de casa do que se poderia imaginar…

Opinião: Li o livro de estreia de Fiona Barton, A Viúva, há 3 anos e apesar de não ter sido dos meus thrillers preferidos, deixou-me suficientemente intrigada para querer ler mais coisas escritas por ela. O Suspeito é o seu livro mais recente, terceiro na série iniciada com A Viúva, com pelo menos uma personagem em comum mas com um caso completamente independente.

Alex e Rosie terminam a escola secundária e decidem tirar férias sozinhas na Tailândia. Quando este livro se inicia, os pais de Alex estão preocupados com a falta de contacto da filha e da amiga, tendo em conta uma informação importante que Alex esperava em Inglaterra, e por isso decidem contactar a polícia local. Em pleno verão, o inspetor Bob Sparkes considera ser boa ideia contactar a sua amiga jornalista Kate Waters para lhe pedir ajuda no caso, por achar que toda a divulgação acerca do desaparecimento das duas raparigas seria positivo. Mas este não é o único ponto de ligação de Kate ao caso, uma vez que o seu filho Jake, que não vê há cerca de dois anos e que também está na Tailândia, parece ter alguma relação com o desaparecimento das raparigas.

A alternância de pontos de vista das várias personagens principais nesta história dá-lhe dimensão, porque permite que o leitor vá conhecendo o desenrolar da história de várias perspetivas, naturalmente influenciadas – e até que ponto verdadeiras? – pela relação de determinada personagem com o que se está a passar.

Por várias vezes, achei este livro bastante perturbador. Houve qualquer coisa na forma como a autora vai descrevendo os horrores que se passaram na Tailândia que me incomodou – penso que foi principalmente pela angústia da impotência de um pai ou de uma mãe perante todas as coisas más que podem acontecer a um filho seu, e que estão fora do alcance de qualquer coisa que pudessem fazer. 

Em nenhum momento achei este livro arrastado ou aborrecido apesar das suas 464 páginas, bem pelo contrário. Foi uma leitura viciante e ao mesmo tempo aterradora, com um final surpreendente e que teve o condão de me pôr verdadeiramente a pensar sobre a resposta a esta pergunta: há limites morais ou de outra natureza para o que uma mãe pode fazer pelo seu filho? Fica a questão e a certeza que quero ler mais obras desta autora. Recomendo!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Opinião: Uma Educação | Tara Westover

Autor: Tara Westover
Título Original:
Educated (2018)
Editora: Bertrand
Páginas: 376
ISBN: 9789722533799
Tradutor: Cláudia Brito
Origem: Comprado
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Sinopse: Tara Westover cresceu a preparar-se para o Fim dos Tempos, para ver o Sol escurecer e a Lua pingar, como que de sangue. Passava o verão a conservar pêssegos e o inverno a cuidar da rotatividade das provisões de emergência da família, na esperança de que, quando o mundo dos homens falhasse, a sua família continuasse a viver. Não tinha certidão de nascimento e nunca pusera um pé na escola. Não tinha boletim médico, porque o pai não acreditava em médicos nem em hospitais. Não havia quaisquer registos da sua existência. O pai foi ficando cada vez mais radical com o passar do tempo, e o seu irmão, mais violento. Aos dezasseis anos, Tara decidiu educar-se a si própria. A sua sede de conhecimento haveria de a levar das montanhas do Idaho até outros continentes, a cruzar os mares e os céus, acabando em Cambridge e Harvard. Só então se perguntou se tinha ido demasiado longe. Se ainda podia voltar a casa. Uma Educação é a história apaixonante de uma mulher que se reinventa. Mas é também uma história pungente de laços de família e de dor quando esses laços são cortados. Com o engenho dos grandes escritores, Tara Westover dá forma, a partir da sua experiência singular, a uma narrativa que vai ao cerne do que é a educação e do que ela nos pode oferecer: a perspetiva de ver a vida com outros olhos e a vontade de mudarmos.

Opinião: Desde que comecei a ouvir falar neste livro, no ano passado, que fiquei com uma boa dose de certeza que iria gostar muito. Parecia ser exatamente a minha praia, também porque tenho vindo a ganhar cada vez mais gosto por livros de não ficção.

Tara Westover nasceu em 1985 no estado do Idaho, nos Estados Unidos da América, no seio de uma família mórmon que não acreditava em recorrer aos hospitais em caso de doença ou em colocar os filhos na escola. Neste relato na primeira pessoa, a autora conta histórias incríveis – pelo menos aos olhos daquilo que é “normal” na sociedade ocidental – de como foi crescer sem ir à escola ou várias situações em que os membros da família tiveram acidentes da mais variada gravidade e decidiram tratar-se em casa.

Dizia que boa parte das situações relatadas deixam o leitor incrédulo, mas a autora narra-as de tal forma que percebemos com clareza que, para aquela família, este modo de vida era perfeitamente normal e aceitável. Tara percorre um longo caminho até conseguir compreender que, talvez, se conseguisse entrar na universidade mesmo sem ter frequentado a escola, poderia saciar a sede de conhecimento que ela própria parecia não saber que tinha. E assim foi, a autora consegue entrar na universidade e, depois de muito esforço e percalços, acaba por conseguir um percurso brilhante.

Uma das coisas que mais me marcou neste livro – e foram várias – foi a ocasião em que, logo no início do seu percurso académico, ela ouve falar no Holocausto, sem fazer a mínima ideia do que se tratava. Todo o livro até ali tinha apresentado uma coleção de situações que demonstravam a distância entre esta menina-mulher e o conhecimento da História e do mundo que a rodeava, mas foi só aqui que me dei conta da tamanha ignorância que ela, inadvertidamente, possuía dentro de si. Como é possível que alguém possa ignorar o que era o Holocausto?

Mas nem só da questão da educação fala este livro; a história de Tara é profundamente marcada pelo abuso físico e psicológico. O mais chocante é que, até bem pouco tempo antes de escrever este livro, Tara encarava estas situações como normais, porque simplesmente foi o que sempre conheceu, e mesmo quando começou a sentir que havia algo de muito errado com tudo o que o seu irmão Shawn fazia e dizia, a ideia de que os laços de família deveriam ser preservados a todo o custo fizeram com que Tara aceitasse o que ia acontecendo, para não vergar ao peso da culpa de finalmente os cortar.

No final, apesar de ficar uma certa sensação de incompletude por estarmos perante a história de uma mulher de 34 anos, que ainda terá muito para viver e resolver, permanece também com o leitor uma maravilhosa história de superação e a incrível importância de coisas que temos como certas, como a saúde e a educação. Recomendo!

Classificação: 5/5 – Adorei

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