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Opinião: O Pintor de Almas | Ildefonso Falcones

Autor: Ildefonso Falcones
Título Original:
El pintor de almas (2019)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 650
ISBN: 9789896659608
Tradutor: José Vala Roberto/Lufada de Letras
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Barcelona, 1901. A cidade vive dias de grande agitação social. A miséria sombria dos mais desfavorecidos contrasta com a elegante opulência das grandes avenidas, onde começam a destacar-se alguns edifícios singulares, símbolo da chegada do modernismo. Dalmau Sala, filho de um anarquista assassinado, é um jovem pintor que vive preso entre dois mundos. Por um lado, a sua família e Emma, a mulher que ama, são fortes defensoras da luta dos trabalhadores; homens e mulheres que não conhecem o medo ao exigir os direitos dos trabalhadores. Por outro lado, o seu emprego na oficina de cerâmica de Dom Manuel Bello, o seu mentor e um conservador burguês de fortes crenças católicas, aproxima-o de um ambiente em que prevalecem a riqueza e a inovação criativa. Deste modo, seduzido pelas tentadoras ofertas de uma burguesia disposta a comprar o seu trabalho e a sua consciência, Dalmau terá de encontrar o verdadeiro caminho, como homem e como artista, e afastar-se das noites de vinho e drogas para descobrir o que realmente é importante para ele: os seus valores, a sua essência, o amor de uma mulher corajosa e lutadora e, acima de tudo, aquelas pinturas que brotam da sua imaginação e capturam, numa tela, as almas mais miseráveis que perambulam pelas ruas de uma cidade agitada pelo germe de rebelião. Com O Pintor de Almas, Ildefonso Falcones oferece-nos a poderosa história de um tempo conturbado, ao mesmo tempo que narra uma trama emocionante, onde o amor, a paixão pela arte, a luta pelos ideais e a vingança combinam com mestria para recriar uma Barcelona, outrora sóbria e cinzenta, que agora caminha para um futuro brilhante, onde a cor e a esperança começam a espalhar-se pelas suas casas e ruas.

Opinião: No início do século XX, Barcelona era uma cidade em agitação; por um lado, fervilhava a criatividade artística que dava corpo e cor a tantas obras marcantes da cidade que hoje conhecemos; por outro, foi uma época de grandes convulsões sociais e de luta pelos direitos dos trabalhadores. É neste cenário extremamente interessante e desafiador que Ildefonso Falcones coloca as suas personagens principais: Dalmau, filho de gente humilde e a começar a subir na sociedade graças ao seu incrível talento para a pintura, e Emma, a sua namorada, uma rapariga também de origens modestas, que luta sem medos para ver melhoradas as condições de trabalho.

À história destas duas personagens principais muitas outras se vão juntando – gostei particularmente da jovem mendiga Maravillas – mas há uma que não podia deixar de referir: a cidade de Barcelona é descrita nos seus vários tons e matizes, e é impossível não nos sentirmos transportados para aquela época. Eu sou particular admiradora da obra de Antoni Gaudí e ainda que ele ou o seu legado não sejam o foco principal deste livro, foi a principal figura do modernismo catalão, sobre o qual tanto aprendi neste livro. Muitos foram os artistas e as obras que participaram neste movimento, e foi realmente interessante saber mais sobre quem foram e o que fizeram. Nota-se a extensa pesquisa do autor, apesar de por vezes me ter parecido haver alguns blocos de informação que poderiam ter sido melhor integrados na narrativa.

O contraste entre toda esta beleza que se criava e a pobreza extrema em que boa parte dos habitantes da cidade vivia é por demais evidente, e Ildefonso Falcones traz neste livro um bom equilíbrio entre estas duas facetas da cidade, aparentemente tão opostas. É no meio das duas que encontramos o pintor Dalmau, que vagueia constantemente entre a beleza e a decadência, e que procura encontrar o seu lugar depois de um desentendimento com Emma o ter levado a perder o foco. Muitos são os avanços e recuos na vida dos dois, ficando por vezes a sensação que tudo lhes acontece.

O Pintor de Almas é um livro extenso e que, por isso, requer dedicação. Houve alturas mais mornas, em que achei que o livro teria ganho com a redução de algumas páginas, mas esses momentos foram recompensados por outros mais emotivos e que me fizeram querer virar páginas para saber o que iria acontecer. No cômputo geral, apesar de achar que podia ter sido melhor na caracterização das personagens e no rumo do enredo ficcional, é um sólido romance histórico, com muito para aprender e descobrir. É um autor que quero continuar a ler, sem dúvida!

Classificação: 3,5/5

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Sobre Célia

Tenho 38 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.