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Opinião: Uma Questão de Conveniência | Sayaka Murata

Autor: Sayaka Murata
Título Original:
Konbini ningen (2016)
Editora: Dom Quixote
Páginas: 168
ISBN: 9789722066631
Tradutor: Rita Kohl
Origem: Comprado
Comprar: Wook | Bertrand (links afiliados)

Sinopse: Keiko foi sempre estranha – e os pais perguntam-se onde encaixará ela no mundo real. Por isso, quando a rapariga resolve ir trabalhar para uma loja de conveniência, a notícia é recebida com entusiasmo, até porque na loja ela encontra um mundo bastante previsível, que domina com a ajuda de um manual e copiando os colegas até na forma de falar. Mas aos 36 anos é ainda na mesma loja de conveniência que trabalha, e além disso nunca teve um namorado, frustrando as expectativas da sociedade… Embora Keiko não se importe com isso, sabe que a família e os amigos estão mais ou menos desesperados. Um dia, porém, é contratado para a loja um rapaz com o qual Keiko tem algumas afinidades. Não será então aconselhável para ambos um relacionamento?

Opinião: Não leio muitos autores japoneses. A decisão não é propriamente consciente, é mais uma expressão de gosto pessoal; para ser sincera, dos poucos que li o único de que gostei foi de Haruki Murakami, ainda que lhe reconheça aquela característica da escrita japonesa que é a relativa estranheza, seja pela surrealidade, seja pela forma algo seca de escrever – ou, pelo menos, esta é a minha opinião ocidental enviesada. Apesar disto, estou longe de me sentir completamente imune às histórias que de lá têm chegado e foi por esse motivo que este Uma Questão de Conveniência me chamou a atenção.

Antes de mais, tenho de dizer que adoro a premissa deste livro. Sempre gostei de histórias de inadaptados sociais, e por isso encontrar uma personagem como Keiko, com dificuldade em entender as convenções sociais e para quem a maior parte das imposições sociais não parecem fazer qualquer sentido, é meio caminho andado para despertar muito a minha curiosidade. Keiko empregou-se numa loja de conveniência aos 18 anos, na altura com intenção de lá ficar temporariamente, mas a verdade é que aquele espaço físico, as suas rotinas e a sua organização começaram por oferecer-lhe um conforto que ela não encontrava em mais lado nenhum. E assim foi ficando, até que no início desta história Keiko já lá se encontrava a trabalhar há 18 anos, sendo a empregada mais antiga da loja.

Com 36 anos, a sociedade já espera que uma mulher tenha constituído família e que tenha um emprego decente, seja aqui ou no Japão. E porque não conseguiu isso e começa a ser pressionada pela família e pelas pessoas que a rodeiam, Keiko começa a sentir-se mal por não corresponder às expectativas. Quando aparece um novo empregado na loja, Keiko começa a achar que ele poderá ser o passaporte para a “normalidade”… mas será que é mesmo?

Uma Questão de Conveniência é um livro que explora as convenções sociais e a pressão que é para o ser humano atender-lhes, mesmo que para isso tenha de abdicar da sua individualidade, em maior ou menor grau. Como já disse, gostei muito da premissa e igualmente das questões pertinentes que levanta, mas não posso dizer que tenha gostado da escrita ou de alguns caminhos pelos quais a autora leva a sua história (não o final, que de certo modo redimiu isto tudo). Volto aqui ao que dizia no início deste texto a propósito da literatura nipónica: há um qualquer elemento nos textos destes escritores que me alheia. Não consigo perceber exatamente o que é, mas sei que não sou fã desta espécie de frieza que estes livros me transmitem.

Em suma, se gostam de literatura japonesa, é quase certo que vão gostar deste livro. Eu adorei a premissa e as reflexões que me trouxe, mas continuo a tentar encontrar um autor japonês que me encha as medidas.

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.