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Opinião: Jogos de Raiva | Rodrigo Guedes de Carvalho

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Ano de Publicação: 
2018
Editora: Dom Quixote
Páginas: 439
ISBN: 9789722065047
Origem: Empréstimo
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Sinopse: Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui? A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada. É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo. Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias. É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor. É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo.

Opinião: Rodrigo Guedes de Carvalho era um daqueles autores que eu, por qualquer motivo insconsciente, tinha colocado de lado nas minhas intenções de leitura. Talvez pela ideia pré-concebida de uma escrita rebuscada e de enredos complicados, que colegas da Roda dos Livros fizeram questão de desmistificar. Já tinha tido boas referências acerca de O Pianista de Hotel, mas decidi começar mesmo por Jogos de Raiva, o lançamento mais recente do autor.

A primeira página deste livro é qualquer coisa. Não é muito comum encontrarmos livros que causem tão grande impacto no leitor logo às primeiras palavras. As expectativas, que já era elevadas, ameaçaram logo ficar plenamente concretizadas. Jogos de Raiva conta a história de uma família nortenha, pai, mãe e três filhos. Franscisco Sereno, o pai, esteve na Guerra do Ultramar e tem passado a vida a tentar fazer-se notar no campo das artes, com especial relevo para as letras. Chegado à casa dos 70, consegue finalmente alcançar a fama ao publicar um livro com raízes profundas naquilo que são as redes sociais atuais e a forma como as pessoas as utilizam para ventilar ódios e indignações em relação a tudo o que mexe.

Nuno Maria, o filho mais velho de Francisco, é um jornalista famoso e reconhecido, que encara o livro do pai como uma afronta ao papel do jornalismo na atualidade. Rodrigo Guedes de Carvalho aproveita esta disputa entre pai e filho para refletir com o seu leitor sobre o que é o jornalismo, os desafios que enfrenta atualmente e os caminhos que está (ou não) a encontrar para os enfrentar e vencer. O tema das redes sociais é também abordado com algum detalhe e de forma bastante interessante. Entretanto, o enredo vai-se desenvolvendo em volta desta família, com o desvendar de segredos antigos que levaram a uma série de tensões presentes que guiam as relações entre os seus membros.

O leitor é levado através destas páginas em busca desses segredos e, em última análise, à explicação daquele início impactante. O estilo de escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho é bastante próprio; o autor usa constantemente um registo de frases entrecortadas que dá à leitura um ritmo muito particular. Não posso dizer que tenha ficado fã, ainda que lhe reconheça capacidades literárias que não se encontram, por exemplo, num José Rodrigues dos Santos (outro jornalista-escritor). A narrativa salta constantemente em termos temporais e também entre personagens, mas isto não a torna confusa. Nunca me senti perdida na trama e tive sempre vontade de prosseguir a leitura, o que só pode ser bom sinal. No final de contas, fica a impressão de uma boa leitura. Ainda que o estilo de escrita não me tenha conquistado, gostei da história, da forma como a narrativa se vai desvendando e das reflexões sobre a atualidade.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.