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Opinião: Obras de Maria Judite de Carvalho – Vol. I | Maria Judite de Carvalho

Autor: Maria Judite de Carvalho
Ano de Publicação: 
2018
Editora: Minotauro
Páginas: 240
ISBN: 9789898866219
Origem: Comprado
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Sinopse: A presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz é intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo. Observadora exímia, as suas personagens convivem com o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, permanecendo reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito. Este primeiro volume inclui as duas primeiras coletâneas de contos de Maria Judite de Carvalho: Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), Prémio Camilo Castelo Branco.

Opinião: Maria Judite de Carvallho foi uma escritora portuguesa cuja obra desconhecia até há bem pouco tempo. Na verdade, só ao ler este primeiro volume das suas “Obras Completas” (a coleção ficará com um total de seis volumes) é que me apercebi que já havia lido um conto de sua autoria, na coletânea Gloria in Excelsis – que foi, por sinal, um dos meus preferidos desse livro. Esta primeira parte de “Obras Completas”, da autora que faleceu em 1998, junta duas coletâneas de contos, as primeiras publicadas pela autora: Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas

Do que tinha lido e ouvido deste livro até agora, tinha a sensação que estas histórias tinham tudo para me agradar, mas não tinha a noção do quanto. O conto que dá início ao livro, “Tanta Gente, Mariana”, é simplesmente genial. Mariana, a protagonista, tem uma doença terminal e percebe que, mesmo rodeada de gente, no fundo e no final de tudo, está sozinha. Esta história despoleta uma profunda reflexão sobre a condição humana, sobre aquilo que somos ou ambicionamos ser. Como é óbvio, não é estritamente necessário que o leitor se identifique com uma personagem ou com a sua forma de encarar a vida, mas encontrei em Mariana uma ligação visceral pela certeza de que por mais pessoas que tenha em meu redor, no final estarei sozinha. E a frustração pelo que fica por fazer ou dizer será algo que depende, quase em exclusivo, de mim própria.

Os restantes contos da primeira coletânea são, na sua grande maioria, histórias excelentes. Quase todos elas com protagonistas femininas, são enredos que abordam muito o papel da mulher na sociedade portuguesa de meados do século XX. Mas mesmo que entretanto tenhamos mudado de século e muitas vitórias tenham sido alcançadas em prol do feminismo, continuei a ver nestes contos muito daquilo que continua a ser o papel da mulher na sociedade e, mais concretamente, no seio da família. Há dois ou três contos em que a autora elege o homem como protagonista e adorei igualmente o tom trágico-cómico que imprime a estas histórias. Gostei particularmente do segundo conto do livro, “A Vida e o Sonho”, que me fez lembrar o protagonista de Stoner. sem esquecer o conto que encerra a primeira coletânea, “O Passeio no Domingo”, que reserva ao seu protagonista um destino muito peculiar.

Confesso que o conto que inicia a segunda parte do livro, “As Palavras Poupadas”, e que é também o maior de todo este livro, não me agradou tanto como o “Tanta Gente, Mariana”, mas a fasquia também era demasiado elevada. Acaba por ser uma história que explora as dificuldades de comunicação entre as pessoas e demonstra como tantos problemas poderiam ser evitados se as palavras corretas fossem usadas nos momentos certos. O final da história deixou-me a sensação de algo inacabado. Das restantes histórias do livro gostei muito, apenas com raras exceções.

Não posso deixar de referir o quanto fiquei encantanda com a escrita de Maria Judite de Carvalho. Há qualquer coisa de certeira na sua escrita; não são necessárias muitas palavras ou um estilo muito rebuscado para ir direito ao assunto e deixar o leitor perplexo com a sua capacidade de analisar e expôr a essência do ser humano, com especial pendor para o sentir feminino. Não hesito em dizer que foi uma das melhores descobertas dos últimos tempo e que fica a certeza que irei ler os restantes volumes destas suas “Obras Completas”. Uma palavra final para as minhas companheiras de leitura, a Elisa, a Ana e a Cristina, que enriqueceram de forma incrível aquilo que foi a experiência de ler este livro. Obrigada a todas!

Classificação: 5/5 – Adorei


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.