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Opinião: A Cor Púrpura | Alice Walker

Autor: Alice Walker
Título Original:
 The Color Purple (1982)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 344
ISBN: 9789896656805
Tradutor: Tânia Ganho
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Celie, de 14 anos, escreve cartas a Deus para tentar compreender o que lhe está a acontecer. Órfã de mãe, abusada pelo homem a quem chama “pai”, separada da irmã, privada dos dois filhos e oferecida em casamento a um homem que a maltrata, Celie considera-se “pobre, negra e feia”. Até que conhece Shug Avery, a amante do seu marido. Com a ajuda de Sugar, “a mulher mais linda” que ela viu na vida, Celie descobre não só o paradeiro da sua irmã desaparecida, mas também o próprio corpo, o prazer, o amor e, acima de tudo, a sua voz. Romance epistolar composto pelas cartas que Celie endereça a Deus com uma honestidade brutal e pelos relatos de viagem que Nettie lhe envia de uma missão em África, A Cor Púrpura aborda temas como a violência doméstica a que estavam sujeitas as mulheres negras no início do século XX, a relação dos negros com o seu passado de escravatura, e a busca espiritual num mundo cruel e sem sentido.

Opinião: Há já imenso tempo que tinha vontade de ler este livro, e a nova edição que chegou às livrarias no início deste mês, repondo deste modo um livro que há muito tinha esgotado, foi uma excelente oportunidade de satisfazer esse desejo. A Cor Púrpura, originalmente publicado em 1982, é provavelmente o livro mais conhecido da escritora norte-americana Alice Walker, tendo ganho um Prémio Pulitzer e sido adaptado ao cinema por Steven Spielberg.

Através de um registo epistolar, Alice Walker conta-nos esta história a duas vozes: Celie e Nettie, duas irmãs afro-americanas que conhecem destinos diferentes na América da primeira metade do século XX. Celie, após ser abusada pelo padrasto ainda durante a adolescência e ter sido mãe por duas vezes, é obrigada a casar com um homem mais velho e a submeter-se à sua vontade. Enquanto tudo isto lhe acontece, Celie vai escrevendo cartas a Deus, numa tentativa atabalhoada de dar algum sentido ao rumo que a sua vida segue, em textos que revelam a pobreza e a prisão em que vivia, juntamente com uma vontade férrea de se soltar dessas amarras.

Ambas as histórias mostram ao leitor alguns dos possíveis destinos das mulheres negras do estrato mais baixo da sociedade, e os que sobram não seriam muito melhores. Celie é uma força da natureza, e ainda que no início se vergue à sua sorte, a semente da rebeldia e o acreditar que a vida não é só aquilo que conhece vão ganhando forma à medida que a narrativa avança. Alice Walker transforma Celie num veículo de disrupção do papel da mulher na sociedade americana da época, sendo que o efeito é ainda mais acentuado por se tratar de uma mulher negra.

Alice Walker refere no prefácio deste livro que A Cor Púrpuracontinua a ser uma obra teológica que examina a viagem de regresso do religioso ao espiritual” e é também em Celie que a autora revela essa viagem, uma vez que a personagem começa por se dirigir a um Deus patriarcal, acabando por assumi-lo como uma expressão da natureza que a rodeia.

Não posso deixar de referir a brilhante tradução de Tânia Ganho neste livro. Na nota inicial, dá-nos uma pequena ideia do enorme desafio que constituiu verter as particularidades do texto original para a nossa língua, especialmente nas cartas de Celie, repletas de erros ortográficos e marcados pela oralidade afro-americana. Para mim, o resultado não poderia ter sido melhor.

O balanço final desta leitura é muito positivo. A Cor Púrpura mostra facilmente por que motivo continua a ser um livro relevante nos dias que correm, pelos temas que aborda e pela originalidade com que o faz. A não perder!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.