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Opinião: Canção Doce | Leïla Slimani

SlimaniAutor: Leïla Slimani
Título Original:
Chanson douce (2016)
Editora: Alfaguara
Páginas: 216
ISBN: 9789896652234
Tradutor: Tânia Ganho 
Origem: Comprado
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Sinopse: Mãe de duas crianças pequenas, Myriam decide retomar a actividade profissional num escritório de advogados, apesar das reticências do marido. Depois de um minucioso processo de selecção de uma ama, o casal escolhe Louise. A ama rapidamente conquista o coração dos pequenos Adam e Mila e a admiração dos pais, tornando-se uma figura imprescindível na casa da jovem família. O que Myriam e Paul não suspeitam – ou não querem ver – é que a sua pequena família é o único vínculo de Louise à normalidade. Pouco a pouco, o afecto e a atenção vão dando lugar a uma interdependência sufocante, com o cerco a apertar a cada dia, até desembocar num drama irremediável. Com um olhar incisivo sobre esta pequena família, Leila Slimani aponta o foco para um palco maior: a sociedade moderna, com as suas concepções de amor, educação e família, das relações de poder e dos preconceitos de classe. Com uma escrita cirúrgica e tensa, eivada de um lirismo enigmático, o mistério instala-se desde a primeira página, um mistério que é tanto sobre as razões do drama como o das profundezas insondáveis da alma humana.  

Opinião: Já tínhamos falado de Chanson douce na Roda dos Livros e, desde então, soube que iria ler mal saísse a edição portuguesa. Este livro, vencedor do Prémio Goncourt de 2016, começa de uma forma terrível: duas crianças, incluindo um bebé, são assassinadas pela sua aparentemente perfeita ama. Desde o início, não há dúvidas quanto à identidade da pessoa que comete este crime brutal, e a sua investigação está longe de ser o ponto central do livro.

Leïla Slimani leva-nos a uma viagem sufocante pela vida de um normal casal francês, que luta pela manutenção da sua identidade como pessoas enquanto pais. Porque querem ambos, especialmente a mãe, ter uma vida profissional que muitas vezes se revela exigente, acabam por recorrer aos serviços de uma ama, Louise, que, aos poucos, se vai tornando cada vez mais parte da família. A sua solicitude, mesmo quando não lhe era exigida, encanta Myriam e Paul e devolve-lhes um pouca da liberdade perdida pela parentalidade. “Louise atarefa-se nos bastidores, discreta e poderosa. É ela quem segura nos fios transparentes sem os quais a magia não se pode concretizar.

Mas, a pouco e pouco, a perfeição começa a parecer demasiado perfeita. O leitor vai percebendo a crescente intromissão sufocante de Louise na vida desta família e, mesmo conhecendo o desfecho da história, deseja que ela tome outros contornos. Os vislumbres da vida de Louise que a autora nos oferece são por vezes angustiantes, mas um contributo fundamental para a perceção de toda a complexidade desta personagem. Na verdade, todos os retratos psicológicos presentes em Canção Doce formam um conjunto que impressiona pela sua realidade e atualidade.

Os convites à reflexão são vários, destacando-se eventualmente o papel da maternidade na sociedade atual e a crescente solidão em sociedades onde as pessoas parecem mais “ligadas” do que nunca. Apesar dos temas complexos e dos acontecimentos negros, é um livro que se lê muito bem pelo escrita límpida e ritmada de Leïla Slimani. Gostei muito deste livro e, portanto, quero conhecer mais desta autora franco-marroquina. 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.