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Das Palavras às Imagens (36)

No Coração do Mar, de Nathaniel Philbrick, foi uma das melhores leituras do ano passado. A publicação deste livro em Portugal quinze anos após ter sido publicado deve-se principalmente ao facto de ter sido alvo de uma adaptação cinematográfica com o cunho de Ron Howard (conhecido, entre outros, por A Beautiful Mind, em que ganhou o Óscar de “Melhor Realizador”).

Filme "No Coração do Mar"

Na passada sexta-feira, apanhei no TV Cine 1 a estreia deste filme e não hesitei em vê-lo. Para quem não conhece a história, No Coração do Mar relata a história verídica do naufrágio do baleeiro Essex em 1820, por acção de uma baleia gigante, e do que aconteceu aos seus náufragos. Nathaniel Philbrick conseguiu, com o seu livro, contar a história de uma forma cativante, num texto muito bem documentado e interessante. A minha curiosidade em relação ao filme era, principalmente, verificar se conseguiria cativar-me da mesma forma, ainda que tivesse noção que era muito provável que a parte jornalística do livro seria deixada para segundo plano.

Visto o filme, posso dizer que o balanço final é positivo. Como seria de esperar, os argumentistas optaram por colocar em primeiro plano os dramas pessoais das personagens, com destaque para os confrontos entre George Pollard, o capitão, e Owen Chase, o primeiro-imediato – aqui interpretado por Chris Hemsworth. A presença deste ator no elenco fazia adivinhar que a sua personagem iria ganhar destaque como o herói da trama e, de facto, assim aconteceu. Quando li o livro, confesso que não simpatizei propriamente com nenhuma das personagens principais, mas num filme admito que fará algum sentido tornar estas disputas de autoridade no Essex como um motor da narrativa e algo passível de aumentar o interesse da história.

Também se optou no filme por prolongar o confronto baleia-homens para além do naufrágio do Essex, e isto já me deixou um bocado cética. Se, por um lado, percebo o apelo da revolta da natureza personificada naquela baleia que persegue os seus caçadores até ao limite, por outro acho que isto leva a narrativa para um plano algo fictício que não se coaduna muito bem com a veracidade da história. E isto leva-me àquilo de que mais senti falta no filme: contextualização. Os ricos detalhes históricos sobre a atividade da baleação e a prosperidade de cidades como Nantucket na primeira metade do século XIX foi dos aspetos que mais me cativaram no livro e, ainda que perceba a dificuldade de enriquecer o filme a este nível, penso que poderia ter sido um maior esforço. 

Deixei para o fim uma nuance do filme que me agradou sobremaneira: a história é narrada em retrospetiva por um dos sobreviventes do naufrágio, Tom Nickerson, quando é procurado por Herman Melville, que procurava saber mais sobre a história daquela baleia que não o largava. É facto comprovado que este naufrágio e os relatos que o documentam foram inspiração para Melville escrever o seu famoso Moby Dick, por isso foi uma ideia que me pareceu bem conseguida.

De um modo geral, gostei desta adaptação, mas gostei mais do livro.


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.