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[Opinião] A História de uma Serva, de Margaret Atwood

18277263Autor: Margaret Atwood
Título Original:
The Handmaid’s Tale (1985)
Editora: Bertrand
Páginas: 348
ISBN: 9789722525770
Tradutor: Rosa Amorim
Origem: Comprado

Sinopse: Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.  Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.

Opinião: Gosto muito de distopias, provavelmente porque dentro dos seus mundos extremados encontramos, não raras vezes, chamadas de atenção para o que de errado se passa com o nosso mundo. Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, talvez a distopia mais famosa de todas, encontra-se mesmo entre os meus livros preferidos de sempre. Este A História de uma Serva é outro daqueles livros normalmente referidos quando se fala em boas distopias e era, por esse motivo, um livro que andava debaixo de olho há já bastante tempo.

Nesta distopia, são-nos apresentados uns Estados Unidos da América em plena teocracia, onde as instituições religiosas tomaram para si o poder e exercem-no de forma violenta, com base em pressupostos e episódios da Bíblia. Este modelo de sociedade foi implementado há poucos anos, quando o livro começa, e a liberdade de outrora deu lugar à repressão e ao controlo extremos de ações. Mas mais do que isso, a quebra extrema da natalidade devido ao contacto do ser humano com produtos tóxicos levou à criação de escolas para mulheres teoricamente férteis. Aí, aprendem os preceitos das tarefas que as aguardam nas residências de casais inférteis, nas quais deverão ter relações com o homem da família e procriar para que o casal possa ter um filho.

Defred – que significa “De-Fred”, pertencente a Fred – é uma dessas mulheres, que usam toucas brancas e roupa vermelha, para serem facilmente identificáveis. É pela voz dela, na primeira pessoa, que esta história é contada, e é a vida dela, a sua angústia, frustração e solidão que vamos acompanhando ao longo deste livro. O seu relato é um hino à resiliência do ser humano, sempre que fala do presente, e, ao mesmo tempo, um poço  de nostagia pela liberdade e felicidade de outrora, sempre que a narrativa se desloca para o passado.

Este livro pinta um cenário triste e assustador. Quando penso nisto, gosto de imaginar que nunca chegaremos a um extremo destes, depois do longo caminho percorrido na luta pelos direitos das mulheres, mas ao mesmo tempo sei, e sinto frequentemente, no meu dia-a-dia, que ainda há muito por fazer. Por isso, apesar de ter quase 30 anos, este livro mantém-se muito atual, não só no que toca ao feminismo, como também ao fundamentalismo religioso, seja qual for a religião de que estamos a falar.

Gostei muito da escrita de Margaret Atwood. Evocativa, poética e com paixão pelo detalhe, apesar de alguns saltos entre presente e passado parecerem um pouco confusos. De resto, o que faltou para ter achado este um livro perfeito? Em primeiro lugar, o desenvolvimento do pano de fundo desta história. É verdade que é narrada na primeira pessoa por Defred, que tem um acesso muito limitado a informações sobre o mundo que a rodeia, mas ainda assim senti falta de saber mais coisas sobre aquela sociedade. Depois, e apesar de não achar, de todo, que o livro aborda temas datados, alguns elementos deste livro estão datados, situando-o claramente nos anos 1980. O que por si só não é mau, mas acho que distopias devem ter um caráter mais intemporal, podendo ser lidas em qualquer altura sem qualquer espécie de sensação de deslocamento por parte do leitor. Por fim, o final. É um final inesperado e justificado no epílogo, mas ainda assim deixa tudo demasiado em aberto para o meu gosto.

No entanto, foi sem dúvida um livro que valeu muito a pena. Bem escrito, com temas interessantes e pertinentes e que deixa vontade de continuar a explorar esta autora. Recomendo.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.