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[Opinião] Lugares Escuros, de Gillian Flynn

18490192Autor: Gillian Flynn
Título Original:
Dark Places (2009)
Editora: Bertrand
Páginas: 416
ISBN: 9789722527163
Tradutor: Tânia Ganho
Origem: Comprado

Sinopse: Libby tinha sete anos quando a mãe e as duas irmãs foram assassinadas no «Sacrifício a Satanás de Kinnakee, no Kansas». Enquanto a família jazia agonizante, Libby fugiu da pequena casa da quinta onde viviam e mergulhou na neve gelada de janeiro. Perdeu alguns dedos das mãos e dos pés, mas sobreviveu e ficou célebre por testemunhar contra Ben, o irmão de quinze anos, que acusou de ser o assassino. Passados vinte cinco anos, Ben encontra-se na prisão e Libby vive com o pouco dinheiro de um fundo criado por pessoas caridosas que há muito se esqueceram dela. O Kill Club é uma macabra sociedade secreta obcecada por crimes extraordinários. Quando localizam Libby e lhe tentam sacar os pormenores do crime (provas que esperam vir a libertar Ben), Libby engendra um plano para lucrar com a sua história trágica. Por uma determinada maquia, estabelecerá contacto com os intervenientes daquela noite e contará as suas descobertas ao clube… e talvez venha a admitir que afinal o seu testemunho não era assim tão sólido. À medida que a busca de Libby a leva de clubes de striptease manhosos no Missouri a vilas turísticas de Oklahoma agora abandonadas, a narrativa vai voltando atrás, à noite de 2 de janeiro de 1985. Os acontecimentos desse dia são recontados através da família de Libby, incluindo Ben, um miúdo solitário cuja raiva contra o pai indolente e pela quinta a cair aos pedaços o leva a uma amizade inquietante com a rapariga acabada de chegar à vila. Peça a peça, a verdade inimaginável começa a vir ao de cima, e Libby dá por si no ponto onde começara: a fugir de um assassino.
 

Opinião: Gone Girl foi um dos meus livro preferidos de 2013, e quando o li soube logo que teria de ler mais qualquer coisa da Gillian Flynn para confirmar aquela primeira boa impressão. A oportunidade surgiu com este Lugares Escuros, o segundo livro publicado pela autora, antes de Gone Girl.

Lugares Escuros segue duas linhas temporais: no presente, conhecemos a estranha Libby Day, que vive com o fantasma dos acontecimentos de 1985, quando a sua mãe e duas irmãs foram brutalmente assassinadas na casa onde viviam. Libby conseguiu sobreviver, mas a forma como perdeu parte da família contribuiu para que a menina com então 7 anos tivesse uma infância-adolescência desregrada, sem o desejável apoio familiar, e se tivesse tornado numa mulher esquiva e anti-social. A outra linha temporal recupera a véspera e o dia dos assassinatos, sob a perspetiva de Patty Day, a mãe de Libby, e de Ben Day, o seu irmão, que foi declarado culpado dos crimes e que se encontra atualmente na prisão.

Libby viveu ao longo destes anos à conta de um fundo com dinheiro doado por várias pessoas por causa da sua situação precária, mas quando a história começa o dinheiro está no fim e Libby não quer trabalhar. É por isso que aceita a proposta que lhe chega do Kill Club, um clube secreto onde as pessoas se entretêm a estudar e a investigar detalhes dos crimes mais famosos do país: essa proposta inclui o fornecimento de memorabilia das vítimas e Libby contactar algumas das pessoas que possam ter estado envolvidas. Isto porque muitos dos membros acreditam na inocência de Ben Day e pretendem prová-la.

Gillian Flynn cria aqui, quanto a mim, um retrato interessante das zonas rurais norte-americanas de meados da década de 1980, onde o satanismo era, pelos vistos, uma moda. É neste contexto que encontramos a família Day, mãe e 4 filhos menores abandonados pelo pai, que mora numa quinta onde investiu as suas poupanças, atraída pelo boom da agricultura. Mas as coisas não correm bem e os Day passam por dificuldades financeiras, enquanto Ben, o adolescente de 15 anos, luta contra o bullying e o facto de se sentir deslocado no seu grupo de “amigos” (tema, aliás, que continua muito atual).

Todo o tom do livro é negro e macabro, e são muitas as partes em que o leitor se sente desconfortável. Aliás, tendo em conta o Gone Girl, já esperava encontrar pessoas malucas e disfuncionais, mas ainda assim achei a criação de todo este ambiente notável da parte da autora. As partes decorridas em 1985 foram as minhas preferidas: tanto Patty como Ben revelam-se duas personagens credíveis e com quem, apesar dos seus “lugares escuros”, simpatizamos.

Já com a parte do presente, narrada por Libby, tive alguns problemas. Em primeiro lugar, porque a Libby me deixou um bocado indiferente. Acho que era suposto sentirmos um misto de repulsa e pena por aquilo em que esta personagem se tornou, mas senti sempre a falta de qualquer coisa que me conseguisse fazer acreditar, de forma convincente, que aquela pessoa era exatamente assim. Depois, ao fim de tanto anos a “esquecer” o que aconteceu à família e a preferir não remexer no passado, é a falta de dinheiro e umas quantas pessoas desconhecidas que a vão motivar a desenterrar fantasmas antigos? Não fiquei muito convencida.

É um bom livro, apesar de tudo. A voz da autora é um ponto positivo e o desenlace da história, apesar de não ser tão completamente inesperado como em Gone Girl, tem os seus méritos e faz sentido dentro da história. Portanto, recomendo este livro a quem procura um policial fora do vulgar, com uma boa caracterização psicológica das personagens (apesar da Libby) e com temas e situações suscetíveis de criar incómodo no leitor.

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.