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Leitor Convidado (10)

Antes de começar este texto, quero agradecer à Célia por me ter convidado a escrevê-lo. Sinceramente, estava a ver que nunca mais… 😉

 

Estudar as Letras em Portugal

 

Letras é uma designação genérica que diz respeito às áreas de estudo da Linguística, da Literatura, da Cultura, História e Filosofia. A minha licenciatura tem um nome muito longo mas, abreviadamente, prende-se com o estudo das culturas inglesa e americana. Das áreas acima nomeadas, dei um bocadinho de tudo, no contexto inglês e americano. As que mais trabalho deram e as mais prazerosas foram as literaturas correspondentes, em que estudei os autores dos respectivos cânones literários, os vários movimentos artísticos, o que se escreveu em determinados momentos da história e porque continuam tão relevantes nos dias de hoje. Mas o meu percurso até chegar à licenciatura e ao mestrado não foi fácil, nem foi um mar de rosas…

 

As Letras da Infância

Os meus pais sempre gostaram de ler e, por isso, desde o início, sempre incentivaram a leitura tanto a mim como aos meus irmãos. Sempre tivemos livros à nossa disposição, quer fossem banda-desenhada, livros de aventuras, clássicos juvenis ou enciclopédias que mostravam as histórias e imagens de outros países muito longe do meu. Quando comecei a saber escrever, passei também a escrever algumas histórias. Cadernos, lápis e canetas também foi coisa que não nos faltou. Eu gostava tanto de ler e daquilo que lia, que queria experimentar escrever a minhas próprias histórias e criar personagens que fossem só minhas. Considero-me uma sortuda quanto aos professores que tive porque, mesmo nas cadeiras que menos gostava, reconheço que eram excelentes professores. Em Português, lembro-me perfeitamente da minha professora do 7.º ao 9.º ano nos ter incentivado a ler e a escrever, a pensar por nós próprios e a criar os nosso mundos. Todos os meses tínhamos que lhe entregar, pelo menos, uma ficha de leitura sobre um livro que tivéssemos lido, à nossa escolha. Isso obrigava-nos a ler e a pensar sobre aquilo que líamos. Tínhamos que fazer um resumo da história e explicar o que tínhamos gostado, ou não, e porquê. Foi a primeira professora que tive que estimulava o nosso pensamento crítico e que apelava à nossa imaginação. Outra coisa de que gostava particularmente, era de, depois de estudarmos um determinado texto, inventarmos um final diferente, ao nosso gosto. Lembro-me de um que me ficou para sempre: demos um pequeno conto do Mia Couto nas aulas. Na altura, sabia-se lá quem era o Mia Couto, mas ela sabia e eu, com 12 ou 13 anos andava a ler contos do Mia Couto. O exercício final não foi uma análise do texto ou coisa parecida. Foi escrevermos a nossa própria história utilizando os nossos próprios neologismos, tal como ele faz nos seus textos. As palavras inventadas, as palavras criadas através da junção de duas palavras diferentes. E foi tão giro! E divertimo-nos tanto naquelas aulas a ler os textos uns dos outros, a comparar, a discuti-los. Ela foi uma professora tão boa, que eu adorei ler Os Lusíadas, e não conheço mais ninguém que tenha gostado. Também gostava de ler aquilo que eu escrevia e incentivou-me a participar num concurso de poesia local, que eu calhei ficar em 2.º lugar num ano, e a ganhar no outro. E é isto que um professor, penso eu, deve fazer: partilhar conhecimento, estimular o pensamento e a imaginação dos alunos, desafiá-los e descobrir potencialidades. Apresentar-nos histórias, livros e deixar que nos apaixonemos por eles. Depois veio o secundário e a coisa mudou de figura.

 

As Letras na Adolescência

A adolescência foi um período particularmente difícil e confuso para mim. E quem é que não teve uma adolescência confusa, certo? Mudei de escola, fui para um agrupamento em que não conhecia ninguém e eu, miúda tímida, introvertida, com propensão a ataques de ansiedade e de pânico, acabei por me isolar um pouco. Foi uma altura um pouco obscura para mim e, por isso, apoiava-me em coisas que diziam e espelhavam aquilo que eu não conseguia expressar por mim mesma. A música mais pesada e a poesia de autores como Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e o liricismo de Jim Morrison nas músicas dos The Doors, era aquilo que acabava por me confortar e onde me refugiava. Isso e nas próprias letras que eu passava para o papel. Em termos de ensino, li as obras obrigatórias do secundário, mas confesso que não li mais nada. Tinha demasiadas coisas na cabeça e, comigo, a estratégia de obrigar os alunos a ler porque sim, nunca funcionou. Na altura não li Os Maias por completo, li O Memorial do Convento na diagonal, li o Felizmente Há Luar com algum sacrifício e penso que me fiquei por aí. Tive um professor do 10.º e 11.º anos fabuloso, que nos explicava as coisas até nós ficarmos a percebê-las, mesmo que isso demorasse duas horas. Descobri novos autores, novos poetas, de que passei a gostar para sempre. Mas não na altura. Era uma aluna razoável, mas não percebia porque é que, a fazer uma coisa que até gostava de fazer, como a análise de textos, eu não passava do razoável. Com uns anos de distanciamento, já percebo. Maturidade. A maior parte dos miúdos com 16 ou 17 anos, não tem maturidade para perceber Os Maias, ou o Sermão de Santo António aos Peixes, ou a poesia do Cesário Verde. Primeiro: a carga horária é brutal. Chega-se a casa e só se quer ver televisão, ou jogar um pouco no computador, ou ficar a olhar para o tecto a ouvir música. Depois, há demasiadas hormonas aos saltos para nos concentrarmos em textos que têm a sua complexidade e que nós não conseguimos compreender. Não digo que temos de parar de dar essas obras. Mas talvez devêssemos estudá-las de maneira diferente. Se calhar, em vez de analisar primeiro para gostar depois, o percurso deveria ser o inverso. Basicamente, é-nos despejado um sem número de noções teóricas que não percebemos porque nos falta o contexto e bases anteriores. E depois de despejadas essas noções, toca de analisar o texto. A análise de texto, seja prosa ou poesia, é demasiado mecânica, retira a emoção ao texto. Eu olhava para um poema do Bocage e o meu pensamento era “ok, tenho que descobrir quais as figuras de estilo é que aqui estão, porque é que ele as utilizou e o que ele quer dizer com isto“. A beleza do poema em si, o contexto em que o poeta o escreveu, os simbolismos por detrás dele, vinham depois, quando nós já estávamos fartos dos poemas e queríamos passar para a página seguinte. Anos mais tarde, adoro Bocage. Lembro-me de ter que analisar a Toca, onde Carlos da Maia e Maria Eduarda se encontram e consumam o seu amor. Aquele sítio está repleto de simbolismos e presságios para o que vai acontecer depois. Lembro-me que identifiquei alguns, na altura, mas só mais tarde, quando reli o livro, é que percebi toda a carga emocional, toda a importância do simbolismo que está ali reunido e o quanto o destino é cruel. E quem fala na Toca, fala em tantos outros locais e momentos do texto (sim, Ramalhete, estou a olhar para ti). Há uma entrevista de Tzvetan Todorov em que ele diz: “Literatura não é teoria, é paixão“. A análise, a desconstrucção, são importantes, mas se não nos apaixonarmos pelo texto antes, se não lhe conseguirmos ver a beleza, a pertinência, a teoria não chega para atrair os jovens para a literatura. Aliás, até penso que os repele. Parafraseando Todorov, a função de um professor é ensinar o aluno a amar os livros. Foi isso que me aconteceu até ao 9º ano. Mas com a entrada no secundário, deixei quase completamente de ler.

 

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As Letras na Universidade

Quando terminei o secundário, não entrei logo para a faculdade. Estive um ano à espera (por três centésimas…) e depois lá ingressei num curso chamado Artes do Espectáculo. Chumbei no primeiro ano, por questões pessoais, fiz o primeiro ano do curso e deixei o segundo ano a meio, porque percebi que não era por ali que queria ir. Eu sabia que queria tirar um curso, mas qual? “Ok Diana, concentra-te: do que é que tu realmente gostas? Assim mesmo, mesmo, mesmo?” Resposta: ler. Gosto de ler, de me apaixonar por uma história, pelas suas personagens, e de descobrir-lhe os significados. Perceber o contexto da obra, do autor, daquilo que veio antes dele e desconstruir o texto. “Ok Diana, vais para Literatura Inglesa“. Mas como havia um curso que juntava a inglesa e a americana, pensei, porque não levar o melhor dos dois mundos e ver como se influenciavam? Pronto, ’tá feito. Não vou falar de cadeiras de história, cultura, linguística e coisas que tais, porque senão nunca mais daqui saíamos. Vou-me cingir às literaturas. Logo a primeira coisa que não percebi foi esta: dar literatura inglesa da frente para trás. Começámos pelo século XX e cheguei ao último ano a dar poesia do século XVI e XVII. Oi? Então mas… Primeira aula de literatura do século XVIII ao XX: “Então vamos ler Wordsworth e as “Preface to the Lyrical Ballads” e a sua importância para o Romantismo inglês” What sorcery is this?! Quem? O quê? Quando? Mas olhem, levei uma dose de Romantismo e dos seus textos base, que foi um mimo. Fiquei logo a saber o que era o Romantismo, onde começou e porquê. E o Bildungsroman? Opá, nunca mais me esqueci. E eu nem sei alemão! Já na literatura americana, a coisa seguiu o seu rumo normal: começámos nos primeiros autores e terminámos no pós Segunda Guerra Mundial. O que me apanhou desprevenida foi a forma como se davam as aulas de literatura. Fazia-se análise de texto, claro. Mas a forma como se fazia era diferente. Primeiro: contexto cultural e social da obra e do autor. Se possível, com mais textos para ajudar. E depois, a análise não era feita de forma a despejar conceitos e teorias. Lia-se o texto e no fim “Então vamos lá falar do texto. Primeiras impressões? O que acharam?” E basicamente estávamos duas horas à conversa sobre um texto, concordando e discordando uns dos outros, com o professor a mediar o debate. Claro que depois de nós termos pensado por nós próprios durante duas horas e durante o tempo que lemos o texto, a ouvir os argumentos de uns e de outros, vinha a parte teórica da análise de texto em si. Mas aí já não nos era tão difícil perceber o texto, porque tínhamos falado dele antes. E foi isto que notei em todas as cadeiras de literatura que tive. Mesmo quando tive que ler romances, uns dos quais gostei, outros nem tanto, havia sempre uma discussão prévia à análise do texto propriamente dita. E o que importava na análise de texto na faculdade, não era o que importava no secundário. A métrica às vezes não tem tanta importância, não temos que desvelar toooodas as figuras de estilo que lá estão. Só as que são mais importantes. Importa o simbolismo, os significados escondidos nas entrelinhas e isso sim é que eu adoro descobrir. Alguns dos meus livros favoritos estudei-os na faculdade. Jane Eyre, The Bell Jar, a paixão por Shakespeare, John Keats, Edgar Allan Poe, Oscar Wilde. E no último ano tive uma cadeira de literatura inglesa em que, basicamente, partindo de textos da autora Virginia Woolf, discutíamos o conceito de literatura. O que é literatura? Quem diz o que pertence ou não ao cânone literário? E porque não há mais mulheres no cânone? E o que faz um texto ser um clássico e outro não ser? Foram aulas interessantíssimas e que nos puseram a pensar. Desafiavam-nos enquanto leitores, enquanto criaturas pensantes, a reflectir sobre a literatura, sobre a nossa realidade, sobre os textos que lemos, sobre o que gostamos ou não. A nossa professora, como todos os outros professores de literatura, era uma leitora ávida. E as aulas dela eram eternos debates sobre a leitura.

 

As Letras na minha vida

O meu objectivo, com este texto, não é vir pregar às massas sobre como ensinar a literatura. Esta é apenas a minha visão pessoal, daquilo que me aliciou e daquilo que me afastou dos livros. Neste momento, falta-me defender a minha tese de mestrado e estou em pulgas para começar o doutoramento. Alguns dizem que não sou normal, outros dizem que isto não serve para nada. Outros dizem-me que quando se faz aquilo que gosta, tornamo-nos bons, quiçá nos melhores e acabamos sempre por descobrir um caminho, por mais que a vida nos queira fechar portas e janelas. É nisso que acredito. O meu mestrado foi, obviamente, na área da literatura. Ainda por cima, numa literatura que não se estuda na minha faculdade: a literatura medieval inglesa. Lá fui eu desbravar poesia anglo-saxónica, textos mitológicos celtas, literatura arturiana e crónicas pseudo-históricas daquele tempo que foram “só” dez séculos. Pode não servir para nada, mas nunca me senti mais realizada do que a ler, a pensar no que li, a fazer ligações e comparações, a desvelar significados e a escrever sobre tudo aquilo que descobria. A minha vida, neste momento, é a literatura. São os livros, a leitura, a escrita, o aprofundamento daquilo que já conheço e o desbravamento de territórios ainda não explorados. Sou fascinada por alguns movimentos literários e artísticos (entre eles… o Romantismo!), quero saber o que moveu determinados escritores a escreverem as suas obras e o que quiseram dizer com elas. A literatura é cultura. É ela que, em conjunto com outras formas de arte como a pintura, o teatro, o cinema, a dança, a música, forma a identidade de um povo. Em muitas culturas só é possível saber algo sobre elas, sobre os seus costumes, hábitos e crenças, através dos textos que nos foram deixados. Como é possível haver gente que não goste de ler? Como é possível haver gente que trate os textos como se fossem um conjunto de normas e convenções a serem desconstruídas pelos alunos? Um texto, um romance, um poema, é tão, mas tão mais que isso. São viagens, são aventuras, são amor, são vingança, são aprender a lidar com os nossos medos, frustrações e perceber que não estamos sozinhos. São contactarmos com pessoas e espaços diferentes. São aprendermos, também, a estarmos sozinhos, a mergulharmos no nosso interior e procurar as nossas respostas. Em termos práticos e profissionais, até pode ser que um curso onde se aprende literatura, história, cultura e línguas não sirva para nada. Talvez as ciências e as tecnologias tenham um futuro mais brilhante e mais promissor. Mas o que acontecerá se deixar de haver pessoas que reflictam sobre aquilo que foi e aquilo que é agora? O que será da cultura se deixarem de existir escritores, leitores, músicos, realizadores, bailarinos, actores, poetas? Porque é isso que se está a destruir neste momento. Somos cada vez menos apoiados mas, nem por isso, menos estimulados. A necessidade aguça o engenho, como diz o poeta, e é assim que vamos indo. Mesmo contra todas as adversidades e um futuro que não se adivinha auspicioso, o amor pelos livros permanece. Mesmo que acabe a trabalhar numa caixa de supermercado, tenho os meus livros e a minha mente que ainda sabe pensar. Tenho as letras e as palavras que elas formam, e os mundos que elas constroem e me fazem sonhar.

 

Texto de autoria da Diana, que mantém o blogue Papéis e Letras. Obrigada pelo texto inspirador, Diana!


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.