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Das Palavras às Imagens (20)

Como expliquei aqui, li o livro The Silver Linings Playbook precisamente devido à grande atenção de que o filme tem sido alvo, com várias nomeações para os Oscars. Vi o filme no mesmo dia em que terminei o livro, portanto não podia ter a história mais fresca.

 

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Tal como na esmagadora maioria de adaptações cinematográficas de livros, há diferenças entre as duas coisas. Há aquelas alterações mínimas ao enredo ou às personagens e que não transformam assim tanto o que é relevante na história e depois há outras que distanciam muito o filme do livro; neste caso em concreto, houve três situações do género. Em primeiro lugar, o pai de Pat (Robert DeNiro) no livro é quase uma não-personagem, porque raramente fala, é bastante distante do filho, e funciona como alguém a quem Pat passa a vida a tentar agradar e não desiludir, mas invariavelmente não consegue; no filme, a personagem torna-se muito mais humana e preocupada com os problemas do filho e é muito mais interveniente pela positiva. Não é uma alteração que me desagrade particularmente e até acho que acaba por funcionar melhor assim em termos cinematográficos, mas talvez tivessem conseguido criar uma personagem interessante se seguissem o que está no livro, em que o ator tivesse de se basear a composição da mesma mais nas expressões e no que fica por dizer. A segunda alteração, e aquela que mais me desagradou, foi o facto de Pat se lembrar perfeitamente do que o separou da mulher, Nikki, desde o início do filme. Ora, isto altera quase por completo as motivações da personagem. O Pat do livro é um homem infantil, guiado pela vontade de fazer o bem de forma a conseguir reconquistar a mulher e daí advêm as várias situações em que se vê envolvido e mesmo a forma como se relaciona com as pessoas à sua volta. No filme, ele sabe o que aconteceu mas mesmo assim quer retomar contacto – penso que isto retira à personagem aquela ingenuidade infantil e faz com que tenha menos piada, pelo menos para mim. Esta segunda alteração está bastante relacionada com a terceira, que é a forma como o filme acaba e o ênfase no triângulo amoroso. O filme acaba por ter um final bastante mais lamechas e desinteressante, na minha opinião, porque leva demasiado à letra a busca pelo tal silver lining. Penso que o livro consegue um final muito mais condizente com os problemas e a evolução dos dois protagonistas.

 

Apesar destes “problemas”, é um filme que se vê bem e que entretém e que se distancia das típicas comédias/dramas românticos por ter personagens e história mais interessantes e um bom leque de atores  (apesar de continuar a achar o Bradley Cooper bastante meh). Se é o suficiente para tanto alarido nos prémios mais importantes do cinema? Sinceramente, não me parece. Mas também, já há bastante tempo que deixei de acreditar na justiça na escolha dos premiados 😉


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.