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Leitor Convidado (6)

Porque gosto de ler os (meus) clássicos

Quando me foi feito este convite para falar dos clássicos, os quais fazem parte da literatura que mais li e mais aprecio, gostei da ideia, claro, mas questionei-me: por onde começar?


No princípio eram… os contos de fadas…
Pareceu-me que, de facto, fazia sentido contar um pouco do meu percurso como leitora e como encontrei os clássicos. Desde que me lembro de mim que adoro histórias. Ser transportada para outros mundos, conviver com as mais diversas personagens sempre me fascinou. Em criança, antes de aprender a ler, tive a sorte de ter quem me contasse histórias e eu creio que abusava disso, pois pedia para lerem para mim a toda a hora. E aqui tenho de fazer uma referência: é que, curiosamente, muitas das histórias que me contavam e que eu pedia para ouvir eram clássicos. Os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e Charles Perrault, com os seus conhecidos contos de fadas ou contos maravilhosos, preenchiam muitas das minhas horas de deitar, da sesta, da refeição (sim, pelo que sei eu não era uma criança fácil nesse aspecto e uma história ajudava sempre) e tantos outros momentos. Mais tarde, quando aprendi a ler, continuei a deliciar-me com estes contos. Aliás, sei que eles são responsáveis pelo meu gosto tanto pela leitura como pela escrita de literatura fantástica, pois quase todos – ou todos – têm fortes elementos de fantasia, vivendo alguns deles quase exclusivamente disso mesmo. Mais tarde, já em adulta, percebi o quanto estas histórias, só aparentemente simples, têm a ensinar, a vários níveis (hesitei por momentos antes de fazer esta referência, pois não é esse o objectivo do texto, mas uma excelente leitura para descobrir o que se esconde atrás das páginas destes contos é A Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bethelleim).


…Depois, vieram… As Mulherzinhas e companhia…
Penso que estas histórias que referi foram o meu primeiro contacto com os clássicos. No entanto, quando comecei a ler, rapidamente descobri e li clássicos como Heidi, de Johanna Spyri (nessa altura, foi uma versão simplificada que me veio parar às mãos, só muito mais tarde li a integral, que adorei, devo dizer), e vários livros da Condessa de Ségur.
No entanto, tenho noção que houve um livro que me marcou imenso e me fez pensar “Gosto mesmo deste tipo de literatura, destes autores destes tempos”: As Mulherzinhas, de Louisa May Alcott. Li-o várias vezes depois de o descobrir, lá para os doze anos (terá sido antes?), não só porque gostei imenso, mas também porque é um livro que, penso eu, consegue ser desfrutado sem qualquer problema quando se é mais velho. Claro que, depois de ler As Mulherzinhas, procurei e li as continuações desta história, Boas Esposas e Homenzinhos.
E foi neste ponto, curiosamente, que decidi ler Romeu e Julieta, de Shakespeare, um livro um tanto difícil para tal idade, é verdade, mas que adorei.


…Seguindo-se alguns clássicos juvenis (e não só), assim como as razões que me levam a gostar tanto deles…
A partir daí continuei sempre a ler clássicos. As séries de animação que já tinha visto e revia ou com as quais tomava contacto na altura também eram, em grande parte, adaptações de clássicos: Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas (tanto o “Dartacão” como a versão japonesa, que me marcou imenso, “pegavam” neste clássico), Tom Sawyer, de Mark Twain, e o romance de que a série Ana dos Cabelos Ruivos é adaptada, que também sempre adorei, e que apenas pude ler em Inglês (o título original é Anne of Green Gables e a autora é Lucy Montgomery), pois ainda não havia e continua a não haver tradução nas livrarias, o que acho uma pena (com muita procura, é possível arranjar em alfarrabistas e recentemente saiu uma edição brasileira).
Talvez esta seja uma boa altura para falar dos clássicos de que mais gosto e por que razão têm a minha preferência, uma vez que já referi três deles. Talvez deva mencionar antes de mais que todos os livros de que vou falar têm, na minha opinião, uma escrita magnífica, embora com estilos diferentes, e, se se pode dizer assim, o toque de “antiguidade” na escrita agrada-me sobremaneira. Talvez me ajude a transportar para outros tempos e outras vivências, o que me fascina. Mas lá chegarei. Antes de mais, vou referir os clássicos de que mais gosto e porquê.
Os Três Mosqueteiros, para além da componente de aventuras, que é entusiasmante, diz-me muito pelos ideais de lealdade, honra e coragem que percorrem todo o livro.
Anne of Green Gables é um romance que “aquece o coração” e me inspira, pois segue a vida de uma menina que é órfã e cuja vida não prometia nada, mas que, de formas que não vou desvendar, atinge metas e sucessos. Para além disso, Anne é uma criança (e depois uma jovem adulta) adorável, com uma imaginação desmedida e uma capacidade imensa de sonhar, que tanto a metem em episódios divertidos, como a fazem chegar mais longe.
Tom Sawyer é um livro sobretudo muito divertido, com um rapazinho que parece atrair aventuras e situações cómicas, embora, por vezes, também perigosas. Gostei de me deixar levar por essas aventuras, essas cenas que arrancam sorrisos, e de conhecer um pouco da América daquela época, aquele ambiente do rio Mississipi e das pequenas terras nas suas margens.
Estes foram apenas os livros cuja leitura foi, digamos assim, impulsionada pelas séries de Anime. E os outros, de que gosto tanto? São tantos e não posso falar de todos nem em detalhe sobre cada um, mas tenho de falar de alguns.



…Até aos clássicos do Romantismo inglês do séc. XIX…
Aqueles que lerem isto e já me tiverem lido algures ou falado comigo dificilmente se surpreenderão com o que se segue: tenho um fascínio imenso por Jane Eyre, de Charlotte Brontë. É um dos meus livros preferidos de sempre, por várias razões. Uma delas é a personagem Jane, que demonstra a sua força ao longo de todo o livro, que dá um exemplo de independência e de opiniões próprias, que não eram frequentes na época, e se mantém firme aos seus princípios, entre outros aspectos. Outra das razões é a história em si, que penso que tem um pouco de todos os ingredientes que dão um bom livro: amor, mistério, crítica social, aventura, entre outros. E, claro, a escrita da autora, que é lindíssima.
Estou com receio de me estender demasiado, por isso vou tentar ser mais sucinta na referência aos restantes livros ou autores.
Jane Austen (Orgulho e Preconceito, Sensibilidade e Bom Senso) atrai-me pela descrição da psicologia e reacções das personagens e pelas situações, ora humorísticas, ora dramáticas, que expõe com mestria e que culminam nos desenlaces das suas histórias.
Não posso também deixar de referir alguns clássicos do Terror (embora não sejam apenas terror), como Frankenstein, de Mary Shelley. Neste livro, a história é envolvente e os temas criador/criatura, indivíduo/sociedade e o perigo da Ciência, quando não se tem em conta outros factores, estão muito bem tratados. O Médico e o Monstro/Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, partilha o tema do perigo da Ciência “desmedida” e fá-lo de forma brilhante, assim como explora o lado bom e mau da mente humana. Dracula introduz o tema do vampiro, como todos sabem, mas penso que me atrai especialmente pela força demonstrada por personagens como Mina Harker na luta contra o poder do vampiro.
Já falei de uma das irmãs Brontë, mas falta-me referir as outras. Emily Brontë, com o seu O Monte dos Vendavais (é uma história de loucura; as personagens – quase todas – são terríveis, mas esse factor, essa exploração da mente humana no mais perturbador que há em si, cativou-me, bem como a história de amor, que, com as suas nuances negras, considero arrebatadora) e Anne Brontë, com o seu A Inquilina de Wildfell Hall (tenho dificuldade em não cair em spoilers aqui, por isso digo apenas que a autora trata temas muito emancipados para a época, de uma forma que envolve totalmente o leitor).
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, também tem de figurar nesta “lista”. Explora as dicotomias interior/exterior, bem/mal, entre outras, com laivos de fantástico, e mergulha o leitor num ambiente de certos círculos da cidade de Londres do séc. XIX, diferentes dos que se podem encontrar nos outros romances dessa época que mencionei.
Não posso ainda deixar de referir Charles Dickens, com, por exemplo, Um Cântico de Natal e Grandes Esperanças. O primeiro é um conto perfeito para o Natal (mas que pode ser lido em qualquer altura), que chama a atenção para valores que não devem ser esquecidos, através de um toque de magia e fantasia. O segundo apresenta uma diversidade de personagens impressionante, desde as mais bondosas, passando pelas mais desagradáveis e acabando nas mais cómicas. É impossível ficar indiferente às esperanças, aventuras e desventuras de Pip, o protagonista, e, num romance que chega a ser dramático, conseguimos ter momentos em que é difícil conter o riso. Humor próprio de um britânico, eu diria, e muito bem conseguido.


… Passando por Shakespeare…
Já mencionei Shakespeare, a propósito de Romeu e Julieta. Li também As You like it, Measure for Measure e Othello. Todos têm o toque de génio próprio do homem em questão, mas faço uma referência especial a Othello. É uma tragédia com um vilão que arrepia qualquer um e com uma panóplia de personagens de uma densidade psicológica impressionante, que se enredam mais e mais na trama, de uma forma incrível mas ao mesmo tempo bastante humana. De notar que (permitam- me a expressão inglesa) “shame on me”, mas ainda não li as restantes peças de Shakespeare. Tenho a certeza de que encontrarei nelas grandes obras.


…E Daphne du Maurier…
Por fim e porque não posso falar de todos os clássicos que tanto me dizem, quero referir Rebecca, de Daphne du Maurier (e aproveito e faço uma breve referência a O Outro Eu, também desta autora, que explora o tema da identidade de uma forma belíssima). Rebecca é um romance que me envolve totalmente por causa da protagonista, com que, penso, é fácil identificarmo-nos, por causa do mistério de toda a história, pela caracterização psicológica das personagens e pelas maravilhosas descrições de Manderley, a mansão e respectiva propriedade no campo inglês onde se passa grande parte do romance (eu gosto particularmente de Inglaterra, mas a autora “pinta” tão bem as descrições, as quais interferem com a história de forma muito activa, que penso que é difícil não gostar).


…Com uma sugestão para belas adaptações ao pequeno e grande ecrã…
O mais rapidamente que me for possível, deixo também umas sugestões de adaptações para o pequeno e grande ecrã de alguns destes clássicos (e de outros que ainda não li, mas quero ler e cujas adaptações me encantaram): as adaptações de Jane Eyre da BBC, sendo que eu gostei muito da de 1983, o filme Rebecca, de Hitchcock, a série mais conhecida da BBC de Orgulho e Preconceito (e a mais recente produção para cinema também), o filme Grandes Esperanças, de David Lean, a adaptação para o grande ecrã de Sensibilidade e Bom Senso, com Emma Thompson, as séries North and South e Wives and Daughters, de Elizabeth Gaskell. Podia referir mais (várias!), mas acho melhor ficar por aqui.


… E finalizando com as minhas razões de sempre para adorar ler os clássicos…
Em jeito de conclusão, penso que os clássicos me agradam tanto, porque são, sobretudo, inspiradores para a minha vida, bem como para a minha escrita, e reconfortantes. Sim, penso que é essa a palavra. Transportam-me para épocas muito diferentes, em vários sentidos (formas de viver, valores, etc…), algumas que me dizem muito e que adoraria visitar se houvesse por aí uma máquina do tempo disponível! Ora a literatura para mim é em boa parte uma forma de evasão. E, pelas razões que referi, a evasão através dos clássicos é das que mais me agradam.

 

Texto da autoria de Catarina Coelho, escritora dos livros A fantástica aventura dos Anões da Luz – Em busca de Sulti e John Lennon Nunca Morreu e Outros Contos Fantásticos


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.