Leitor Convidado (1)

Ninguém está imune às “fandom”


Harry Potter, Twilight, Senhor dos Anéis, Star Wars são alguns dos livros e filmes conhecidos não apenas pelo seu sucesso de vendas mas também pelos seus fãs: completamente dedicados, que verbalizam em fóruns, blogues, e todo o tipo de multimédia a sua paixão, que organizam encontros para partilhar esse gosto comum, que sobreanalisam os textos e filmes porque sentem e sabem que há mais, muito mais, por detrás da história que é contada e que o mundo inteiro precisa de saber isso mesmo. São as chamadas fandom.
E eu achava que era completamente imune a isso. Tinha escapado à febre do Harry Potter, adorado os filmes do Senhor dos Anéis, vi o Star Wars: Revenge of the Sith três vezes (e vibrei sempre como se fosse a primeira quando o Anakin Skywalker respira pela primeira vez como o Lord Darth Vader) mas nunca, nunca, me prendi mais do que isso: a ida ao cinema e a discussão ocasional entre amigos.
Até ao dia fatídico dia 6 de Janeiro de 2009 quando, enquanto mudava canais, descobri uma muito adulta Anna Paquin a falar com 3 vampiros. “Olha a Anna Paquin! Que raio de filme de terror é este? Isto parece tão mau… interessante…. ooohhh, acabei de ver aquilo? Como é que isto se chama mesmo?” Assim que terminou o episódio, pesquisei e descobri que era uma série de TV chamada True Blood. No fim-de-semana seguinte vi todos os episódios. Depois nasceu a sede por saber mais.

 

Como me mantive ocupada entre Janeiro a Junho de 2009

Quando descobri que a segunda temporada da série só iria estrear dali a 6 meses a minha reacção deve ter sido algo semelhante ao Grito de Munch: eu precisava de saber mais e foi a Internet a minha grande companheira. Nessa altura, havia cinco websites de fãs dedicados à série. Sim, leram bem, cinco. E foi nesses cinco websites que descobri um pequeno grupo de fãs muito entusiasta que me explicou que a dita série era baseada num conjunto de livros, escritos por Charlaine Harris. Quando eu descobri que havia livros, foi como uma nova revelação: eu tinha que os ler, e saber o que ia acontecer a seguir. Afinal, porque é que tanto se debatia o cabelo do Eric e porque é que as fãs o consideravam tão importante quando era o Bill o vampiro apaixonado da Sookie? Havia toda uma batalha a decorrer online e eu não percebia de que lado deveria lutar! Os livros iriam saciar a minha sede. E, coincidência das coincidências, em Fevereiro a Saída de Emergência anunciou que ia lançar o primeiro livro da saga. Em Março, já estava completamente submersa no Sookieverse (leia-se, Universo da Sookie). No dia 9 de Abril fui à livraria ver o livro a ser colocado nas estantes (já tinha o meu exemplar, ganho num concurso promovido pela Saída de Emergência). Em Maio já conversava todas as noites com “as minhas amigas da terapia” (designação que dei às outras fãs, de todo o mundo, que ansiavam, como eu, pelo início da 2ª temporada) e no dia 14 de Junho, véspera de ir trabalhar, fiquei acordada até às 3 da manhã para ver o episódio em directo. E assim foi durante 12 semanas desse Verão.

 

 

 

 

Fanática? Eu?

Mesmo depois dos meus amigos reais me terem proibido de falar na série, eu continuava a achar que não era fanática. Estava apenas entusiasmada e precisava de falar sobre isso. Houve então dois momentos em que percebi que pertencia realmente a uma fandom.
O primeiro foi a sensação de ter ajudado algo a crescer. Nesses 6 meses de actividade online vi passar de cinco websites de fãs para dezenas (e depois desisti de contar) de websites: uns mais dedicados aos livros, outros mais aos actores… Os media passaram a prestar atenção, nós estávamos em todo o lado! E quando ouvimos os actores e o produtor falarem sobre a “dedicação dos fãs” foi algo mesmo reconfortante. Nós tornámos esta série num sucesso! E eu sentia-me ali, entre os fãs pioneiros!
O segundo foi quando a Saída de Emergência me convidou a gerir os conteúdos do Blogue Sangue Fresco, que tinham na altura criado para apoiar o lançamento dos livros da saga. Talvez tenha chamado a atenção da editora devido ao número elevado de artigos que na altura escrevi no meu blogue pessoal. Após uma muito breve ponderação aceitei o desafio.
E foi aí que percebi: li os livros, vejo a série, tenho um blogue, participo nos fóruns, dedico as minhas noites a especular sobre o que acontecerá a seguir, a partilhar fotos e vídeos… eu pertencia a uma fandom, eu sou uma fanática!

 

Há cura?

Se existe, não sei se quero ser curada. Pertencer a uma fandom trouxe-me mais alegrias do que tristezas.
Porque, acima de tudo, o que me manteve fã não foi, em última análise, a série ou os livros. Foram os outros fãs, foi a possibilidade de poder falar com outras pessoas sobre algo que gostamos tanto. Existe nalguma parte do mundo outra pessoa que nos compreende e que debate ideias, partilha sentimentos. O ter reunido uma pequena comunidade em torno do Blogue Sangue Fresco, e partilhar com os fãs portugueses aquilo que vou descobrindo tem sido uma experiência muito compensatória. Conheci pessoas e criei amizades offline graças ao Sangue Fresco (True Blood). Nada substitui isso.
Claro que houve momentos maus e quando a fandom aumenta exponencialmente deixa de haver controlo, os fãs dividem-se, surgem os trolls, os paparazzi, as críticas más… é como ver uma criança adorável tornar-se num adolescente irrequieto, deixamos de saber lidar com eles. Ou aprendemos novas formas de lidar com isso e relativizamos, ou desistimos. E eu vi muitos fãs “pioneiros” a abandonarem a fandom. Simplesmente desistiram ou deixaram de acreditar e foi isso que mais me custou até agora, o dissolver daquele grupinho que tanto lutou inicialmente pelo sucesso de desta saga.

 

E quando não houver mais série ou livros?

Isso é algo que penso todos os dias. Vi acontecer com a série Lost: uma fandom com uma comunidade muito activa online e agora os websites e fóruns dedicados à série são apenas lugares para recordar algo que já foi e que não existe mais.
Eu já percebi que há fãs que são “serial fandom fãs”, se é que tal termo existe. Ou seja, que saltam de fandom em fandom, vivendo constantemente dependentes desta excitação que uma fandom provoca. Eu não quero isso para mim. Quero, quando não houver mais nada para contar sobre a Sookie Stackhouse, voltar ao meu estado anterior de entusiasmar-me, sim, mas sem dedicar grande parte do meu tempo livre a falar sobre isso. Pode ser que consiga, pode ser que não. Pode ser que entretanto surja algo ainda mais viciante que me volte a prender e a arrastar para outra fandom.
Aconteça o que acontecer, sei que esta já valeu a pena.


Texto da autoria da tchetcha, que faz actualmente a gestão de conteúdos do blog oficial da Saga do Sangue Fresco em Portugal e tem também um blogue dedicado a livros, o Ler e Reflectir.

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Sobre Célia

Tenho 38 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.