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[Blogue] A leitura ontem… e hoje

Na altura em que andei a fazer pesquisa para completar algumas páginas de autores, deparei-me com o 1.º Boletim Informativo do Serviço de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, datado de Outubro de 1960. Lá dentro, para além do catálogo dos livros das Bibliotecas Calouste Gulbenkian à data, é possível encontrar um texto muito curioso sobre a importância da leitura, que se torna particularmente interessante porque, apesar de não podermos deixar de o associar à época em que foi escrito (note-se os paralelismos entre o cultivo da terra e da mente), contém várias afirmações que hoje, e no futuro, continuam a fazer todo o sentido. Foi ainda com bastante interesse que constatei a existência, na altura, das bibliotecas itinerantes que, pelo que o segundo texto dá a entender, levavam a cultura a pontos do país onde ela era mais escassa. Deixo aqui a transcrição de dois desses textos:

 

O Gosto pela Leitura
As noites são longas, no Inverno. E os dias têm por vezes, acabada a faina nos campos ou o trabalho nas oficinas, horas que podem ser aproveitadas de forma útil e agradável.
Sabem o que é, pràticamente, «reunir o útil ao agradável»? É ter em casa, como pequeno tesouro, um livro para ler, é ler esse livro, é tirar dele um proveito muito maior do que à primeira vista parece. Sabem o que é um livro? Um livro é uma semente. Por isso diz-se de quem lê muito e de quem aprendeu nos livros uma sabedoria que antes não possuía, que é uma pessoa de cultura, uma pessoa culta.
A pequena semente, lançada à terra, é trigo, é pão, é alimento. O livro que se lê também faz frutificar um outro terreno: o terreno do nosso espírito. Podemos escolher: seremos terreno bravio, inculto ou seremos terreno cultivado, civilizado?
Não pode haver dúvidas. Todos queremos desenvolver a nossa inteligência. Todos reconhecemos no nosso espírito mil possibilidades, mil caminhos que muitas vezes não nos damos ao trabalho de percorrer. A verdade, a triste verdade é esta: por preguiça, por comodismo, por desleixo é pobre a nossa seara espiritual. Temos tempo livre. Ocupamo-lo da melhor maneira possível? Devemos trabalhar, conquistar a nossa subsistência, lutar pelo bem-estar da nossa família, sem dúvida. Ao mesmo tempo, porém, temos o dever, que não é menor, de nos cultivarmos, isto é, de justificarmos o maior dom que encontrámos à nascença: o dom de sermos homens e de ocuparmos o primeiro lugar na hieraquia dos seres vivos. Por que e para que somos homens? Eis a grave interrogação a que devemos dar uma resposta, no silêncio das nossas meditações.
Ora a leitura ajuda a compreender. A compreender os homens. A compreender a vida nas suas misérias e nas suas grandezas. Não busquemos nos livros a resposta certa e definitiva para todas as nossas dificuldades. Mas busquemos nos livros o testemunho dos escritores que dedicaram a sua existência a esse mesmo fim. Busquemos nos livros o alimento superior que nos dará clareza de raciocínio, agilidade mental e também enriquecimento de experiência.
Os livros, a literatura, que tesouro sem par temos diante de nós! Distraem-nos, divertem-nos, emocionam-nos, apaixonam-nos – e simultâneamente são para o nosso espírito como um bálsamo.
Crianças, encantam-nos os contos de animais ou as histórias de fadas e princesas: encantam e desenvolvem a imaginação, a fantasia, a sensibilidade.
Adultos, fazem-nos vibrar os romances em que vidas imaginadas são o espelho e uma explicação da realidade; as poesias tentando compreender as verdades mais íntimas e profundas numa linguagem mais bela e pura; os livros de história, ensinando-nos a lição moral da vida dos grandes homens que influíram de forma decisiva na vida e na civilização.
Que espectáculo se pode comparar àquele que nos dá a leitura? Cada livro é um espectáculo «por dentro» e diante dos olhos do nosso espírito passam os mais estranho acontecimentos e as mais belas paisagens!
As noites são longas e a vida é curta. Vamos ler, para que sejamos maiores e mais ricos de inteligência e espírito. Vamos ler, para que sejamos melhores e mais fortes. Vamos adquirir o gosto pela leitura, como caminho infalível de ascensão.

 

O Leitor e as Bibliotecas
O primeiro movimento do futuro leitor em face duma Biblioteca Itinerante é de espanto, a que não é alheio, por vezes, um certo sentimento de desconfiança. Não se trata, contudo, de uma desconfiança agressiva, mas da surpresa natural de quem não está acostumado a que lhe dêem alguma coisa sem lhe pedirem outra em troca. Em breve, porém, essa desconfiança se transforma num acolhimento interessado e, sobretudo se se trata de crianças, podemos até dizer – maravilhado. A percepção daquilo que lhe convém, é muito rápida no povo português e o futuro leitor imediatamente se apercebe que está em presença dum instrumento de cultura, da chave que lhe vai abrir os horizontes dum mundo novo. E realmente não se engana. Na verdade, as Bibliotecas Itinerantes servem, por completo, os dois grandes desígnios da cultura, isto é: suscitar curiosidades e, depois, satisfazê-las. Assim, a sua acção se divide sàbiamente em duas fases: desenvolver o gosto pela leitura e elevar o seu nível, mental e espiritual.
A primeira fase pode considerar-se quase completamente realizada, o que é atestado pelo aumento progressivo do número de leitores, pelo montante de livros requisitados e, também, pela procura cada vez maior das obras-primas de ficção dos grandes escritores, dos livros de história, ciência pura e aplicada, poesia e até filosofia. O reconhecimento unânime dos professores primários das regiões servidas pelas Bibliotecas (cerca dum terço do país) de que as crianças que as frequentam têm melhor aproveitamento escolar, é mais uma prova do que afirmamos.
Por isso, de todo o país, nos chegam centenas de pedidos para a sua instalação, o que mostra não só um interesse cada vez maior e uma simpatia agradecida mas, principalmente, que as Bibliotecas Itinerantes vieram satisfazer uma necessidade imperiosa e real.


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.