Home / 9/10 / [Opinião] Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado

[Opinião] Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado

Autor: Jorge Amado
Ano de Publicação Original: 1958
Editora: Booket
Páginas: 515
ISBN: 9789722034159
Origem: Comprado
Sinopse: Gabriela, a mulata com a cor da canela e o cheiro do cravo, ficará na literatura como uma formosa figura de mulher, simples e espontânea, acima do Bem e do Mal. Com o seu inigualável lirismo e inspiração poética, Jorge Amado cria personagens inesquecíveis, e o comovente romance de amor do árabe Nacib e da mulata Gabriela coloca-os, sem dúvida, na galeria dos amantes da História da Literatura. Mas Gabriela, Cravo e Canela é mais do que a história de amor do árabe Nacib e da sertaneja Gabriela. É a crónica de uma pequena cidade baiana, Ilhéus, quando passava por bruscas transformações, por volta do ano de 1925. A riqueza trazida pelo cacau possibilitara o desenvolvimento urbanístico e o progresso económico, transformando profundamente a fisionomia da cidade. Pouco evoluíam, no entanto, os costumes dos habitantes, imperando, naquele cenário de violência, a lei dos mais fortes – os fazendeiros – que tendo a seu trabalho os jagunços, impunham o domínio do ódio e do terror. Sensual e inocente, sábia e pueril, a cozinheira Gabriela conquista não apenas o coração de Nacib e de uma porção de ilheenses, mas também o de leitores de vários países e gerações. Levada para a televisão, a sua história transformou-se numa das telenovelas brasileiras de maior sucesso pelo mundo fora.

Opinião: Na televisão, a minha atenção só fica realmente presa por três grandes amores, nomeadamente o desporto (sobretudo futebol), as telenovelas brasileiras e as séries. Daí que fosse inevitável que, um dia, as minhas escolhas literárias recaíssem sobre Jorge Amado – o autor brasileiro que tem mais obras adaptadas para televisão. O facto da novela Gabriela, Cravo e Canela ter marcado uma era na história da televisão nacional e ter ouvido críticas extremamente positivas levaram a que este fosse o primeiro livro a ler do autor. No final, uma certeza: não ficarei por aqui. Assim que comecei a leitura, temi não gostar da escrita de Jorge Amado. É tipicamente brasileira – a escrita é igual à oralidade -, e, confesso, não sou grande apreciadora do idioma. Porém, assim que as páginas se foram seguindo, apaixonei-me. Esta particularidade da escrita confere-lhe um realismo tal que parece que estamos frente a frente com as personagens, dentro da acção. Há um misto de realismo, vivacidade e alegria que nos cativam.

A acção da obra passa-se em Ilhéus, uma pequena cidade do interior da Bahia, que tem vindo a prosperar graças à produção de cacau. Apesar do “progresso estar a chegar” (expressão que anda na boca de todos), os costumes continuam a ser ditados à lei da bala. Ainda assim, ao longo da obra, nota-se uma tentativa de ruptura com estas ideias por parte de algumas personagens. Esta dualidade suscita interrogações ao leitor, interessando-o, mas sem nunca o deixar assumir totalmente um dos lados.

Gabriela, Cravo e Canela é uma verdadeira caricatura da sociedade brasileira, onde deputados, fazendeiros, “jagunços”, prostitutas e meninas de bem se misturam gerando uma profusão de estórias. No plano central, está o amor inesperado que nasce entre Gabriela, cuja saga por uma vida melhor é retratada, e Nacib, um árabe dono de um dos mais requisitados bares da região. Jorge Amado construiu personagens fortes, diferentes, e ao mesmo tempo iguais, do habitual e por cada uma nos convida a uma viagem imediata do presente ao passado e vice-versa, através da leitura de alguns parágrafos.

O encanto desta obra de Jorge Amado deve-se, igualmente, ao retrato de novas realidades. É verdade que as mentalidades são ainda fechadas, que há uma predominância masculina, mas Gabriela e Malvina, sobretudo, tentam marcar a diferença, lutando pelo que querem, nem sempre da forma mais consensual/convencional. Para mim, este livro é uma nova forma, bastante mais liberal, diga-se, de encarar e viver o amor. Fiquei rendida e com a certeza de que Jorge Amado não pode ser esquecido nas nossas bibliotecas. Adorei! – Cristina

Classificação: 9/10 – Excelente


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.