O efeito cinema

Por Sérgio Almeida, do Jornal de Notícias

Há pelo menos um elemento em comum entre autores como Nicholas Sparks, Cormac McCarthy ou Ian McEwan: todos eles viram as vendas dos respectivos livros subir em flecha após a adaptação cinematográfica. E se no caso do autor de “O diário da nossa paixão” mais milhar ou menos vendido não faz grande diferença – ou não fossem os seus livros ‘best-sellers’ permanentes -, já para McCarthy a inclusão em qualquer lista dos mais vendidos contém uma dose de estranheza a que ainda não se terá habituado por inteiro. Em Portugal, não foi excepção: lançado em Novembro, “Este país não é para velhos” precisou de quatro meses para escoar a primeira edição de dois mil exemplares. Mal a adaptação dos irmãos Coen chegou às salas, já devidamente oscarizada, a editora Relógio D’Água foi confrontada com uma avalancha tal de pedidos de livreiros que acabou por lançar uma nova edição, agora com três mil exemplares. O aumento da procura reflectiu-se também, ainda que em menor escala, nos restantes livros do escritor norte-americano, sobretudo “A estrada” e “Meridiano de sangue”.

Francisco Vale, editor da Relógio D’Água, não rejeita “o impulso em termos de divulgação” proporcionado pela estreia dos filmes, mas garante também que “a primeira preocupação é a de escolhermos obras que tenham um valor literário intrínseco e uma existência autónoma”.

O “impacto positivo” nas vendas – em média de 50% – é confirmado por todas as editoras que viram livros pertencentes ao seu catálogo chegar ao grande ecrã. Um dos exemplos mais recentes disso mesmo aconteceu com “Expiação”, romance de Ian McEwan que Joe Wright adaptou. Os seis mil exemplares vendidos em cinco anos rapidamente duplicaram assim que o filme estreou.

“O que procuramos fazer nestes casos é uma estratégia concertada com as distribuidoras cinematográficas para que haja uma associação imediata entre o filme e o livro”, explica Helena Rafael, da Gradiva, editora que detém os direitos de publicação de McEwan em Portugal. Os livros adquirem, assim, novas capas – geralmente, o cartaz do filme – e é feito ainda um reforço promocional junto dos postos de vendas para que mesmo os espectadores mais distraídos não deixam de reparar que a película que viram recentemente teve como suporte um romance.

Esta “lógica de complementaridade crescente entre o cinema e a literatura” é destacada por Pedro Sobral, director de Marketing das Publicações Dom Quixote, ciente de que “a imagem tem um valor importantíssimo na sociedade contemporânea”. “Mais do que adoptarmos um plano de marketing”, defende o responsável, “o que pretendemos é dar visibilidade a um livro que, por muito bom que seja, pode estar perdido nas prateleiras até ao momento em que a adaptação lhe confere um novo fôlego”.

Estratégia idêntica de relançamento de obras é seguida na Presença, editora que tem visto um largo número de livros do catálogo ser alvo do interesse da ‘sétima arte’. Só o ‘best-seller’ de Patrick Suskind “O perfume” conseguiu somar mais 25 mil exemplares aos 100 mil já vendidos unicamente devido à adaptação cinematográfica. Inês Mourão, do gabinete de comunicação da Presença, reconhece que “quanto maior sucesso tiver o filme, mais leitores sentirão curiosidade em conhecer o livro” e aponta como exemplo “P.S. Eu amo-te”, cujas vendas passaram de 10 mil para 16 mil assim que o filme chegou às salas.

Quando se trata de novidades, as editoras tentam que haja uma coincidência entre a data de estreia e a chegada do livro aos pontos de venda. Mas o efeito positivo tem uma duração limitada, pois, como sublinha Inês Mourão, “quando o filme sai de cartaz, a procura do livro em que o mesmo foi baseado estabiliza”.

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Sobre Célia

Tenho 38 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.