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Arquivo da categoria ‘9/10’

[Opinião] A Demanda do Visionário, de Robin Hobb

Thursday, August 5, 2010 Post de Célia

Nota prévia: Tanto a sinopse como a opinião podem conter spoilers para quem não leu todos os volumes anteriores da Saga do Assassino.

 

Autor: Robin Hobb
Título Original: Assassin’s Quest (1997) – 2.ª metade
Série: Saga do Assassino #5, Farseer Trilogy #3.2 | Realms of the Elderlings #3.2
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 480
ISBN: 9789896372385
Tradutor: Jorge Candeias

Sinopse: O verdadeiro rei dos Seis Ducados desapareceu numa missão misteriosa em busca dos Antigos para salvar o reino da ameaça dos Navios Vermelhos. O seu irmão usurpador está determinado a impor uma tirania cruel e não abrirá mão do poder, a não ser com a própria morte.
Fitz sabe que a única forma de por fim ao reinado do príncipe usurpador é iniciar uma demanda em direção ao reino das Montanhas onde irá descobrir a verdade sobre as profecias do Bobo. Mas a sua missão enfrenta um novo perigo com a magia do Talento a precipitar a sua alma para a beira do abismo.
Conseguirá resistir à magia e ainda enfrentar os obstáculos que surgem à sua demanda?

 

Opinião: Com A Demanda do Visionário chegamos ao fim desta série de livros e conhecemos finalmente o destino do nosso amigo Fitz e dos Seis Ducados, depois de tantas provações que tiveram de atravessar. Este volume pega na história precisamente onde A Vingança do Assassino terminou (até porque no original consiste apenas num volume) e logo de início proporciona ao leitor o reencontro com uma das personagens mais interessantes da Saga, cujo destino desconhecíamos: o Bobo. Revemos igualmente Kettricken, e é na companhia destes dois velhos amigos, e outros que encontrou na sua demanda, que Fitz irá continuar a procurar Veracidade, que tenta encontrar a ajuda dos Antigos para acabar com a ameaça dos Navios Vermelhos e com flagelo das forjas.

 

Neste volume, Robin Hobb apresenta o bom nível a que já nos habituou. Excelentes diálogos, personagens com as quais o leitor consegue identificar-se plenamente, aquele quê de factos por revelar que tornam a história ainda mais interessante, e um ritmo por vezes quase demasiado lento mas que é bem ultrapassado pelo interesse com que explora as suas personagens e respectivos dilemas. Quanto ao enredo, e numa perspectiva meramente pessoal, não fiquei grande fã da resolução que a autora apresentou para afastar a ameaça dos Navios Vermelhos e acho que a explicação do modo como se criavam os forjados e o objectivo com que era feito foi, de certo modo, insuficiente. O final é algo apressado, mas, a bem dizer, esta saga teve sempre o seu principal foco nas personagens e no seu caminho de aprendizagem, portanto foi nisso que a autora focou, e bem, os seus esforços. Robin Hobb é cruel com as suas personagens, no sentido em que não as coloca no caminho mais fácil nem lhes dá o final feliz que à partida se poderia esperar. Acho que a grande mais-valia desta autora é a forma como ela joga com os sentimentos das suas personagens e, ao mesmo tempo, com os do leitor.

 

Se tivesse de escolher uma palavra que definisse o final deste livro, diria agridoce. Não temos um final feliz para Fitz, mas parece estranhamente adequado. É um daqueles livros que entra de tal forma na mente do leitor que mesmo depois de virarmos a última página, é difícil abandonar a história, esquecê-la e muito menos pegar noutro livro tão cedo. Fico com muita curiosidade por ler a trilogia The Tawny Man, que acompanha Fitz e outras personagens conhecidas alguns anos depois, e que a Saída de Emergência já anunciou ir publicar no futuro (ainda não são conhecidas datas). Recordo também que a editora anunciou recentemente que Robin Hobb virá ao nosso país em 2011 :D

 

Ficam ainda os meus parabéns ao Orlando Moreira, que traduziu o 1.º volume, e ao Jorge Candeias, que traduziu os restantes, pelo excelente trabalho, pois é fácil perceber que a fantástica “voz” da autora nunca se perdeu. 

 

Classificação: 9/10 – Excelente

Livro n.º 68 de 2010


[Opinião] O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk

Monday, June 28, 2010 Post de Célia

Autor: Orhan Pamuk
Título Original: Masumiyet Müzesi (2008)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 646
ISBN: 9789722343558
Tradutor: Miguel Romeira

 

Sinopse: O Museu da Inocência é uma história de amor, passada em Istambul, entre a Primavera de 1975 e os últimos anos do século XX, e conta a história da paixão obsessiva do herdeiro de uma família rica, Kemal, por uma prima afastada, Füsun, de um meio social menos favorecido. Mas Kemal está noivo da filha de uma das famílias da elite istambulense. Entretanto, Kemal começa a coleccionar objectos pessoais e outros que lhe fazem lembrar a sua amada. Esses objectos são simultaneamente um fetiche e uma crónica da sua felicidade e das mágoas, um mapa de sinais de todos os sítios onde estiveram juntos. Com o tempo, a compulsão do coleccionador acabará por dar origem a verdadeiro museu, que também permite explorar uma Istambul meio ocidental e meio tradicional, a sua emergente modernidade e a sua vastíssima história e cultura.

 

Opinião: Orhan Pamuk escreveu um livro que é um verdadeiro monumento, quer pelo seu tamanho (são 646 páginas, divididas em 83 capítulos com direito a títulos, à moda antiga), quer pelo tema em si, sendo uma antologia à memória de uma vida e de uma cidade apaixonante.

 

É de memórias que se fala aqui, e graças à sua memória prodigiosa o escritor turco retrata o passado de Kemal, a personagem central, que se confunde com as recordações de uma cidade, Istambul, que se moderniza e se transforma completamente à medida que a história vai avançando no tempo, tudo isto sempre com uma linguagem cuidada e bastante rica em longas descrições.

 

A história parece ser apenas mais uma cópia de muitas histórias já descritas na história da Literatura. É relativamente simples: Kemal é um turco que se prepara para casar com uma das mulheres mais conceituadas da elite turca, quando um dia se cruza, inadvertidamente, com Füsun, uma sua prima afastada, originando uma verdadeira paixão, primeiro correspondida, posteriormente desprezada e, por fim, trágica à boa maneira das histórias de Pamuk.

 

Essa paixão, à medida que ambos se afastam, acaba por se tornar numa verdadeira obsessão para Kemal, que tem a ideia de coleccionar todos os objectos que lhe fazem lembrar a sua amada, desde fios de cabelos, a beatas de cigarro, mais concretamente a 4213 beatas de cigarro fumados por Füsun, ou então frascos de perfume ou simplesmente cinzeiros em que ela apenas tocou, transformando uma casa num verdadeiro museu, espelho da sua obsessão pela mulher que conquistou o seu coração.

 

A justificação para tamanha obsessão está na página 397 deste livro, “O poder de um objecto jaz indubitavelmente nas memórias que guarda em si, e também nas vicissitudes da nossa imaginação e das nossas memórias”.

 

O que torna este livro de Pamuk num dos livros mais intensos que já li é a beleza das descrições, quer do seu amor, quer da cidade de Istambul. O escritor turco demonstra um extremo cuidado nas palavras, não fugindo a lugares-comuns, mas dando-nos uma visão de como o amor, seja ele correspondido ou não, se poderá tornar numa enorme obsessão, mas também no motor principal para que uma pessoa viva.

 

Por último, li que “O Museu da Inocência” poderia mesmo tornar-se realidade, desejando o autor criar um museu onde pudesse reunir toda a história de Istambul e onde as pessoas pudessem imaginar uma história de amor como a de Kemal e Fusün. Esperemos que, se um dia esse museu abrir, o espírito da sua obsessão por Füsun seja tão bem aclamado como é neste maravilhoso livro. – Ricardo

 

Classificação: 9/10 – Excelente

 


Autor: Paolo Giordano
Título Original: La Solitudine dei Numeri Primi (2008)
Editora: Bertrand Editora
Páginas: 272
ISBN: 9789722520317
Tradutor: José J. C. Serra

 

Sinopse: Alice é obrigada pelo pai a frequentar um curso de esqui para ser forte e competitiva, mas um acidente terrível deixará marcas no seu corpo para sempre. Mattia é um menino muito inteligente cuja irmã gémea é deficiente. Quando são convidados para uma festa de anos, ele deixa-a sozinha num banco de jardim e nunca mais torna a vê-la. Estes dois episódios irreversíveis marcarão a vida de ambos para sempre. Quando estes “números primos” se encontram são como gémeos, que partilham uma dor muda que mais ninguém pode compreender. Ganhou o prémio Stregga e a menção honrosa do Campiello, os dois prémios literários mais importantes de Itália, e está a ser traduzido em mais de 20 países.

 

Opinião: A Solidão dos Números Primos. Um título original e bem conseguido que é, simultaneamente, uma metáfora com base num conceito matemático – os números primos – para contar a história de duas almas perdidas. Paolo Giordano, que foi o mais jovem escritor a receber o prestigiante prémio italiano Stregga, evocou a sua formação de base em Física e colocou a matemática como pano de fundo na construção da relação entre as personagens de A Solidão dos Números Primos.

 

Naquele que é o seu romance de estreia, o autor fala-nos de Alice e Mattia. Um episódio devastador na sua infância deixou-os física e emocionalmente traumatizados, o que condiciona de forma evidente toda a sua vida. Os dois conhecem-se enquanto adolescentes, iniciam uma relação de amizade que é, tal como eles próprios, invulgar, e o seu percurso é depois acompanhado durante a idade adulta.

 

Essa singularidade de Alice e Mattia assenta no facto de não encaixarem socialmente, isto é, de serem estranhos, distantes, incapazes de se relacionarem com os outros de forma significante. Eles reconhecem-se um no outro através da sua dor mas sobretudo, na sua solidão. São aquilo que Mattia define como dois números primos gémeos – solitários mas especiais – “pares de números primos que estão próximos um do outro, aliás, quase próximos, pois entre eles existe sempre um número par que os impede de se tocarem realmente…”. A solidão acaba por ser o traço que os une e que os separa.

 

A história é contada em pequenos capítulos que convidam à leitura, alternados consoante a perspectiva de Alice e Mattia. É perturbador e emocionalmente intenso, pois foca escolhas erradas, oportunidades perdidas e de como apenas uma pode mudar o curso de uma vida. É um livro fabuloso que se lê de um fôlego e que nos deixa impressionados perante a sua profunda tristeza. Um livro imperdível e um autor, sem dúvida, a acompanhar. – Sofia Martins

 

Classificação: 9/10 – Excelente


[Opinião] A Vida e o Tempo de Michael K, de J.M. Coetzee

Monday, June 14, 2010 Post de Célia

Autor: J.M. Coetzee
Título Original: Life & Times of Michael K (1983)
Editora: Dom Quixote
Páginas: 209
ISBN: 9789722034869
Tradutor: Ricardo Fernandes

 

Sinopse: Numa África do Sul despedaçada pela guerra civil, Michael K empreende uma perigosa viagem para realizar o último desejo da sua mãe enferma: regressar à terra que a viu nascer. Durante o caminho, porém, ela acaba por falecer, deixando-o sozinho num mundo anárquico regido por grupos militares errantes e violentos. Aprisionado, Michael é incapaz de tolerar a reclusão e foge, determinado a viver com dignidade. Este romance de afirmação da existência vai à essência da experiência humana – a necessidade de uma vida interior, espiritual, de algumas ligações ao mundo em que vivemos e de uma pureza de entendimento.

 

Opinião: J. M. Coetzee é,  já o afirmei, dos meus romancistas favoritos, e à medida que o vou lendo, e conhecendo melhor a sua obra, mais admirador fico de um escritor que consegue transmitir uma imensa luminosidade nos seus romances.

 

Mesmo que, às vezes, os seus livros possam ser negros, transmitindo uma tristeza e onde a luta pela sobrevivência e a solidão dão o verdadeiro mote à história, existe sempre uma esperança no ser humano e na sociedade em que ele se insere.

 

Michael K vai ficar na história como uma das personagens que mais me marcaram, a sua força e esperança no ser humano, a vontade de ultrapassar as dificuldades, a maneira como consegue contornar as adversidades de uma vida que lhe foi difícil desde que nasceu. Coetzee construiu uma personagem que me fascinou imenso.

 

A história conta a vida de Michael K, um menino que nasceu com uma deficiência nos lábios que iria marcar a sua relação com o mundo, quer na infância, quer no resto da sua vida. Depois de lermos o seu início de vida, vamos acompanhando a sua tentativa de concretizar o último desejo da sua mãe: fazer com que ela morra na sua terra natal.

 

Posteriormente, e após o falecimento da sua mãe, acompanhamos a sua luta pela sobrevivência, numa terra onde a guerra devastava tudo e alargava desigualdades, contando também um pouco da história recente da África do Sul. A escravidão, a corrupção da polícia, os campos de reclusão, a xenofobia, o racismo, são algumas das coisas abordadas neste livro.

 

Pelo meio, ainda acompanhamos um diário do médico do campo de reclusão onde Mickael K foi detido, que o tenta perceber, e salvar também, enquanto faz reflexões sobre a vida. Escrito sempre de forma simples e crua, sem descrições longas e aborrecidas, é um livro que “ apetece”. Apetece ler novamente, apetece que a história não tenha fim e apetece estar sempre ao nosso lado para podermos perceber o que de melhor, e pior, tem o ser humano. – Ricardo


Classificação:
9/10 – Excelente


[Opinião] O Décimo Terceiro Conto, de Diane Setterfield

Thursday, April 15, 2010 Post de Célia

Autor: Diane Setterfield
Título Original: The Thirteenth Tale (2006)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 368
ISBN: 9789722337328
Tradutor: Manuela Madureira

 

Sinopse: Vida Winter passou quase seis décadas a iludir jornalistas e admiradores acerca das suas origens, mantendo oculto o seu passado enigmático, tão enigmático como a sua primeira obra, intitulada Treze Contos de Mudança e Desespero, e que continha apenas doze. Porém, tudo isto pode estar prestes a mudar quando Margaret Lea, biógrafa amadora, recebe uma carta da famosa escritora convidando-a a redigir a sua biografia. Pela primeira vez, Vida Winter vai contar a verdade, a verdade acerca de uma família atormentada por segredos e cicatrizes. Mas poderá Margaret confiar totalmente nela? E terá sido ela eleita depositária das confidências por um motivo inocente? Um romance assombroso, que se tornou um bestseller imediato e que será publicado em mais de trinta línguas.

 

Opinião: Como toda a gente sabe, os livros têm vida própria; alguns, quando passamos por eles numa livraria, falam baixinho e pedem que os levemos connosco – quase conseguimos ouvir o seu suspiro de desalento quando continuamos a nossa caminhada e os deixamos na prateleira. Este O Décimo Terceiro Conto, da escritora inglesa Diane Setterfield, foi dos que mais vezes me chamou, mas como nem sempre a vida é como queremos, acabei por deixá-lo, invariavelmente, nas prateleiras ou expositores. Até que, como se estivesse inevitavelmente destinada a ler este livro, a Editorial Presença simpaticamente me propôs lê-lo (tal como a outros bloggers) por forma a resgatar este livro da relativa indiferença a que foi votado aquando da sua publicação em Portugal em 2007. E ainda bem, porque de facto estamos perante um livro fantástico.

 

Tudo começa quando Margaret Lea recebe uma carta da famosa escritora Vida Winter, sobre quem pouco se sabe, apesar da sua prolífica carreira, pedindo-lhe que escreva a sua biografia, uma vez que a sua vida se aproxima do fim e a escritora deseja que esta seja a sua última história. Deste modo, Margaret viaja rumo a Yorkshire, onde Vida reside, e passa uma temporada na sua casa enquanto esta lhe relata a história da sua vida: a verdadeira, não uma das várias que contou a jornalistas ao longo dos anos. Para além deste mistério, o livro é marcado também pelo mistério do primeiro livro que Vida escreveu, entitulado Treze Contos de Mudança e Desespero, cuja primeira edição apenas continha doze contos e, por isso mesmo, viu o seu título alterado em edições posteriores. O décimo terceiro conto nunca se tornou do conhecimento do público.

 

Dizer que bastou ler o primeiro capítulo deste livro para ficar com a certeza que o ia adorar não é exagero: de imediato me senti “puxada” para dentro da história, cativada pelo mistério da história de Vida Winter e embalada pela prosa melódica da escritora. É também um livro que fala de fantasmas, os que existem e os que não existem, e da forma como lidamos com eles.

 

Tal como Vida afirma, as histórias deverão ter um princípio, um meio e um fim: mas esta história não tem apenas um de cada e, certamente, o fim é tudo menos previsível. Em alguns momentos, lembrei-me dos livros da Kate Morton, pela escrita magnífica e pela habilidade que ambas as escritoras demonstraram em conduzir o leitor exactamente no sentido que desejam, para o surpreender no final. E apercebo-me também que este tipo de histórias é, provavelmente, um dos tipos de literatura que mais me agrada.

 

Agradeço à Editorial Presença a oportunidade preciosa que me deu de conhecer este livro e esta escritora que, até à data, infelizmente ainda não publicou mais nenhum livro. Este O Décimo Terceiro Conto já faz, inevitavelmente, parte da minha galeria de favoritos.


Classificação:
9/10 – Excelente

Livro n.º 34 de 2010