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Arquivo da categoria ‘6/10’

[Opinião] Laços de Sangue, de Pamela Freeman

Thursday, August 12, 2010 Post de Célia

Autor: Pamela Freeman
Título Original: Blood Ties (2007)
Série: O Dom #1
Editora: Planeta
Páginas: 438
ISBN: 9789896570750
Tradutor: Andreia Mendonça

 

Sinopse: Laços de Sangue é um romance que assenta na magia e noutras formas sobrenaturais enquanto elementos fundamentais de uma história dividida entre o realismo e a fantasia. Há mil anos, a Terra dos Onze Domínios foram invadidas e os seus habitantes obrigados a partir, transformando-se em Viajantes, a caminho de lado nenhum. Bramble, também ela Viajante, é tão selvagem como os animais que vivem na floresta, em volta da sua aldeia, um espaço habitado por criaturas sobrenaturais e em que o passado está mais presente do que se poderia imaginar. Além do tortuoso caminho que Bramble é obrigada a percorrer, injustamente acusada de um crime que não cometeu, Laços de Sangue acompanha também a vida de Ash, aprendiz de feiticeiro que só quer vingar a morte da família, e Saker, mágico em luta pela devolução da Terra perdida, as personagens principais de uma história que mescla passado e futuro através de uma omnipresente marca de sangue.

 

Opinião: Laços de Sangue é o primeiro livro da trilogia O Dom, da escritora australiana Pamela Freeman, sendo também a sua estreia na ficção para adultos. É um livro que já me tinha chamado a atenção mesmo antes de ser publicado por cá, por opiniões positivas que li, e por isso foi com alguma expectativa que parti para esta leitura.

 

Trata-se de um livro de fantasia, cuja história decorre no mundo imaginado dos Onze Domínios, povoados pelos descendentes do povo de Acton, que conquistou este território há vários séculos atrás, e pelos Viajantes, habitantes originais dos Onze Domínios, agora um povo nómada, desenraizado, e mal visto. Este livro acompanha o percurso separado de dois jovens de ascendência Viajante, Bramble e Ash.  Bramble é uma jovem com espírito selvagem, que só se sente bem rodeada pela Natureza e que já há muito tempo vem “ouvindo” o chamamento da Estrada. Um acontecimento inesperado leva-a a partir finalmente da aldeia onde reside, na companhia do seu cavalo. Alternadamente, acompanhamos a vida de Ash na sua aprendizagem para a função de segurança, tarefa para a qual foi “empurrado” pelos pais Viajantes pela sua falta de habilidade para cantar.

 

É neste contexto, a que a autora acrescenta elementos sobrenaturais relacionados com Videntes e fantasmas, que a história vai decorrendo. Entre os relatos dos acontecimentos que envolvem Bramble e Ash, e que abarcam ainda alguns anos, podemos ainda ler pequenos capítulos dedicados a personagens secundárias. Confesso que este foi um dos aspectos que mais gostei neste livro e, muito sinceramente, foi aqui que encontrei os maiores pontos de interesse neste livro pelo interesse e diversidade destas histórias paralelas. E isto aconteceu pelo facto de não me ter importado particularmente com o decorrer das histórias das duas personagens principais. Simpatizei mais com Ash e com os seus dilemas do que com Bramble, que me pareceu quase sempre uma personagem algo estereotipada.

 

A história e a abordagem são interessantes, e também gostei da escrita de Pamela Freeman. No entanto, acho que a autora falhou em aliar o ritmo bastante lento da história à criação de personagens suficientemente cativantes para manter o interesse do leitor no seu destino e no desenrolar da história. Por isso, às tantas dei por mim a virar páginas não com vontade de saber como terminava, mas sim para chegar ao final da história. No que diz respeito ao mesmo, é importante referir que o enredo tem um final aberto, que claramente abre caminho ao próximo volume da trilogia.

 

Não diria que é um livro que possa satisfazer qualquer amante de fantasia, mas ainda assim penso ter pontos de interesse que agradarão a alguns leitores. 


Classificação:
6/10 – Interessante

Livro n.º 69 de 2010


[Opinião] A Pousada da Jamaica, de Daphne du Maurier

Tuesday, August 3, 2010 Post de Célia

Autor: Daphne du Maurier
Título Original: Jamaica Inn (1936)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 280
ISBN: 9789722343138
Tradutor: Eduardo Saló

 

Sinopse: A Pousada da Jamaica é uma obra-prima do romance de mistério, que se passa na Cornualha no ano de 1820. Mary Yellan, uma jovem de vinte e três anos, vê-se obrigada, após a morte da mãe, a ir viver com uma tia num local ermo e isolado onde esta, juntamente com o marido, explora a Pousada da Jamaica. Mas Joss Marlyn, o marido da tia Patience, é um homem obscuro e violento, e uma atmosfera ameaçadora e sinistra envolve aquele lugar. Suspense, paixão e aventura numa obra reveladora da capacidade única de Du Maurier para captar o espírito perturbador, quase sobrenatural, dos locais que elege como cenário dos seus romances.

 

Opinião: Desde que li Rebecca desta escritora, que se tornou de imediato num dos meus livros preferidos de sempre, fiquei com curiosidade para ler outros livros de sua autoria. Não o tinha feito mais cedo porque me tinha deparado por várias vezes com o comentário de que Rebecca estava muitos furos acima da sua restante obra e, por isso, tinha algum receio de me desiludir. A Pousada da Jamaica já tinha sido publicado em Portugal com o mesmo título pela Editora Livros do Brasil em 1988 (ao que tudo indica, com a mesma tradução da edição da Presença, dado que o nome do tradutor é igual) e, em 1974 pela Edi­tora Clube Por­tu­guês do Livro e do Disco, com o título A Estalagem Maldita. Esta reedição da Presença pareceu-me uma boa oportunidade para colocar os receios de lado e confirmar (ou não) Daphne du Maurier como uma escritora preferida.

 

Depois do falecimento da sua mãe e de ficar orfã, a jovem Mary Yellan vê-se com poucas alternativas senão pedir asilo à sua tia Patience. No entanto, a carta que recebe desta, após comunicar a morte da mãe, dá o primeiro indício a Mary de que alguma coisa não está bem, pois não parecem haver resquícios da alegre e destemida Patience que Mary conheceu em tempos. Ao viajar para a Pousada da Jamaica, onde Patience vive com o marido, Mary ouve estranhos rumores das pessoas que encontra pelo caminho, acerca de ninguém parar na Pousada devido a boatos de que coisas muito estranhas lá aconteceriam. Ainda assim, com vontade de rever a tia e sem muito mais opções, Mary decide rumar à Pousada.

 

Uma vez chegada à sombria Pousada da Jamaica, Mary reencontra apenas uma sombra da sua tia Patience, que se tornou numa mulher assustada, submissa e envelhecida. Cedo descobre que a origem desta mudança radical é o seu marido Joss Marly, um homem rude, desbocado e, acima de tudo, assustador. Pouco tempo depois de estar na Pousada, Mary começa a perceber por que motivo as pessoas deixaram de visitar o local, desvendando os segredos que o seu tio esconde e que a tia tanto teme.

 

A criação de uma “atmosfera ameaçadora e sinistra”, como a sinopse refere, era certamente uma das intenções da autora ao escrever este livro. E, em certa medida, consegue-o, mas a personalidade destemida de Mary ajuda a atenuar esse efeito, uma vez que o leitor vai conhecendo os desenvolvimentos da história segundo a sua perspectiva. Para além disso, cedo percebemos qual era, afinal, o segredo de Joss e mesmo o twist final não era difícil de adivinhar a partir de certa altura do desenrolar da história.

 

No que se refere às personagens, penso que o tio de Mary terá sido a caracterização melhor conseguida: um homem totalmente mau, repugnante e sem escrúpulos. Apesar de achar que a personagem teria ganho se não fosse tão linear e um vilão tão completo, pareceu-me que, no essencial, a autora consegue transmitir bem a essência de Joss. Já a personagem principal não me cativou particularmente e pareceu-me, por vezes, um pouco incoerente. Ao enredo principal, a autora acrescenta uma história secundária que inclui um interesse romântico para Mary, que, face às suas convicções e personalidade corajosa, acaba por parecer algo inverosímil e pouco convincente.

 

O melhor que este livro tem é, sem dúvida, a escrita de Daphne du Maurier, apesar de parecer uma versão menos aprimorada do que pude apreciar em Rebecca, que foi publicado dois anos mais tarde. De uma forma sucinta, pareceu-me uma boa ideia em termos de enredo, mas que nem sempre foi pelos caminhos mais interessantes, necessitando também de uma personagem principal mais forte e com a qual o leitor se pudesse identificar.

 

Uma nota final para a tradução: apesar de, de um modo geral, estar boa, irritou-me solenemente a quantidade absurda de vezes que o tradutor empregou as palavras “conquanto” e “porquanto”. Sendo duas palavras que não leio ou utilizo frequentemente (e acredito que outros leitores estejam na mesma posição que eu), às tantas tornou-se num elemento distractivo pela negativa e contribuiu para diminuir a atenção em relação ao que estava a ler. 

 

Classificação: 6/10 – Interessante

Livro n.º 67 de 2010


[Opinião] Eis o Homem, de Michael Moorcock

Wednesday, July 7, 2010 Post de Célia

Autor: Michael Moorcock
Título Original: Behold the Man (1969)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 96
ISBN: 9789728839871
Tradutor: Luís Rodrigues

 

Sinopse: Karl Glogauer é um homem dos nossos tempos. Quando o destino lhe oferece a possibilidade de viajar no tempo, ele não tem dúvidas quanto ao lugar e à época que quer visitar: a Terra Santa no tempo de Jesus. Mas o que poderia ser uma viagem turística à morte do Messias e ao nascimento da maior religião do mundo revela-se uma desilusão: Maria é a libertina da aldeia, José um velho amargo e Jesus Cristo apenas um deficiente mental. Devotado ao ideal de um Jesus real e histórico, Karl acredita que tem de fazer alguma coisa. Reunindo seguidores, repetindo parábolas que consegue recordar e usando truques psicológicos para simular milagres, Karl toma o lugar do Messias. Mas fará sentido um Messias que, no final, não morra na cruz?

 

Opinião: Todos os participantes do 1.º Encontro BANG! tiveram direito a um livro de graça, à escolha de entre uns quantos. De lá, trouxe comigo Eis o Homem, de Michael Moorcock, que já andava com vontade de ler há algum tempo. Para quem não sabe, este é um escritor com pergaminhos na área da fantasia e ficção científica (é ainda o autor da famosa série Elric, também publicada entre nós pela Saída de Emergência), bastante premiado, sendo um desses primeiros prémios o Nebula Award de 1967 para melhor novela. Esta novela já tinha sido publicada em 1966, na revista New World, e em 1969 foi publicada pela primeira vez a sua versão alargada, que podemos ler nesta edição portuguesa (que contém ainda uma nota de autor interessantíssima datada de 1996).

 

Eis o Homem conta a história de Karl Glogauer, que, por ter uma espécie de obsessão com o Cristianismo e a religião, apesar de ser agnóstico, decide viajar para a época de Jesus Cristo quando lhe apresentam a possibilidade de viajar no tempo. Karl contacta com figuras conhecidas, como João Baptista, e cedo descobre que a figura de Jesus, Maria e José não eram as pessoas idealizadas historicamente. Jesus é retratado como um deficiente mental e, por isso, Karl sente-se na obrigação de tomar o seu lugar como profeta e passar por todos os acontecimentos Bíblicos, de modo a que a história se pudesse cumprir.

 

O relato dos acontecimentos após a chegada à Terra Santa são intercalados com pedaços da vida de Karl, em particular da infância e do seu relacionamento com a namorada Monica, e que ajudam a explicar a ânsia do protagonista em que a história seja cumprida e que as coisas possam acontecer como relatadas na Bíblia.

 

Considero que é um livro bem escrito, que levanta questões importantes para quem se interessa por religião (crentes ou cépticos), especialmente no que se refere ao antagonismo entre ciência e religião e à necessidade da existência de algo em que acreditar. E é aqui que julgo residir o essencial deste livro: é necessário que Jesus Cristo tenha realmente existido para que o Cristianismo tenha significado? No final do livro, temos uma Nota de Autor, onde este explica com algum detalhe o processo de criação desta história e as principais motivações subjacentes.

 

Não foi um livro que me tivesse arrebatado, e acho que muito disso tem a ver com o meu pouco interesse por temas religiosos e pelo facto de ter preferência por ficção mais longa. Mas é, sem dúvida, um livro a ler para quem se interesse pelo tema. 

 

Classificação: 6/10 – Interessante

Livro n.º 57 de 2010


[Opinião] Perturbações Atmosféricas, de Rivka Galchen

Wednesday, June 23, 2010 Post de Célia

Autor: Rivka Galchen
Título Original: Atmospheric Disturbances (2008)
Editora: Editorial Presença
Páginas: 264
ISBN: 9789722343763
Tradutor: Manuel Cintra

 

Sinopse: Quando a mulher do Dr. Leo Liebenstein, um psiquiatra nova-iorquino de 51 anos, desaparece, deixa uma única pista – uma sósia que fala e se comporta exactamente como ela, ou quase exactamente como ela. Mas Leo não se deixa enganar por este embuste e embrenha-se numa busca quixotesca do seu amor perdido. Um romance de estreia genial, que é a um tempo uma grande história de amor, comédia negra, thriller psicológico e o retrato inquietante de uma mente em ruptura. Rivka Galchen traz-nos uma obra de literatura no seu estado simultaneamente mais puro e sofisticado.

 

Opinião: Em Dezembro passado, entrou no meu apartamento uma mulher rigorosamente semelhante à minha esposa. Era tudo igual, mas não era a Rema. Era apenas uma sensação que me permitia saber isso” Assim se inicia, de forma genial, a história de Leo Liebenstein, um psiquiatra residente em Nova Iorque. Leo acredita que a sua mulher, Rema, desapareceu e uma substituta (quase) perfeita foi colocada no seu lugar. Mas à medida que a mulher, ou o “simulacro” tal como Leo decide chamar-lhe, não admite ser uma impostora e se instala na vida de Rema como se sempre ali estivesse estado, Leo decide que tem de fazer algo para encontrar a sua esposa – a sua Rema.

 

E é assim que, não querendo abandonar as suas convicções, Leo contacta Harvey, um dos seus neuróticos pacientes, na esperança de que este o possa ajudar a fazer sentido a este mistério. Harvey, que acredita ter poderes especiais para controlar fenómenos meteorológicos, julga ainda ser um agente secreto para a Real Academia de Metereologia. Leo é rapidamente absorvido pela fantasia do seu próprio paciente e fica convencido de que essa instituição e os seus colaboradores de mais alta patente, tal como um estranho personagem de nome Tzvi Gal-Chen – na realidade, um verdadeiro metereologista e pai da autora, Rivka Galchen – deverão estar envolvidos no desaparecimento de Rema.

 

Embora num tom por vezes cómico, Leo começa a ser cada vez mais delirante nos seus pensamentos e nas suas suspeitas, de tal forma que se torna cansativo acompanhá-lo na viagem alucinada que persegue em busca de Rema. A certa altura, revelando alguma lucidez, refere que só poderá amar a Rema original, a verdadeira Rema. Esta é uma das inúmeras pistas que nos podem conduzir à verdadeira causa da sua aparente ilusão, pois pode o desgaste no tempo de uma relação permitir-nos não reconhecer a pessoa que amamos? É aqui que se concentra o interesse do livro e é sobretudo por isto que vale, pela intenção de ser um ensaio sobre a rotina do amor. A premissa básica do livro é bastante boa e a escrita é, a espaços, assombrosa, mas o livro acaba por não cumprir a expectativa inicial já que o seu interesse é um pouco rebatido pela quantidade de conceitos meteorológicos apresentados, pelas divagações psiquiátricas e constantes teorias/fantasias da conspiração.

 

Perturbações Atmosféricas é o primeiro livro da autora com origens canadianas, Rivka Galchen, que tem causado algum impacto no mundo literário desde 2008. Recentemente, foi nomeada como uma das mais importantes jovens escritoras da actualidade pelo The New Yorker. – Sofia Martins

 

 

Classificação: 6/10 – Interessante


[Opinião] Se Acordar Antes de Morrer, de João Barreiros

Tuesday, June 8, 2010 Post de Célia

Autor: João Barreiros
Editora: Gailivro
Páginas: 510
ISBN: 9789895577033

 

Sinopse: João Barreiros nesta colectânea de contos de ficção Científica portuguesa descreve-nos lugares imaginários, que se aproximam muito dos reais, onde tudo é negativo. O seu imaginário é sempre fracturante, onde a maior parte das vezes o herói ou o próprio mundo estão condenados à partida. O herói tem sempre uma falha essencial: a cupidez; a cegueira pessoal, política ou está envolvido numa situação em que dificilmente ele sairá ganhador. A tentativa de chocar o leitor é deliberada e propositada. Em alguns dos contos encontra-se a desconstrução subversiva de todos os mitos de infância (Pai Natal). Num dos contos que fazem parte desta colectânea “O Teste” revela-nos toda a sintomatologia psicossomática característica de um professor quando de manhã acorda e tem pela frente um dia que teima em ser longo desde que se levanta até chegar à escola. Finalmente chega e entrega os testes aos alunos que o consideram difícil. Perante tal reacção, José Esteves fica aterrorizado por causa da taxa de insucesso gigantesca que irá revelar-se o que implica uma visita de Inspector ou um processo disciplinar e uma suspensão das actividades lectivas por provada crueldade mental. E como se isso não bastasse, uma espera feita pelos alunos, algures, fora dos terrenos da escola.

 

Opinião: Se Acordar Antes de Morrer junta, num só volume, os principais contos de João Barreiros, uma das poucas vozes da ficção científica “made in Portugal”. O livro conta com um total de 15 contos, a maioria já publicados anteriormente online ou noutras compilações. Todos eles têm uma introdução escrita pelo autor, que detalha as circunstâncias em que o conto em causa foi escrito/publicado e as premissas que serviram de base à sua escrita.

 

Este livro foi, de início, um duplo desafio para mim: por um lado, por ser composto por contos quando prefiro claramente ficção mais longa; por outro, por se inserir dentro de um género no qual reconheço ter lido muita pouca coisa e não ser aquele com o qual mais me identifico. Com o decorrer da leitura, deparei-me com outras “dificuldades”, como a escrita povoada de terminologia futurista, científica e tecnológica que exige uma leitura mais cuidada e atenciosa ou um conto em particular que me fez ter de respirar fundo, pousar o livro por uns dias, para poder voltar a pegar-lhe (já volto a isto, daqui a pouco).

 

Os vários contos, apesar de tratarem de temáticas diferentes e diferirem no seu objecto, têm dois aspectos semelhantes entre si (entre outros possíveis):
– a inegável imaginação prodigiosa do autor, que cria cenários que, apesar de fictícios e por vezes distantes da nossa realidade, não conseguem deixar de ser palpáveis e verosímeis;
– a tendência do autor para algum negativismo na criação de cenários futuros – e quando falo em negativismo refiro-me aos cenários dantescos e que revelam o pior do ser humano.

 

Como disse antes, tinha lido pouco dentro do género de ficção científica, nada escrito por portugueses. Depois de ler este livro, continuo a perceber que este género não é, definitivamente, a minha praia. Mas, como gosto sempre de variar e de ler, de facto, para poder emitir a minha opinião, não dei o meu tempo por mal empregue. Houve alguns contos de que gostei em particular: o meu preferido foi o primeiro, Brinca Comigo!, que fala de uma horda de brinquedos num mundo futurista, que ruma a uma Lisboa abandonada e quase desprovida de humanos em busca de um Alvo, que só no fim descobrimos o que é. Gostei também bastante do Efemérides, escrito para celebrar os 30 anos da chegada do Homem à Lua e que cria um cenário em que a Lua foi colonizada, e de O Teste, escrito no final dos anos 80 e que, retirando os devidos extremos, é um boa sátira ao estado actual da educação em Portugal.

 

Os restantes contos têm todos vários pontos de interesse, até aquele de que menos gostei e que me fez ter de pausar a leitura: Fantascom. Em traços gerais, trata-se de uma sátira ao género fantástico, por oposição à ficção científica, em que a personagem principal, Gervásio Queiroga, é claramente uma caricatura do escritor português Filipe Faria. Ora, eu não li nenhum livro deste escritor e, sinceramente, não o pretendo fazer, mas achei que a sátira poderia ter sido feita, e até ganharia com isso, sem este tipo de abordagem. Não afirmo textualmente que a intenção do autor foi um ataque pessoal, mas sinceramente foi essa a sensação que tive. Mas o que me irritou mais neste conto nem foi isso: foi toda uma banalização do género fantástico, o colocar no mesmo saco o bom e o mau (mais mau do que bom, neste caso), como se nada se aproveitasse. Bem sei que, nas sátiras, as críticas implícitas são normalmente extremadas, mas não gostei de ver o meu género preferido retratado como o mau da fita. Custa-me ver as pessoas que gostam deste género pintadas como leitores que aceitam tudo o que lhes dão, sem espírito crítico, seja bom ou mau, porque não me identifico com este retrato. A preferência dos leitores pelo fantástico, não necessariamente em detrimento do resto da ficção especulativa, é um facto. Talvez fosse bom reflectirmos no porquê. No entanto, colocando de lado todas as questões pessoais que possa ter com o tema tratado, reconheço que o autor consegue aqui, com relativa eficácia, atingir o seu objectivo.

 

Resumindo, foi objectivamente uma leitura interessante, com textos de bastante qualidade. Pessoalmente, deixou-me dividida pelo que referi acima, mas recomendo a quem gosta de ficção científica ou a quem quer experimentar o género, e ainda a quem quiser conhecer um autor português que merece mais destaque do que o que tem tido. 

 

Classificação: 6/10 – Interessante

Livro n.º 49 de 2010