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Arquivo da categoria ‘4/5’

[Opinião] A Sangue Frio, de Truman Capote

Tuesday, November 4, 2014 Post de Célia

2827724Autor: Truman Capote
Título Original:
In Cold Blood (1965)
Editora: Biblioteca Sábado
Páginas: 237
ISBN: 9788461205998
Tradutor: Maria Isabel Braga

 

Sinopse: Em 1959 um violento crime abalou a tranquila cidade de Holcomb, Kansas: um rico agricultor, a sua mulher e os seus dois filhos adolescentes foram encontrados no domicílio familiar, atados e amordaçados, mortos à queima-roupa. Os Clutter, assim se chamava a família assassinada, eram prósperos trabalhadores, frequentadores da missa dominical, sem inimigos, um exemplo virtuoso da América profunda. No dia seguinte, Truman Capote leu a notícia nos jornais e decidiu investigar o caso, indagar na obscura motivação dos assassinos, com o propósito de escrever «um romance real, um livro que se lesse exactamente como um romance, só que cada palavra fosse rigorosamente certa».

 

Opinião: Sabia muito pouco sobre A Sangue Frio, para além de ser um livro de não-ficção que tratava de um crime decorrido nos anos 1950-60. Um dos desafios em que estou a participar este ano foi o mote para finalmente lhe pegar, depois de o ter comprado em 2008.

 

Em 1959, no Kansas, uma família de 4 pessoas apareceu morta em sua casa, vítimas de mortes violentas, e aparentemente não existiam motivos ou suspeitos. Apenas alguns meses após os assassinatos apareceu uma pista forte, que permitiu à polícia perseguir e prender os culpados, dois ex-presidiários que tinham entrado na quinta dos Clutter à procura de dinheiro. 

 

Truman Capote viajou para o local do crime pouco tempo após este ter decorrido, por ter lido sobre o caso e o ter achado interessante, bom material para escrever o tipo de livro que acabou por escrever. Capote entrevistou várias pessoas ligadas ao caso, inclusivé os assassinos, arranjando assim material para compôr este livro, um dos mais famosos dentro do género “romance de não-ficção”.

 

A informação recolhida com a ajuda de Harper Lee (autora de To Kill a Mockingbird, amiga de infância do escritor) permitiu a Truman Capote ordenar os eventos cronologicamente e narrá-los de uma forma muito pessoal, por vezes até poética, intercalando os acontecimentos que rodearam a família Clutter imediatamente antes dos seus assassinatos, a descoberta dos corpos e a investigação posterior, com o percurso dos assassinos, o seu estado de espírito e a relação entre ambos.

 

O principal atrativo deste livro é a tentativa de humanização dos assassinos e a análise psicológica dos mesmos. Muitas questões são levantadas sobre a origem da maldade e o que ela, na realidade, significa. A verdade é que os dois assassinos, Perry e Dick, mataram quatro pessoas a sangue frio sem motivo aparente. Truman Capote achou interessante tentar perceber o estado em que alguém está ou a que tem de chegar para perpretar um ato do género, que demonstra uma completa falta de compaixão e respeito pela vida humana.

 

É um livro intenso psicologicamente, por vezes difícil de ler. Capote pega bastante no argumento das infâncias complicadas (como a sua própria) e dos problemas psicológicos para justificar uma parte do injustificável. Penso que é necessário despirmo-nos da nossa tendência normal de tomar partidos para podermos avaliar de forma isenta o que o autor nos está a tentar transmitir. Acho que o consegui fazer e, apesar de autores de atos brutais e irreversíveis, compreender um bocado Perry e Dick. E isso é uma das coisas mais notáveis deste livro.

 

A Sangue Frio estimula a reflexão e faz-nos compreender (ou pelo menos, tenta) este ato de violência praticamente gratuita. Fá-lo de uma forma competente, com uma escrita muito acima da média, apesar de ser um livro, na maioria do tempo, forte psicologicamente e que exige ao leitor estar no espírito certo para o ler. Recomendado.

 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


[Opinião] Crime no Vicariato, de Agatha Christie

Wednesday, October 22, 2014 Post de Célia

7417877Autor: Agatha Christie
Título Original:
Murder at the Vicarage (1930)
Editora: RBA Coleccionables
Páginas: 256
ISBN: 9788447360352
Tradutor: Carlos Lobo 

 

Sinopse: O coronel Protheroe jazia estatelado em cima da escrivaninha e à sua volta ia-se formando uma poça de sangue. Tinha sido assassinado com um tiro na cabeça. Este lúgubre acontecimento é mais grave por ter ocorrido numa pacata aldeia inglesa, e pior ainda, se tivermos em consideração que a escrivaninha pertence ao vigário da igreja local.

 

Opinião: Um Crime no Vicariato foi o livro que deu a conhecer Miss Marple, uma pacata senhora de idade que vive num meio pequeno e que tem uma especial propensão para resolver mistérios. Já a tinha encontrado em Um Corpo na Biblioteca, que não ficou na lista dos meus livros preferidos da Rainha do Crime, mas a vontade de voltar a Miss Marple era grande e por isso decidi pegar no primeiro livro que protagonizou.

 

St. Mary Mead é uma típica aldeia do interior, um meio muito pequeno onde toda a gente se conhece e onde o vicariato – e o respetivo vigário – desempenham um papel importante nos acontecimentos sociais da localidade. Esta história é-nos narrada precisamente pelo vigário Len Clement, em cuja casa é encontrado morto Mr. Protheroe, um homem do qual ninguém na aldeia parecia gostar. Como de costume, várias personagens têm motivos para ter cometido o crime: a mulher, o amante da mulher, a filha, o médico, o próprio vigário, entre vários outros. 

 

Miss Marple é conhecida pelas suas capacidades de ver sem ser vista, enquanto pratica jardinagem, um hobby de eleição. É enquanto está no seu jardim que Miss Marple observa as idas e vindas dos seus conterrâneos, juntando as peças daquele que é o seu puzzle preferido, a natureza humana. E é por ser uma observadora e apreciadora da natureza humana que Miss Marple obtém todas as ferramentas necessárias à resolução de mistérios que, aliadas às suas excelentes capacidades dedutivas, lhe permitem chegar sem grande dificuldade à resolução dos mistérios que se lhe vão deparando.

 

Gostei muito deste livro. Não tanto pelo mistério em si – apesar de este ser muito interessante e fazer o leitor virar páginas atrás de páginas, rumo ao desenlace final – mas porque adorei o tom humorístico do narrador, a composição muito bem conseguida de St. Mary Mead, tornando-o um local credível e que todos nós conhecemos na realidade, e um leque de personagens interessantes e bem desenvolvidas. Para além disso, a autora toca aqui num ponto interessante, que é a análise do crime do ponto de vista médico, como um ato cometido por alguém que pode ser estudado pela medicina e não tanto tratado, como a lei manda, única e exclusivamente pelas autoridades.

 

Em suma, mais um bom livro de Agatha Christie. Como já vem sendo habitual.

 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


[Opinião] The Good Girl, de Mary Kubica

Friday, October 10, 2014 Post de Célia

21847076Autor: Mary Kubica
Ano de Publicação: 2014
Páginas: 400

Sinopse (da edição portuguesa): Um thriller psicológico intenso e de leitura compulsiva, Não Digas Nada revela como, mesmo numa família perfeita, nada é o que parece. Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de supermercado, a que lavandaria vai, onde trabalha. Nunca falei com ela. Não lhe reconheceria o tom de voz. Não sei a cor dos olhos dela ou como eles ficam quando está assustada. Mas vou saber. Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária. Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia.

 

 

Opinião: Confesso que o que me intrigou inicialmente neste livro foi a capa. De seguida li a sinopse e achei muito interessante, pelo que não foi difícil decidir que iria lê-lo. The Good Girl (Não Digas Nada, na edição portuguesa) é um thriller psicológico que tem sido bastante comparado ao Gone Girl, essencialmente pelo twist final inesperado. Existem outros pontos de contacto, nomeadamente a existência de um caso policial e a componente psicológica intensa, mas de resto são dois livros bastantes distintos e que valem por si só.

 

The Good Girl é-nos apresentado sob a forma de capítulos alternados contados na primeira pessoa por três personagens diferentes, todas elas relacionados com Mia Dennet, uma jovem filha de um juiz que é raptada. Acompanhamos assim a mãe de Mia, o detetive encarregue do caso e o raptor, tanto antes como após o reaparecimento de Mia.

 

O que mais gostei neste livro foi, sem dúvida, a existência de zonas cinzentas. Não há maus nem bons, todas as personagens têm as suas características positivas e negativas e a autora consegue explorar isto de forma muito competente. Colin, o raptor, que à partida parecia ser uma personagem que não iria granjear simpatias, acaba por tornar-se na personagem mais interessante do livro – pelo menos para mim.

 

A questão mais delicada do livro e que pode, provavelmente, suscitar mais incredulidade por parte do leitor é a relação que se estabelece entre Mia e o seu raptor. Há quem fale no Síndrome de Estocolmo, mas apesar de considerar esta menção razoável pelos contornos da história, diria que esta relação passa muito para além disso. Acredito que se o leitor não achar este ponto do enredo credível, muito do interesse na história desvanecer-se-á.

 

A relação entre Mia e Colin, juntamente com a caracterização bem conseguida das personagens principais acabaram mesmo por ser os aspetos que mais gostei no livro. Tenho algumas reticências em recomendá-lo sem reservas, porque penso que o gostar mais ou menos desta história dependerá um pouco da sensibilidade do leitor, mas de qualquer modo considero-o um livro com uma história cativante e que incita à reflexão. Ficarei atenta a publicações futuras desta autora.

 

 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Categorias: 4/5, Célia, Mary Kubica, Opiniões

[Opinião] City of Dragons, de Robin Hobb

Friday, September 19, 2014 Post de Célia

13059492Autor: Robin Hobb
Ano de Publicação: 2012
Série: Rain Wild Chronicles #3 | Realms of the Elderlings #12
Páginas: 416

Sinopse: Once, dragons ruled the Rain Wilds, tended by privileged human servants known as Elderlings. But a series of cataclysmic eruptions nearly drove these magnificent creatures to extinction. Born weak and deformed, the last of their kind had one hope for survival: to return to their ancient city of Kelsingra. Accompanied by a disparate crew of untested young keepers, the dragons embarked on a harsh journey into the unknown along the toxic Rain Wild River. Battling starvation, a hostile climate, and treacherous enemies, dragons and humans began to forge magical connections, bonds that have wrought astonishing transformations for them all. And though Kelsingra is finally near, their odyssey has only begun.

As they forge ever-deeper into uncharted wilderness, starvation, flashfloods, and predators imperil them all. But as dragons and humans alike soon learn, the most savage threats come from within their own company…

 

 

Opinião: Eis-me chegada ao terceiro volume da série Rain Wild Chronicles, que retoma os acontecimentos que ficaram pendentes no final do volume anterior.

 

Os dragões e os seus cuidadores chegaram finalmente a Kelsingra, a cidade perdida dos dragões: lá, encontram-se muitos mistérios por desvendar, que prometem revelar mais sobre a história dos dragões e sobre os Elderlings, uma raça meio-humana meio-dragão, com uma esperança de vida muito acima acima do normal. Esse conhecimento vem dos artefactos que os cuidadores encontram, mas também de uma espécie de flashbacks que têm do que era a vida de então. É notável como Robin Hobb consegue dar vida a esta cidade perdida, fazendo o leitor sentir que está realmente a caminhar no meio daquelas ruínas.

 

A nível de desenvolvimento de personagens e de enredo, este livro também apresenta evoluções singificativas: os dragões estão cada vez mais independentes e isso revela-se em alguns confrontos entre eles; Thymara e Alise (mais a primeira) vêm chegar alterações importantes na sua vida, enquantoMalta Vestrit, uma das protagonista da trilogia Liveship Traders, regressa ao primeiro plano do enredo . Muito curiosa também a participação do liveship Tarman, o primeiro a ser construído e que, apesar de não apresentar (aparentemente) a sabedoria de outros navios que já encontrámos, promete ter uma participação importante no que resta da história.

 

Mas longe de Kelsingra e das cidades Rain Wild outras coisas importantes vão acontecendo: em Bingtown e Chalced as intrigas e conspirações relativamente aos dragões e às potencialidades de Kelsingra crescem e acrescentam densidade e interesse ao enredo, ao mesmo tempo que enriquecem o livro pela multiplicidade de perspetivas que geram. O livro peca apenas pelo fim abrupto, que deixa muita coisa por resolver, mas talvez isso não seja de estranhar uma vez que esta seria a primeira metade do livro que Robin Hobb escreveu originalmente, que depois acabou por ser dividido em duas publicações.

 

De resto, aquilo a que Robin Hobb já nos habituou: escrita cuidada e cativante, personagens que criam empatia e um enredo interessante, que deixa vontade de continuar a seguir esta história. Provavelmente não tão cativante como a trilogia que a precede, as Rain Wild Chronicles estão a revelar-se uma leitura rica e entusiasmante. 

 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Categorias: 4/5, Célia, Opiniões, Robin Hobb

[Opinião] The Glass Castle, de Jeannette Walls

Wednesday, September 10, 2014 Post de Célia

7445Autor: Jeannette Walls
Ano de Publicação:
2005
Páginas: 348

 

Sinopse: The Glass Castle is a remarkable memoir of resilience and redemption, and a revelatory look into a family at once deeply dysfunctional and uniquely vibrant. When sober, Jeannette’s brilliant and charismatic father captured his children’s imagination, teaching them physics, geology, and how to embrace life fearlessly. But when he drank, he was dishonest and destructive. Her mother was a free spirit who abhorred the idea of domesticity and didn’t want the responsibility of raising a family. The Walls children learned to take care of themselves. They fed, clothed, and protected one another, and eventually found their way to New York. Their parents followed them, choosing to be homeless even as their children prospered. The Glass Castle is truly astonishing–a memoir permeated by the intense love of a peculiar but loyal family.

 

Opinião: Tenho poucas recordações da minha infância. Lembro-me de um ou outro acontecimento, mas de um modo geral é um período difuso, onde as lembranças se dividem entre brincadeiras, verões felizes, pais e irmã presentes e gosto pela escola. Tenho alguma pena de não me lembrar de mais coisas, mas também sei que isso acontece em boa parte devido ao facto de ter tido uma infância feliz, em que tive sempre tudo aquilo que uma criança deve ter – e não estou a falar de coisas materiais.

 

A narrativa deste livro relata-nos uma situação diametralmente oposta. Costumo dizer que há pessoas que deviam ser proibidas de ter filhos, e sem dúvida que os pais de Jeannette Walls são duas delas. Nascidas entre as décadas de 1950 e 1960, as quatro crianças Walls fazem parte de uma família nómada, constantemente em movimento pelo sudoeste norte-americano, vivendo em locais que pouco melhor eram que a rua. Passar fome, andar sujo, não ir à escola são lugares-comuns destas crianças, que, para além disso, tinham liberdade para andar por onde quisessem e fazer o que bem entendessem.

 

Rex Walls e Rose Mary, os pais, surpreendentemente não eram pessoas iletradas, sem capacidade para arranjar emprego, sustentar a família e proporcionar aos filhos uma existência minimamente digna: ela tinha habilitações para lecionar e era uma artista, ele tinha estado na Força Aérea e era um criativo, uma pessoa com inteligência acima da média. O problema é que ela apresentava sinais mais ou menos claros de bipolaridade, e achava que a falta de regras e disciplina era a forma correta de educar crianças. Não havia em Rose Mary qualquer instinto maternal ou sentido de responsabilidade perante aquilo que é criar um filho. Rex, por seu lado, era uma desgraça quando bebia e só fazia asneiras.

 

Assim, Jeanette e os irmãos cresceram numa família bastante disfuncional, com não só falta de carinho como também problemas em satisfazer as necessidades mais básicas. A narrativa intercala momentos quase inacreditáveis de irresponsabilidade paternal (como quando, com 3 anos, a narradora se queimou gravemente enquanto cozinhava cachorros-quentes) com outros momentos em que o espírito livre destes pais proporcionou momentos que marcaram pela positiva as infâncias destes miúdos.

 

A autora adota, neste livro, um tom notavelmente factual. Estando a falar sobre a própria vida, é normal que aqui e ali se note emoção em alguns episódios narrados, mas, de um modo geral, Jeannette Walls consegue narrá-los de forma imparcial e deixar os julgamentos para o leitor. 

 

É uma leitura quase compulsiva e, por vezes, arrepiante pela incredulidade perante o que nos vai sendo relatado. “Isto aconteceu mesmo?” ou “Como é possível?” são perguntas que nos vão assaltando, juntamente com a admiração pela resiliência destas crianças e a vontade de saltar para a “história” e tirá-los dali.

 

Abstive-me de dar a nota máxima a este livro por dois motivos: primeiro, o final pareceu-me um bocado apressado – depois de tantas dificuldades, penso que teria sido bom contrabalançar os relatos negativos com uma fase mais positiva na vida da autora; depois, porque tive algumas dificuldades em acreditar que a autora se lembra com tanto detalhe de coisas que lhe aconteceram quando era tão pequena (como por exemplo, diálogos à sua volta quando ficou internada no hospital com 3 anos). Se ela realmente se lembra, é um feito notável; se não, isso significa que o início do livro foi algo romanceado, e nada garante que o resto não tenha sido também.

 

Mas apesar do que acabo de referir, penso ser uma leitura que vale a pena. Pelo realismo do relato, pelo contacto com realidades tão diferentes da nossa e por nos fazer acreditar que o ser humano consegue vingar, mesmo perante as maiores adversidades. Este livro encontra-se traduzido para português com o título O Castelo de Vidro, publicado pela editora Gótica em 2006 (não acredito, contudo, que seja muito fácil encontrá-lo à venda).

 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante