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Opinião: Húmus | Raul Brandão

Autores: Raul Brandão
Ano de Publicação Original:
 1917
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 192
ISBN: 9789896417635
Origem: Comprado

Sinopse: Húmus, de Raul Brandão, foi um acontecimento insólito na vida literária portuguesa, como um desses rochedos que, sem razão aparente, surgem no meio de uma planície.
Publicada em 1917, e refundida em posteriores edições, a obra não tem relação com a dos autores da Geração de 90 nem com as dos escritores estrangeiros seus contemporâneos, como Romain Rolland, Pirandello e Gorki. As únicas semelhanças poderão ser com a de Dostoievski e a que Kafka ia escrevendo.
O próprio Raul Brandão situou nas suas
Memórias o tempo em que o Húmus se inscreve: «A nossa época é horrível porque já não cremos — e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera…»
Maria João Reynaud definiu na edição das
Obras Completas de Raul Brandão o contributo do autor de Húmus: «Se a arte de Raul Brandão surge muitas vezes na fronteira da vida com a literatura, é porque ele concebeu a função do escritor em termos autenticamente modernos, isto é, em íntima conexão com uma atitude intelectual que a cada momento reivindica o livre exercício do espírito contra todas as formas de degradação dos valores humanos e contra todos os dogmas.»

Opinião:  Húmus: Camada superior do solo, composta em especial de matéria orgânica, maioritariamente vegetal, decomposta ou em decomposição. [Priberam]

Depois várias tentativas, finalmente decidi como deveria começar a escrever esta opinião. Saber o que é o “húmus” é uma boa forma de começar a compreender do que fala esta obra, que mesmo depois de lida parece deixar a impressão que se trata apenas da ponta do enorme icebergue que se esconde debaixo. Jamais teria a presunção de afirmar que percebi tudo o que Raul Brandão quis expressar em Húmus ou de tentar explicar o impacto e a importância deste livro na literatura portuguesa, portanto vou limitar-me a tentar transmitir-vos como foi a minha experiência de leitura.

Húmus não é um livro que se preste a uma leitura fácil e rápida. Várias foram as vezes em que voltei atrás e reli algumas passagens, na tentativa de perceber o seu significado. Não é que o português seja demasiado complexo, mas o facto de grande parte do livro ser escrito num estilo de fluxo de consciência profundamente filosófico e existencialista, sem que exista propriamente um enredo, torna-o um desafio acrescido.

Para mim, foi isso que Húmus foi: um enorme desafio. Comecei a lê-lo com toda a vontade, mas tive de o deixar repousar durante uns dias antes de voltar a imergir no húmus que, no final de contas, é aquilo em que todos nos transformaremos. Raul Brandão torna a morte e o fim de tudo numa completa obsessão delirante. Este texto tem tanto de passagens belíssimas como de devaneios quase incompreensíveis e desesperantes, mas que, no final de contas, acabam por formar um todo de incontáveis e ricas camadas.

Finda a leitura, sinto-me mais rica. Porque li, porque aprendi, porque conheci. Porque me fez refletir sobre o sentido da vida, o que me parece ter sido o objetivo último de Raul Brandão. No final, ficou a certeza que quero continuar a explorar a sua obra. Não para já, mas um dia certamente.

Uma vida resume-se em duas linhas, sintetiza-se em dois ou três factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivê-la. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superfície, não há nada mais estúpido — se nos quedamos a contemplá-la faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos mistérios. Prepara-te.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.