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Opinião: Instante | Wisława Szymborska

Autor: Wisława Szymborska
Título Original:
 Chwila (2002)
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 98
ISBN: 9789727088744
Tradutor: Elżbieta Milewska e Sérgio Neves
Origem: Empréstimo 

Sinopse: “A dimensão da sua poesia é pessoal, a de alguém que reflecte sobre a condição humana. É certo que tal actividade é acompanhada por uma extraordinária reticência; como se a poetisa se encontrasse num palco decorado para uma velha peça de teatro, uma obra que transforma o indivíduo em nada, num número anónimo, e como se, nestas circunstâncias, falar de si não fosse o mais indicado.”Sobre Szymborska, por Czeslaw Milosz

Opinião: E se eu vos disser que antes deste Instante nunca tinha lido um livro de poesia? Claro que na escola estudei poemas avulsos dos nossos poetas; em casa dos meus pais tínhamos boa parte da obra poética de Fernando Pessoa, mas a minha tenra idade só achava piada às suas quadras populares. Acho que a exposição demasiado académica que tive à poesia no ensino secundário me fez, por um lado, achar que a poesia exige ser entendida dessa forma e, por outro, que se não lesse poesia com essa abordagem correria o risco de não a entender de todo. Para além de tudo isso, simplesmente não sabia por onde começar. Num dos últimos episódios do fantástico podcast Biblioteca de Bolso, uma das três escolhas da convidada Helena Rafael foi precisamente Instante. Ela leu o seguinte poema (O Primeiro Amor): 

Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.

Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.

Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um cordel,
se ao menos fosse uma fita.

O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.

Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A este falta fôlego para suspirar.

No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros ainda não conseguem:
acostuma-me com a morte.

Gostei tanto do que ouvi que pensei: “é isto, é mesmo por aqui que vou começar”. Wisława Szymborska foi uma poetisa polaca que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1996 e de quem nunca tinha ouvido falar até agora. Em português, para além de Instante, está também publicado Paisagem com Grão de Areia (Relógio d’Água), Um Passo da Arte Eterna (Esfera do Caos) e uma antologia com o também Prémio Nobel da Literatura Czeslaw Milosz, Alguns Gostam de Poesia (Cavalo de Ferro). De notar que esta edição da Relógio d’Água é bilingue.

Instante é um livro curto, que se lê de uma assentada (eu li e depois reli logo de seguida). A temática dos poemas é diversa e o estilo é muito direto, ainda que excecionalmente contido. A economia de palavras não é aqui um sinónimo de que a mensagem não é bem transmitida, bem pelo contrário. O que mais me cativou nestes poemas foi isso mesmo, a forma brilhante como Szymborska consegue transmitir tanto em tão poucas palavras. Veja-se As Três Palavras Mais Estranhas:

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já percence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Tão bonito, não é? Escusado será dizer que gostei mesmo muito desta experiência e pretendo repetir. Para já, explorando mais a obra desta autora e, depois, estou certa que muitos outros poetas se lhe seguirão. Têm sugestões?

Classificação: 5/5 – Adorei


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