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Refletindo sobre… (6)

Refletindo

Aqui há uns dias, tive conhecimento de uma opinião de uma escritora portuguesa relativamente a um assunto que anda agora na ordem do dia, o assédio sexual – neste caso em concreto, o que veio a público relativamente ao ator Kevin Spacey. Ora, este é um assunto em relação ao qual eu tenho opiniões bem vincadas e pouco abertas a discussões, indo totalmente contra o que essa escritora pensa sobre o assunto. 

Não sendo uma autora que eu costume ler, levou-me a refletir sobre a distinção que se faz entre autor e obra. Este assunto não é novo, mas acho que vale a pena falar sobre ele. À partida, sentir-me-ia tentada a afirmar que devemos procurar ao máximo separar as duas coisas. Se o que autor escreve é muito bom, porque é que me deveria deixar influenciar pelo facto de ter comportamentos impróprios ou opiniões polémicas de que discordo por completo? Mas a verdade é que me sinto influenciada. Por exemplo, quando aqui há algum tempo soube das acusações de pedofilia da Marion Zimmer Bradley deixei de ter vontade de ler o que quer que fosse de sua autoria no futuro, ainda que admita sem quaisquer problemas que gostei muito de ler As Brumas de Avalon ou Presságio de Fogo, de sua autoria. É como se, por saber que a pessoa que escreveu aquele livro não é decente, a minha empatia se esvaísse por completo e a perspetiva de ler um livro desse autor fosse quase como validar os seus atos ou opiniões.

Não me parece que haja uma resposta definitiva a esta questão; dependerá sempre do leitor. A nível pessoal, tenho muitas dificuldades em separar o autor da respetiva obra. De forma racional e objetiva, reconheço que faria sentido fazê-lo, mas não consigo. Não quer dizer que basta um autor ser simpático para que fique automaticamente interessada nos seus livros, mas sem dúvida que não consigo ficar indiferente a determinados comportamentos ou opiniões e, por esse motivo, perco completamente o interesse ou a vontade de ler os livros desse autor. E vocês, o que acham sobre este assunto?


Sobre Célia

  • A Miuda Geek

    Confesso que soube das acusações à Marion Zimmer Bradley muitos anos depois de ler uma obra que me marcou imenso – As Brumas de Avalon. Mas já tinha passado do tempo de a “ler” ou seja, não estava a fazer planos de voltar aos mundos por ela criados. Por isso, consegui fazer a distinção entre autor e obra, mas por defeito e não por eu ter implicitamente rejeitado.
    É uma questão complicada e não fui confrontada com mais nenhuma. Estou tentada, tal como tu em querer separar as 2 coisas, como seria racional. Mas o ser humano tem uma parte irracional que o lrva a rejeitar comportamentos que considera chocantes e imorais e a associa-los às pessoas. Não conseguiria ler livros escritos por um pedófilo mas posso estar inadvertidamente a fazê-lo. Mas sabendo dos factos, penso que também rejeito, porque é mau demais.

  • Patrícia

    A minha primeira reacção é dizer que o artista e a sua obra devem ser separados. Mas sei do que e de quem estás a falar e admito que é muito difícil fazê-lo.
    Acho que, para mim, há vários níveis. A Marion, por exemplo, que me doeu a alma quando me apercebi das acusações da filha: era a minha escritora preferida, ficou manchada mas a verdade é que já tinha lido dela tudo o que queria ler (não sou fã das darkover) e ptto a questão de voltar a lê-la não se pôs.
    Há depois o nível de escritores como Saramago: não acho que fosse o género de pessoa com que quisesse privar a nível pessoal mas nada disso me faz não apreciar o génio literário.
    O grande “problema” é a proximidade aos escritores que as redes sociais e os eventos literários nos proporcionam. Há pessoas com quem não temos química e de quem, mesmo sem razão, não gostamos. Há pessoas que têm valores opostos aos nossos. Há más pessoas. Há pessoas estúpidas, parvas. E há pessoas fantásticas. Diria que a percentagem de escritores em cada um destes grupos é aproximadamente igual à do resto da população. Isso diz-me que não devo gostar da maioria dos escritores uma vez que não gosto da maioria das pessoas.
    Mas com tantos bons escritores por aí porque haverei de ler livros de pessoas que não consigo admirar? A verdade é que nem tento… até porque sei que vou ser tão mais exigente com esses que dificilmente vão atingir as minhas expectativas.

    • CeliaCM

      A propósito do Saramago, e daquilo que li sobre ele a nível pessoal, parece-me uma pessoa muito interessante. É certo que as suas opiniões políticas eram polémicas, mas eu sou fascinada pela sua história com a Pilar ♥