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Refletindo sobre… (2)

Refletindo

Arturo Pérez-Reverte é daqueles escritores que sempre tive em boa conta, cuja obra sempre desejei explorar mais a fundo, mas, por um outro motivo, nunca surgiu a devida oportunidade. Na Roda dos Livros, A Rainha do Sul já foi recomendado inúmeras vezes e pareceu-me sempre interessantíssimo pela voz de quem já o leu. Para já, limito a minha experiência com este autor ao espirituoso A Sombra da Águia, que li há uns anos e de que gostei bastante. Vem isto a propósito de uma entrevista que o escritor espanhol concedeu recentemente à Revista Estante, e que adorei ler. 

Na entrevista, Pérez-Reverte fala sobre o seu livro mais recente, Falcó, mas também sobre a sua relação com Portugal e sobre os livros e a leitura. Partilho abaixo algumas das coisas que afirma, e com a quais concordo plenamente:

Quando vi a dor e a morte, os livros ajudaram-me a digerir tudo isso. Sabe que a bílis é uma substância que o corpo segrega para ajudar a digerir os alimentos. Sem vesícula biliar, não poderíamos digerir certos alimentos. Pois a literatura é a bílis da vida. Sem literatura, a vida não tem explicação.

[Um bom livro] É aquele que consegue multiplicar a vida do leitor, que torna possível ao leitor viver vidas que não viveu, que o leva a lugares onde nunca esteve. É o que nos dá aquilo que não temos.

De facto, há qualquer coisa de mágico nos livros e no ato de ler. Há países que sei que nunca vou visitar mas que conheço porque li sobre eles. Houve pessoas e acontecimentos dos quais nunca teria ouvido falar se não fossem os livros. Há pessoas, amigos que tenho no mundo real, que nunca teria conhecido se não gostasse de ler e que mudaram decisivamente a minha vida para melhor. Todos os dias, quando leio, aprendo, divirto-me, curo mágoas, recordo momentos felizes ou tristes, vivo. 

Mas Pérez-Reverte dá também os seus conselhos a jovens escritores:

Espera teres vivido para escreveres. Aos 20 anos não tens nada importante para dizer. Alguns nem aos 40, nem nunca. O mundo está cheio de gente que não tem nada para dizer e que se esforça para publicar. Para escrever um livro há que viver, há que ter coisas para contar, há que tirar coisas da mochila.

Concordo com o que ele diz, de um modo geral. Haverá notáveis exceções (lembro-me, por exemplo, de Mary Shelley, que escreveu o excelente Frankenstein com apenas 19 anos), mas de um modo geral, penso que é a vida que vai oferecendo as ferramentas essenciais para se escrever um bom livro.

Dito isto, tenho urgentemente de ler mais coisas de Pérez-Reverte!


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