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Opinião: Nada | Janne Teller

TellerAutor: Janne Teller
Título Original:
Intet (2000)
Editora: Bertrand 
Páginas: 152
ISBN: 9789722533737
Tradutor: Ana Diniz
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Fortemente comparado a O Senhor das Moscas, Nada é um livro bastante polémico, chocante e que convida à reflexão. Pierre Anton acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer. A vida não vale a pena! O rapaz deixa a sala de aula, sobe a uma ameixieira e lá fica. Os amigos tentam fazer de tudo para o tirar de lá, mas nada resulta. Decidem então pôr em prática um plano: fazer uma «pilha de significado». Mas cada um começa a desafiar os outros para que faça sacrifícios cada vez mais sérios e à medida que as exigências se tornam mais radicais, tudo aquilo toma uma dimensão mórbida e os acontecimentos precipitam-se para um final arrasador. E se, depois de todos aqueles sacrifícios, a pilha continuar a não ser capaz de fazer descer Pierre Anton? 

Opinião: No início de um ano letivo, o jovem Pierre Anton declara ao mundo “Nada tem significado. Sei isso há muito tempo. Portanto, não vale a pena fazer nada. Também já cheguei a essa conclusão.” E, então, decide passar os seus dias pendurado no ramo de uma ameixeira, advogando esta filosofia de vida aos seus colegas do 7.º ano. Inicialmente, o grupo tenta fazê-lo descer da árvore à força, atirando-lhe pedras, mas rapidamente percebe que terá de fazer algo diferente para conseguir alcançar o seu objetivo. E é então que alguém se lembra de construir uma pilha de significado, que mais não seria do que uma pilha de objetos importantes para cada um dos colegas de Pierre, de modo a convencê-lo que existem coisas na vida que têm realmente importância.

O objeto que cada um terá de colocar na pilha é escolhido por outro elemento do grupo, e o doador será o próximo a escolher o objeto do colega seguinte. Se no início os objetos parecem mais ou menos triviais – um par de sapatos ou uma bicicleta – depressa as escolhas escalam para o macabro e para o imaterial, numa espiral de loucura que o leitor depressa adivinha que não poderá acabar bem.

O livro é curto e lê-se rapidamente, e a verdade é que para passar a mensagem pretendida não seriam precisas muitas mais palavras. Nada gerou controvérsia quando foi originalmente publicado – aliás, foi proibido na Dinamarca, país de origem da autora, durante alguns anos, sendo que atualmente é até recomendado. A polémica advém, quanto a mim, da aparente falta de escrúpulos da parte de jovens que pouco mais são do que adultos, mostrando os limites a que o ser humano pode precocemente chegar por força de comportamentos de grupo.

“Nada” e “significado” são duas palavras repetidas constantemente ao longo deste texto, provocando no leitor reflexões constante sobre a aparente distância entre os dois conceitos. Pierre defende que o significado não existe, porque todos acabamos por morrer e se assim é, para quê nos darmos ao trabalho de fazer o que quer que seja? Porque haveremos de nos esforçar, dia após dia, a trabalhar, a fazer coisas, quando acabaremos por desaparecer e, daqui a muitos anos, ninguém se lembrará de nós ou dará valor ao que fizemos? É tentador admitir a racionalidade dos seus argumentos, apesar de todo o seu pessimismo. Foi por isto que achei a premissa deste livro interessantíssima.

À primeira vista, parece irreal termos um jovem de 12-13 anos a deixar tudo para trás para se sentar numa árvore com todas as respostas para o significado da vida (ou a falta dele!), bem como o seu grupo de amigos praticar atos tão macabros sem que ninguém descubra ou se questione; a partir do momento em que o leitor compreender que se trata de uma grande metáfora, será provavelmente mais fácil aceitar o que está a ler.  Nada contém momentos bastante perturbadores, exacerbados pelo facto de serem praticados por quase crianças, a que costumamos associar a inocência e a bondade. 

O desenvolvimento do livro acabou por não me satisfazer completamente, talvez porque esperasse encontrar respostas que não estavam lá. Nada levanta muitas e interessantes questões, mas quanto a mim deixa o leitor sozinho para procurar as respostas, sem lhe dar quase nenhumas pistas. Foi uma leitura interessante, com vários aspetos positivos a nível das reflexões que suscita, mas quanto a mim deixa a desejar na forma como concretiza as boas ideias que tem.

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.