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Opinião: Fora do Mundo | Michael Finkel

FinkelAutor: Fora do Mundo: A Extraordinária História do Último Eremita
Título Original:
The Stranger in the Woods: The Extraordinary Story of the Last True Hermit (2017)
Editora: Elsinore
Páginas: 208
ISBN: 9789898864109
Tradutor: Paulo Tavares
Origem: Empréstimo

Sinopse: Em 1986, Christopher Knight, de 20 anos, saiu de casa, no Massachusetts, entrou no carro e conduziu até ao Maine, onde desapareceu na floresta, não tendo qualquer contacto com um ser humano até, passados 27 anos, ter sido preso por roubo. Durante esse tempo, apoiado unicamente na sua coragem e astúcia, aprendeu a armazenar e preservar água e alimentos, roubou comida, material de leitura, roupa e outras provisões, nunca levando mais do que o necessário, mas aterrorizando as povoações próximas com a sua misteriosa onda de assaltos. Baseado nas longas e pormenorizadas entrevistas que o autor fez a Christopher, Fora do Mundo é o retrato vívido do como e porquê de uma vida em reclusão, assim como dos desafios que Christopher se viu obrigado a enfrentar com o seu regresso ao mundo. Cinematográfica e surpreendente, é uma história de sobrevivência que nos coloca frente a frente com perguntas fundamentais sobre o que significa ter uma «boa vida», contraponto ao ritmo voraz que o século XXI nos tem imposto. 

Opinião: Em 1986, o jovem de 19 anos Christopher Knight entrou numa das florestas do estado norte-americano do Maine e achou que era um excelente local para ficar. E assim foi, ao longo de 27 anos. Com um misto de habilidade e sorte, Christopher Knight conseguiu, ao longo de quase três décadas, permanecer escondido da civilização que estava apenas a três minutos a pé do local a que chamou lar. O eremita de North Pond, como passou a ser conhecido pela população local que via as suas casas serem constantemente assaltadas por Knight para obtenção de bens alimentícios e de outros que se destinavam a proporcionar-lhe algum conforto (como bilhas de gás ou pilhas), foi finalmente apanhado em 2013 por um guarda florestal que vivia mais ou menos obcecado com esta figura e com a perspetiva de o levar à justiça.

Depois de Knight ser apanhado, foi notícia em vários jornais e foi assim que o jornalista Michael Finkel, autor deste livro, tomou contacto com esta história. A solidão em que Knight viveu durante tanto tempo era algo que Finkel queria descortinar, pois ele próprio encarava o silêncio como fundamental na vida constantemente frenética que se vive nos dias que correm. E foi por isso que entrou em contacto com o eremita e falou com ele por diversas vezes enquanto esteve preso, sendo essas conversas a base fundamental da história que conta neste livro.

O ser humano estranha, naturalmente, modos de vida completamente díspares do seu. Muitos, de imediato, apelidam essas pessoas de loucas ou, na melhor das hipóteses, estranhas; outros, como Michael Finkel, optam pela compreensão e pela tolerância e tentam mostrar que, no final de contas, não há um modo certo de viver. Há, sim, a procura da felicidade e da liberdade, e cada um poderá tentar fazê-lo da forma como achar melhor. É fácil, numa primeira instância, rotular Christopher Knight de ladrão e imoral; afinal de contas, viveu 27 anos a praticar pequenos furtos e a criar insegurança nas pessoas que moravam perto da “sua” floresta. E é importante referir que, em nenhum momento, me pareceu que Finkel pretendesse desculpabilizá-lo ou justificar esses atos. O próprio Knight sabia que o que estava a fazer era errado e esse aspeto do seu isolamento do mundo foi mesmo aquele de que mais se arrependeu. No final de contas, pareceu-me que achou que não tinha alternativa.

Fascina-me a forma como encaramos o mundo, como formamos as nossas opiniões e tudo o que para isso contribui. Gosto de me considerar uma pessoa tolerante e compreensiva, ainda que ache que todos os dias é preciso trabalhar nesse sentido. Gosto cada vez menos de julgar as opções dos outros ou de achar que sei como devem viver as suas próprias vidas. Acho que a nossa felicidade é inversamente proporcional à importância que damos ao que os outros pensam ou dizem sobre nós. A forma como encaro o mundo, hoje, teve o contributo decisivo de muitos dos livros que li até hoje. Ajudaram-me (e continuam a ajudar) a viajar, a conhecer outras pessoas, a pensar sobre este mundo em que vivo. Fora do Mundo foi mais uma das pedras que usei para construir este castelo, em permanente formação, que é a minha vida. Obrigada, Cris, pelo empréstimo.

Classificação: 5/5 – Adorei


Sobre Célia