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Opinião: Amanhece na Cidade | Filipa Fonseca Silva

FonsecaAutor: Filipa Fonseca Silva
Ano de Publicação:
 2017
Editora: Bertrand
Páginas: 176
ISBN: 9789722534369
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Nas ruas de Lisboa, um táxi circula e observa. E, com ele, nós observamos também: Manuel, o taxista que não sabe chorar. Olinda, a ama de duas crianças mal-educadas. Daisy, a stripper. João, o sem-abrigo… Um dia, um momento infeliz, com consequências trágicas, obriga Manuel a confrontar-se consigo próprio, e as consequências serão mais transformadoras do que ele alguma vez imaginou. Manuel parou-me e mandou-a entrar. Olinda não tinha como pagar uma viagem de táxi até à Brandoa. Manuel apagou a luz de serviço e disse-lhe que já não estava a trabalhar. Com o orgulho a ceder à medida que os sapatos ficavam encharcados, Olinda entrou.

Opinião: Amanhece na Cidade foi a minha estreia na obra da autora Filipa Fonseca Silva, que ficou conhecida por ter sida a primeira portuguesa a alcançar o Top 10 da Amazon, com o livro Os 30 – Nada é como Sonhámos. Neste seu mais recente romance, a narrativa na primeira pessoa é assumida por um táxi que circula em Lisboa, dando ao leitor uma perspetiva diferente sobre as vidas da gente da cidade e sobre o ritmo por vezes alucinante em que vivem.

A personagem principal, para além do táxi, é o seu condutor – Manuel, um homem na casa dos 50 anos, que vive algo amargurado com a vida e que divide as suas atenções entre uma stripper que conduz a casa todos os dias e a segunda mulher, no pouco tempo que passam juntos. O olhar do táxi sobre a vida de Manuel e das pessoas que se vão cruzando na sua vida é curioso, bem-humorado e perspicaz. Este foi, quanto a mim, o aspeto mais bem conseguido do livro. A proximidade do táxi das várias personagens que vão aparecendo na história permite conhecê-las com alguma profundidade, através de diálogos que decorrem dentro dele ou de simples mensagens que o táxi deteta nos telemóveis dos seus passageiros. Para mim, o táxi pode ser também visto como o elemento simbólico, o da mudança, consubstanciado na sua função de transportar pessoas.

E, na realidade, a mudança é um dos temas importantes deste livro. Vemos um homem agarrado a convicções que sempre teve como certas, mas que, a determinada altura, começa a questionar. Uma mulher que deixou o seu país e filhos há 3 anos, mas que começa a perceber que se calhar essa não foi a melhor opção. Outra mulher que escolheu a vida de stripper para poder dar uma vida confortável ao filho, mas quando a vida traz algumas pessoas para a sua vida, as prioridades são postas em causa.

Num estilo bastante acessível, Filipa Fonseca Silva vai mostrando, através dos olhos do táxi, como estas vidas se vão entrecruzando no meio citadino. Várias das observações do táxi versam sobre a vida apressada e a constante falta de tempo que parecem apanágio das pessoas que vivem na cidade, o que à primeira vista me parece acertado ainda que apresente a realidade de uma forma algo simplificada. Tenho estado a tentar perceber exatamente o que é que me pareceu faltar neste livro e, provavelmente foi isso mesmo: mais alguma densidade narrativa e profundidade psicológica nas personagens teriam sido bem-vindas. A abordagem é original e o tema e contexto interessantes, mas a sensação com que fico é que a forma como a mensagem passa podia ter sido melhor trabalhada, nomeadamente através das personagens e das suas ações.

Em resumo, foi uma leitura agradável, que me entreteve e que, apesar de não me ter cativado completamente, me deixou curiosidade por conhecer futuros trabalhos desta autora portuguesa.

Classificação: 3/5 – Gostei 


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