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Opinião: O Homem que Duvidava | Ethan Canin

Autor: Ethan Canin
Título Original:
A Doubter’s Almanac (2016)
Editora: Minotauro
Páginas: 522
ISBN: 9789899978539
Tradutor: Inês Fraga
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Neste fascinante romance, Ethan Canin, autor bestseller do New York Times, explora a natureza do génio, a rivalidade, a ambição e o amor ao longo de diversas gerações de uma família talentosa.

Milo Andret é dotado de uma mente extraordinária. Criança solitária entre as florestas do Michigan nos anos 1950, pouco valoriza o seu próprio talento. Contudo, após ingressar na Universidade de Berkeley, logo se apercebe da extensão, e dos riscos, do seu dom tão singular. A Califórnia dos anos 1970, abre-se-lhe num jogo sedutor, desvelando a Milo o encanto da ambição, mas também da indulgência. A investigação que lá inicia elevá-lo-á à categoria de lenda; a mulher que lá conhece (assim como o seu arquirrival) atormentá-lo-á para o resto da vida. De facto, a verdade é que o brilhantismo de Milo se encontra finamente entrançado com um desejo obscuro que em breve ameaçará o seu trabalho, a sua família e até a sua própria vida.

Abarcando sete décadas, da Califórnia a Princeton, do Midwest a Nova Iorque, O Homem que Duvidava narra o percurso de uma família, revelando que a ambição caminha de mãos dadas com a destrutividade, a obsessão namora com o tormento, o amor encanta- se com a dor. É a história de como a luz da genialidade ilumina e queima cada geração que toca.

Dotado de uma prosa fascinante, O Homem que Duvidava revela- se uma obra surpreendente, cheia de suspense e profundamente comovente. Um trabalho maior de um escritor que foi aclamado como «o mais maduro e realizado romancista da sua geração». Imperdível.

Opinião: Tenho um fraquinho por histórias sobre inadaptados. Há alguma coisa que me fascina na história de pessoas que fogem à “normalidade”, que lutam diariamente pelo seu lugar no mundo e para quem as coisas aparentemente mais simples por vezes parecem as mais complicadas. Será porque vejo nelas também um pouco de mim? Talvez. No centro da história de O Homem que Duvidava está alguém assim: Milo Andret é um matemático brilhante que parece falhar em toda a linha nos restantes aspetos da sua vida, em especial no que respeita à relação com a sua família e restante sociedade.

Relatada ao leitor na primeira pessoa, acompanhamos a vida de Milo desde a sua infância, que passou perto da natureza e onde começou a dar mostras do seu génio, até à idade adulta, quando começou a lecionar e a trabalhar em demonstrações matemáticas que lhe viriam a dar fama mundial. Contudo, a perseguição incessante de criar algo mais, de revolucionar e de pôr a sua brilhante mente a funcionar em prol do desenvolvimento matemático, acaba por influenciar decisivamente (e pela negativa) a sua relação com a mulher e os filhos, e isso torna-se ainda mais notório quando a ponto de vista da narrativa passa de Milo para o seu filho Hans.

A existência de dois pontos de vista ao longo do livro é, a meu ver, um artifício narrativo que funciona muito bem no sentido de proporcionar ao leitor o contacto direto com Milo, dando-lhe posteriormente a perspetiva de alguém de fora, próximo, e diretamente afetado pelas ações (ou falta delas) de Milo. Acompanhamos também o crescimento de Hans e a forma como encara viver, de certo modo, à sombra do pai. Matematicamente muito dotado também, Hans cedo percebe que o mais provável é que a sua habilidade para esta ciência seja de um cariz diferente da do seu pai e, após um período de luta contra as drogas, parece conseguir alcançar um certo nível de felicidade com a vida e a família que tem.

Sendo um livro tão centrado numa personagem em particular – Milo -, penso que a medida em que o leitor aceita as suas ações como fundamentais para a construção da sua personalidade é reveladora do grau de ligação emocional que conseguirá sentir com este livro. Pessoalmente, Milo não conseguiu gerar em mim qualquer tipo de sentimentos extremos, fosse amor ou ódio, para além de ter tido alguma dificuldade em aceitar vários dos seus atos; isso foi mesmo o meu principal problema ao longo da leitura. 

O Homem que Duvidava é uma saga familiar multigeracional que aborda, de um modo geral, as diferentes formas que a busca pela felicidade pode assumir. Sem ter conseguido cativar-me em absoluto a um nível mais visceral, foi um livro que gostei de ler não só pela escrita bem conseguida como também pelas reflexões que me proporcionou no que respeita a aspectos como a busca da felicidade, a relevância e as várias formas do amor. 

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia