Home / 4/5 / Opinião: A Serpente do Essex | Sarah Perry

Opinião: A Serpente do Essex | Sarah Perry

PerryAutor: Sarah Perry
Título Original:
 The Essex Serpent (2016)
Editora: Minotauro
Páginas: 404
ISBN: 9789896761776
Tradutor: Helena Ramos e Dila Gaspar/João Quina Edições
Origem: Recebido para crítica
Comprar aqui (link afiliado)

Sinopse: Londres, 1893. Quando o marido de Cora Seaborne morre, a viúva inicia uma nova vida marcada ao mesmo tempo por alívio e tristeza. Não teve um casamento feliz e ela própria nunca se adequou ao papel de mulher da sociedade. Acompanhada pelo filho, Francis – um rapaz curioso e obsessivo –, troca a cidade pelo campo de Essex, onde espera que o ar fresco e os grandes espaços lhe proporcionem o refúgio de que necessita. Quando se instalam em Colchester, chegam-lhe aos ouvidos rumores de que a Serpente do Essex, conhecida por em tempos ter percorrido os pântanos na sua avidez de colher vidas humanas, regressou à aldeia de Aldwinter. Cora, naturalista amadora sem interesse por superstições ou questões religiosas, fica empolgada com a ideia de que aquilo que as pessoas da região tomam por uma criatura sobrenatural possa, na realidade, ser uma espécie ainda por descobrir. Quando decide iniciar a sua investigação é apresentada ao reverendo de Aldwinter, William Ransome. Tal como Cora, Will sente uma desconfiança profunda em relação aos boatos, que considera um fenómeno de terror de caráter moral e um desvio da verdadeira fé. Enquanto Will procura tranquilizar os paroquianos, inicia-se entre ele e Cora uma relação intensa; apesar de os dois não concordarem a respeito de nada, são atraídos e afastados um do outro inexoravelmente, a ponto de isso modificar a vida de ambos de formas inesperadas. Escrito com uma delicadeza e uma inteligência cheias de requinte, este romance é sobretudo uma celebração do amor e das muitas formas que ele pode assumir. 

Opinião: A primeira vez que A Serpente do Essex chamou a minha atenção foi no final do ano passado, quando venceu o Prémio dos Leitores da livraria inglesa Waterstones. Foi este prémio que trouxe para a ribalta o então esquecido Stoner (que é um dos livros da minha vida), por isso naturalmente estou sempre curiosa para saber quem é o vencedor anual. A recém-criada Minotauro, chancela recuperada pelo Grupo Almedina para a ficção, convidou-me para ler o seu primeiro lançamento, que é também o segundo e mais famoso livro da escritora inglesa Sarah Perry.

Em 1893, Cora Seaborne vê-se subitamente no papel de viúva, mas a verdade é que o falecimento do marido permite a libertação das amarras de um casamento infeliz e redutor, que impediu Cora – uma mulher certamente à frente do seu tempo – de ser independente e dona da sua vontade, bem como de explorar o seu interesse pela paleontologia. Um terramoto que atinge a zona do Essex provoca algumas derrocadas e abre a possibilidade de novas descobertas, pelo que Cora, juntamente com a sua dama de companhia, se dirige a uma zona mais campestre com o intuito de explorar e, quiçá, de colocar o seu nome ao lado dos grandes paleontólogos. 

Através de amigos comuns, Cora vai parar à pequena localidade de Aldwinter, onde trava conhecimento com o Reverendo William Ransome e sua família. Apesar da sua devoção cristã, William é um homem tolerante e que se sente mais desafiado que nunca pelas ideias que Cora traz consigo. Na minha opinião, a relação que se desenvolve entre estas as personagens e os diálogos interessantíssimos que travam são o ponto alto deste livro. Com eles os dois, as coisas nunca são a preto a branco: a fé de William vai sendo lentamente desafiada pela mente científica de Cora, enquanto que os estranhos acontecimentos que vão ocorrendo em Aldwinter – e que os seus habitantes acreditam dever-se à presença de uma serpente gigante nas águas do rio Blackwater – fazem Cora refletir sobre a existência de coisas que não têm e não precisam de explicação.

Mas A Serpente do Essex aborda outros temas para além da dicotomia fé-razão, sendo o socialismo o mais evidente. No final do séc. XIX, as condições em que as pessoas mais pobres viviam na periferia de Londres movem os interesses da companheira de Cora, Martha, que faz todos os esforços possíveis – nomeadamente junto de homens ricos e influentes que se cruzam no seu caminho – para que olhem para aquelas pessoas e percebam que podem fazer algo para lhes dar uma vida melhor. A consciência social é um tema que, sem dúvida, continua bastante atual.

À medida que o enredo avança, o mistério que rodeia a serpente vai-se tornando relativamente secundário – ainda que continue a despertar interesse no leitor. Valendo-se de uma escrita bela e evocativa da época que descreve, Sarah Perry tece uma teia de relações entre as suas personagens que cativa pela sua densidade e intensidade, em especial no que respeita a Cora e Will. Tal como as questões da fé e da razão que já referi, também a relação entre eles não é a preto e branco, mas antes feita de várias camadas onde amor e amizade se entrelaçam. Penso que a autora quis deixar a cargo do leitor a tarefa de definir o que os liga – se é que a ligação de ambos é passível de ser definida.

No final de contas, fica a sensação de um livro que se destaca pelo seu ambiente peculiar, pelas personagens bem desenvolvidas e pela escrita cativante e que se eleva bastante para além do normal. Recomendo!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.