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Opinião: Vamos Comprar um Poeta | Afonso Cruz

CruzAutor: Afonso Cruz
Ano de Publicação:
 2016
Editora: Caminho
Páginas: 101
ISBN: 9789725649527
Origem: Comprado
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Sinopse: Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

Opinião: Não seria necessário ler o posfácio deste pequeno livro para perceber que Afonso Cruz quis aqui fazer um exercício de crítica à excessiva importância que se dá atualmente às questões económicas e financeiras, na grande maioria das vezes em detrimento do bem-estar das pessoas comuns, bem como à constante ostracização de que Cultura tem sido alvo. A crítica subjacente é óbvia logo desde o início desta narrativa, que decorre num cenário com alguns elementos distópicos, em que as pessoas ao invés de nomes são designadas por números e onde tudo parece poder ser quantificado – inclusivé a percentagem de amor que se sente relativamente a outrém.

Este pequeno romance é-nos narrado na primeira pessoa por uma criança/jovem inserida numa família que vive rodeada de números e onde expressões como “contenção orçamental” ou “desvio colossal”, que tanto destaque ganharam nos últimos anos de crise económica em Portugal, marcam presença constante. A determinada altura, esta família decide adquirir um poeta, como quem adquire um animal de estimação. A presença do poeta no seio daquela família funciona como elemento disruptivo da ordem presente, quando começa a utilizar metáforas – cujo significado a narradora inicialmente não compreende – e poesia.

Sem metáforas, por exemplo, não é muito interessante falar. Eu posso dizer que uma janela é uma janela, mas isso já toda a gente sabe. Com a poesia posso dizer que uma janela é um bocado de mar ou uma cotovia a voar.
Mentiras.
Por vezes são as únicas verdades.

A mensagem não é propriamente nova, mas é importante e necessária. Afonso Cruz vale-se da sua capacidade de criação de belas metáforas e alegorias para transmiti-la e fá-lo de uma forma competente, ainda que, na minha opinião, não extremamente original ou refrescante. Contudo, tem sido sempre um prazer ler Afonso Cruz e este Vamos Comprar um Poeta não foi exceção.

A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.