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Opinião: Sete Anos Bons | Etgar Keret

EtgarAutor: Etgar Keret
Título Original:
 Sheva Ha-Shanim Ha-Tovot (2013)
Editora: Sextante
Páginas: 184
ISBN: 9789896761776
Tradutor: Lúcia Liba Mucznik
Origem: Empréstimo

Sinopse: Se um rocket pode cair sobre nós a qualquer momento, que importância tem despejar o lixo? E os pássaros do jogo «Angry Birds», lançados raivosamente contra pobres porquinhos, não lembram terroristas? Com particular ironia, Etgar Keret relata neste livro histórias de sete anos da sua vida: o nascimento do filho, a terrível história da sua irmã ultraortodoxa e dos seus onze filhos, a trajetória dos seus pais sobreviventes do Holocausto, encontros com taxistas stressados, viagens de avião, noitadas literárias agitadas, ameaças de bombas, a morte do pai. Um livro extraordinário sobre a vida de hoje em Israel e no mundo, onde o humor e a emoção se combinam com uma boa dose de absurdo. 

Opinião: Etgar Keret, um dos mais populares escritores israelitas da atualidade, esteve em Lisboa no passado mês de novembro, para apresentar aquele que foi o seu primeiro livro traduzido em Portugal. Antes disso, nunca antes ouvira falar dele e, por ter ouvido boas opiniões sobre Sete Anos Bons na Roda dos Livros, achei que seria interessante expandir um pouco as minhas leituras para além dos autores anglo-saxónicos.

Sete Anos Bons traz-nos um conjunto de crónicas escritas por Etgar Keret ao longo de sete anos da sua vida, iniciando-se os seus relatos no dia em que o seu filho nasceu, num hospital repleto de feridos de um atentado terrorista. Desde esta primeira crónica percebemos que o autor se propõe mostrar-nos, sem nunca querer atenuar a gravidade da situação que o seu país vive, como as pessoas comuns continuam a prosseguir a sua vida e a tentar dar aos seus filhos janelas para a normalidade.

Etgar Keret consegue um registo que combina, de forma muito particular, ironia, mordacidade, ternura e lucidez, num conjunto de textos que tratam dos temas mais comuns, como chamadas de telemarketing, aos mais pesados, que incluem a doença e a morte do seu pai. Para além das questões mais pessoais, o autor aborda também o anti-semitismo e o conflito com a Palestina que, por serem realidades tão distantes, normalmente me passam ao lado. Sei que falam frequentemente destes temas nos telejornais, mas a verdade é que acabamos por colocar estes acontecimentos num plano secundário por não ser algo que nos afete diretamente. Neste aspeto, foi bom ler um israelita a escrever sobre a sua realidade e dia-a-dia de um modo tão original, transmitindo aos seus leitores as dificuldades que a sua nacionalidade acarreta.

Em suma, Sete Anos Bons é um livro muito interessante, que chama a atenção do leitor para uma realidade muito provavelmente distante da sua, num tom espirituoso e bem humorado que ajuda, de certo modo, a atenuar a dureza dos cenários em que o autor vive sem, contudo, nunca os esconder. Aguardo com muita curiosidade pela próxima publicação do autor em português, O motorista de autocarro que queria ser Deus.

Quando tento reconstruir aquelas histórias que o meu pai me contou há anos, dou-me conta de que, para além dos seus enredos fascinantes, elas destinavam-se a ensinar-me alguma coisa. Alguma coisa sobre a necessidade humana quase desesperada de encontrar algo de bom nos lugares mais improváveis. Alguma coisa sobre o desejo, não de embelezar a realidade, mas de nunca renunciar a procurar um ângulo capaz de colocar a fealdade sob uma luz melhor e de criar afeição e empatia por cada ruga e verruga do seu rosto marcado.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia