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Opinião: Anna e o Homem Andorinha | Gavriel Savit

SavitAutor: Gavriel Savit
Título Original:
 Anna and the Swallow Man (2016)
Editora: Suma de Letras
Páginas: 224
ISBN: 9789896651909
Tradutor: Ester Cortegano
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Uma história sobre a perda da inocência perante a tragédia. Cracóvia, 1939. Um milhão de soldados marcham e mil cães ladram. Este não é um lugar para crescer. Anna tem apenas sete anos no dia em que o alemães levaram o seu pai, professor de Linguística, durante a purga de intelectuais na Polónia. Está sozinha quando encontra o Homem-Andorinha, um astuto trapaceiro, alto e estranho, com mais de um ás na manga; um impostor que consegue até que os soldados com quem se cruza só vejam aquilo que ele quer que vejam. O Homem-Andorinha não é o pai de Anna – ela sabe-o bem -, mas também sabe que, como o seu pai, está em perigo e, também como o seu pai, tem o dom das línguas: fala russo, polaco, alemão iídiche e a linguagem dos pássaros. Quando o misterioso indivíduo consegue que uma bela andorinha lhe pouse na mão para que Anna deixe de chorar, a menina fica encantada. E decide segui-lo até onde ele for. Ao longo da viagem, Anna e o Homem-Andorinha escaparão a bombas e a soldados e também farão amigos. Mas, num mundo louco, tudo pode ser um perigo. Também o Homem-Andorinha.  

Opinião: Quando a Segunda Guerra Mundial já foi palco de tantas histórias na ficção, o maior desafio para um autor que deseja utilizá-la como pano de fundo é, sem dúvida, ser original. Gavriel Savit estreou-se na ficção precisamente com este Anna e o Homem Andorinha, a história de uma menina judia de 7 anos que se vê subitamente sem pai, quando a Polónia, o seu país de origem, é invadida no início do conflito e os judeus começam a ser perseguidos. Anna é “adotada” pelo Homem Andorinha e ambos fogem de Cracóvia, vagueando nos anos seguintes por florestas e locais recônditos, tentando escapar a olhares indiscretos.

O percurso destas duas personagens é-nos narrado do ponto de vista de Anna e, por esse motivo, as conversas com o Homem Andorinha, as suas viagens e as vicissitudes que vão encontrando pelo caminho são sempre mostradas ao leitor de uma perspetiva pueril e inocente. As ilações sobre os aspetos adultos da história ficam a cargo do leitor, um pouco à semelhança do que acontece com Por Favor, não Matem a Cotovia, de Harper Lee.

O Homem Andorinha é uma incógnita para Anna desde o início e, ainda que os dois se venham a conhecer em maior profundidade com o passar do tempo, ele nunca deixa de ser uma figura que Anna desconfia possuir muito mais camadas do que aquelas que lhe mostra. Aquele homem alto, magro e desengonçado é o porto seguro de Anna, que a protege e ampara, ensinando-a a sobreviver num mundo hostil e, na sua aparente contenção, dando-lhe o suporte emocional possível no contexto complicado em que se encontram.

Gavriel Savit tem uma escrita envolvente e repleta de sensibilidade, que se adequa em pleno a esta história. No meio dos perigos que rodeiam as personagens, ressalta nas suas palavras a beleza das pequenas coisas e o valor da amizade e do amor que se conseguem encontrar mesmo quando as condições são as mais adversas. O mundo visto pelos olhos de uma criança será sempre melhor do que a realidade, e Gavriel Savit consegue transmitir muito bem esta ideia ao leitor.

E regresso assim ao desafio que referi no início deste texto. Acho que Gavriel Savit conseguiu criar um livro especial, que pecará apenas pelo final que parece não estar à altura do resto da história. De resto, gostei muito e aguardarei por novas publicações deste autor.

Homens que tentam compreender o mundo sem a ajuda de crianças são como homens que tentam fazer pão sem a ajuda de fermento.

A desilusão, mesmo que pesada, é algo que enfiamos numa mala com suficiente facilidade – tem arestas vivas e cantos arredondados e cabe sempre no último espaço que resta. Com a esperança passa-se algo muito semelhante. Todavia, de algum modo, a mistura das duas é qualquer coisa muito menos uniforme – incómoda, mais volumosa e não menos pesada. É demasiado delicada para se enfiar numa mala e virar as costas. Tem de ser levada em mãos.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.