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Opinião: KL – A História dos Campos de Concentração Nazis | Nikolaus Wachsmann

Nikolaus WachsmannAutor: Nikolaus Wachsmann
Título Original:
 KL (2015)
Editora: Dom Quixote
Páginas: 853
ISBN: 9789722057998
Tradutor: Miguel Mata
Origem: Comprado
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Sinopse: KL, Konzentrationslager, designa o sistema dos campos de concentração nazis. É também o título da primeira história geral desta realidade trágica que importa conhecer.
Nesta notável obra de referência histórica, Nikolaus Wachsmann oferece o primeiro relato, sem precedentes, dos campos de concentração nazis, desde a sua concepção, em 1933, até ao seu encerramento, na primavera de 1945.
O Terceiro Reich é o período mais estudado da História, e no entanto faltava até agora escrever uma história geral do amplo sistema de campos de concentração, bem como das experiências quotidianas dos seus habitantes – perpetradores, vítimas, e todos aqueles que viviam naquela área que Primo Levi designou como «zona cinzenta». Com KL – Uma História dos Campos de Concentração Nazis Wachsmann preenche esta lacuna evidente no nosso entendimento do passado. Ele não sintetiza apenas o trabalho académico de uma geração, uma parte importante do qual desconhecida até agora fora da Alemanha, como também faz revelações surpreendentes, baseadas em muitos anos de pesquisa arquivística, sobre o funcionamento e a extensão do sistema de campos. Ao examinar, em detalhe, a vida e a morte dentro dos campos, e ao adoptar uma abordagem mais panorâmica para mostrar que o sistema era moldado pela evolução das várias forças políticas, legais, sociais, económicas e militares, Wachsmann produz uma imagem unificada do regime nazi e dos seus campos de concentração nunca antes vista.

Opinião: Há coisas que não deveriam nunca cair no esquecimento. Primo Levi, escritor italiano que dedicou grande parte do sua obra à divulgação dos horrores que viveu no campo de concentração de Auschwitz, fez sempre questão de alertar para o perigo de tudo o que se passou nos campos de concentração acabar por ser esquecido e que a humanidade nada aprendesse com o potencial terrível do ser humano. Primo Levi é um dos vários sobreviventes citados em KL –  A História dos Campos de Concentração Nazis, um trabalho de pesquisa e documentação notável levado a cabo pelo alemão Nikolaus Wachsmann, atualmente professor de História Europeia Moderna em Londres.

Ao longo de mais de 600 páginas (uma boa parte do livro consiste em notas, referências e bibliografia), Nikolaus Wachsmann propõe-se a contar a história dos primórdios dos campos de concentração, ainda nos primeiros anos da década de 1930, percorrendo todas as alterações de conceito e objetivos da criação destes campos e, fundamentalmente, destacando a sua natureza dinâmica, ao longo do tempo, bem como a vida do dia-a-dia nos campos. Como afirma o autor, faltaria um “estudo que capte a complexidade dos campos sem fragmentar e que os coloque no seu contexto político e cultural mais lato sem se tornar redutor“, e essa foi a principal motivação para o seu trabalho.

A história dos KL – ou Konzentrationslager – é aqui contada de forma cronológica, dando ao seu leitor perspetivas sobre a ligação que esta teve com os desenvolvimentos políticos, económicos e militares, desde a sua génese até ao seu final. Na verdade, a população inicial dos campos era, em grande parte, composta por alemães com visões de esquerda, e por pessoas que não se integravam nas normas sociais que o nazismo determinava serem normais, ou seja, os marginais. Nikolaus Wachsmann refere que “estes homens oriundos das franjas da sociedade constituíram o maior grupo de vítimas dos KL no período imediatamente anterior à guerra“. Outro aspeto que o autor destaca é que os campos “nos finais dos anos 30 não foram matadouros em larga escala. As condições de vida não eram letais para a maioria dos reclusos e o extermínio em massa sistemático ainda não estava na agenda da SS“, constatação que sinceramente me surpreendeu.

O que também me surpreendeu foi perceber que no início da Guerra havia apenas cerca de 1.500 judeus nos campos, tendo em conta que residiam cerca de 300.000 no território do Terceiro Reich. O anti-semitismo, na génese do conceito de nazismo, assumiu toda uma nova dimensão com o começo da Guerra e em 1941 as condições letais já existentes nos campos transformaram-se no extermínio em massa que assumiu proporções assustadoras no final da Guerra e que deu corpo ao Holocausto.

KL –  A História dos Campos de Concentração Nazis não é um murro no estômago, são vários; por isso o li ao longo de vários meses. O que mais gostei, para além da óbvia aprendizagem acerca de um tema que me fascina, foi a forma desapaixonada e factual que Nikolaus Waschmann utiliza, juntamente com a extensa fundamentação dos factos apresentados, contribuindo os dois fatores de forma decisiva para a credibilidade deste livro. Ainda que a narrativa se suporte bastante em histórias reais e casos concretos, que facilmente mexem com o leitor, o estilo cativante e direto do autor tornam esta leitura extensa um pouco mais fácil de suportar.

No final do livro, Waschmann afirma que “continuará […] a nossa demanda de um significado mais profundo dos KL, embora os esforços para extrair uma essência única estejam condenados ao fracasso“; eu diria que KL –  A História dos Campos de Concentração Nazis é uma peça importantíssima neste gigantesco puzzle que é a compreensão do que foram os campos de concentração.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.