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Opinião: As Primeiras Quinze Vidas de Harry August | Claire North

Primeiras Quinze VidasAutor: Claire North
Título Original:
 The First Fifteen Lives of Harry August (2014)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 405
ISBN: 9789896376673
Tradutor: Casimiro da Piedade
Origem: Recebido para crítica
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Sinopse: Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?
A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.
Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

Opinião: O tempo é uma das variáveis da condição humana que mais fascínio exerce sobre nós, comuns dos mortais. Acho que isto acontece porque, depois de tantos avanços tecnológicos e científicos, permanece como condição inalterável, prosseguindo o seu decorrer sem que possamos fazer absolutamente nada em relação a isso. E, portanto, pela sua impossibilidade, a manipulação do tempo continua a constituir um manancial de hipóteses para os escritores de ficção – tendo adquirido popularidade com A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, publicado em 1895. Desde então, inúmeros livros têm explorado esta componente, tornando-se um tema relativamente comum dentro da ficção científica.

Em As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, Claire North explora a possibilidade de um homem regressar à vida depois da morte, nascendo precisamente no mesmo dia e vivendo a mesma vida que tinha experienciado anteriormente, mas com todo o conhecimento previamente adquirido. Harry August nasce sempre em 1919, em Inglaterra, filho bastardo de um nobre, e é criado por pais adotivos de origem humilde. Ao longo das suas vidas, que vai partilhando connosco na primeira pessoa, Harry faz muitas coisas e tem variadas profissões, aprendendo sempre mais sobre a humanidade e a estrondosa evolução da ciência e tecnologia no século XX.

Mas Harry não compreende porque motivo morre e volta a viver a mesma vida, e se haverá mais como ele nesta espécie de multiverso. E é então que descobre o ultra-secreto Clube Cronus, composto por pessoas com as mesmas “capacidades” que Harry – os kalachakras ou ouroborianos – , e as suas rígidas regras de não interferência com os eventos importantes da História. Só que, logo no início do livro, Harry é visitado no seu leito de morte, numa das suas primeiras vidas, por uma menina que traz uma mensagem do futuro – a de que o mundo está a acabar – e Harry percebe que alguém da sua espécie não está a cumprir os regras do Clube.

Adorei desde logo a premissa deste livro, pelo leque de possibilidades que abre: o poder voltar a aproveitar oportunidades perdidas, o dizer coisas que ficaram por dizer ou o rever pessoas que perdemos são hipóteses exploradas neste livro e que ressoaram em particular com a minha experiência pessoal. A forma como Claire North conta a história e aborda este temas, dentro de uma lógica de narrativa não linear, adequam-se particularmente ao relato na primeira pessoa confessional (cedo percebemos que Harry está a contar aquela história a alguém, cuja identidade só é revelada no final).

Na minha opinião, Claire North foi particularmente bem sucedida na verosimilhança do mundo ficcional que criou, cujo funcionamento é amiúde explicado de forma percetível para leigos na matéria; a forma desenvolta como a autora cria as bases para esta realidade sem recorrer a linguagem demasiado científica é um grande bónus.

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, nas livrarias a partir de hoje, é um livro desafiante, inteligente e bem escrito, que cativa pelas possibilidades que levanta e pela forma como são exploradas. Recomendo!

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.