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[Opinião] Porque Escolhi Viver, de Yeonmi Park

27320109Autor: Yeonmi Park
Título Original:
In Order to Live: A North Korean Girl’s Journey to Freedom (2015)
Editora: Objetiva
Páginas: 320
ISBN: 9789896650049
Tradutor: Ester Cortegano
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: A história real de uma norte-coreana que fugiu para conseguir viver. Cresceu a pensar que era normal ver cadáveres na rua a caminho da escola. Que era normal comer plantas selvagens para calar o estômago. Que era normal ver os vizinhos “desaparecer”. Aos 13 anos, quando a fome e a prisão do pai tornaram o futuro impossível, Yeonmi e a família tomaram a decisão arriscada de fugir. Arriscaram morrer porque escolheram ser livres. Porque escolheram viver.

Opinião: Os livros têm o poder de permitir que viajemos a lugares distantes e que vivamos experiências que não viveríamos de outro modo. Foi por isso que recentemente fiz uma viagem à Coreia do Norte e vivi uma vida o mais distante possível da minha a todos os níveis. Porque Escolhi Viver é o relato de uma jovem norte-coreana de apenas 22 anos, jovem apenas na idade por ter nascido num país que não a deixou ser criança e crescer com liberdade para pensar e questionar.

Yeonmi Park mostra ao leitor, sem paninhos quentes, o que é viver na Coreia do Norte, país que vive em ditadura há mais de 60 anos. Enquanto narra o seu percurso pessoal e da sua família, onde a fome foi sempre algo que a acompanhou, Yeonmi vai explicando ao leitor como funciona a sociedade na Coreia do Norte: de como as pessoas se incluem em grupos sociais que determinam a quantidade de comida e as oportunidades laborais a que se tem acesso (os songbuns, definidos com base na lealdade do sujeito e da sua família para com o regime e também no passado da família), de como o endeusamento da família Kim começa logo desde a infância e de toda a miséria que grassa pelo país, a todos os níveis.

Aos 13 anos, Yeonmi foge da Coreia com a mãe, atrás da sua irmã mais velha, que tinha passado pela fronteira com a China em busca de uma vida melhor. Mas a realidade é que perto da fronteira florescia um negócio de tráfico humano, em que as jovens e mulheres eram vendidas, por pessoas que as ajudavam a fugir, a chineses à procura de mulher ou, fundamentalmente, de uma escrava. A secção que trata da estadia de Yeonmi e da mãe na China impressiona particularmente pelos níveis de degradação a que o ser humano desce e se sujeita pela sobrevivência.

Yeonmi consegue fugir – ou não estaríamos a ler o seu relato. Mas a fuga é feita de medos, incertezas e felizmente para ela, da chegada à Coreia do Sul e do descobrir de um novo mundo e de novas oportunidades que sempre lhe foram negados. Conseguiu, com muito esforço, recuperar os anos de estudo perdidos e entrar na faculdade. Uma coisa levou a outra e Yeonmi é atualmente ativista na luta pelos direitos dos refugiados norte-coreanos.

Custa a crer que ainda exista este nível de miséria da condição humana no nosso mundo; hoje em dia, com a evolução da Humanidade, é totalmente inaceitável. Por isso, é importante que estas pessoas continuem a falar, a contar as suas experiências e a dar ao mundo uma ideia do que se vai passando na isolada Coreia do Norte. Pessoalmente, considero este livro um importante testemunho da (por vezes infeliz) diversidade cultural que se vive neste mundo. Recomendo.

Ao longo do meu percurso, vi os horrores que os humanos podem infligir uns aos outros, mas testemunhei também actos de ternura, bondade e sacrifício nas piores circunstâncias imagináveis. Sei que é possível perder parte da nossa humanidade na luta pela sobrevivência. Mas também sei que a chama da dignidade humana nunca se extingue por completo e que, se lhe dermos o oxigénio da liberdade e o poder do amor, ela pode voltar a crescer.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.