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[Opinião] Descobri que Estava Morto, de J.P. Cuenca

27279228Autor: J.P. Cuenca
Ano de Publicação:
2015
Editora: Caminho
Páginas: 224
ISBN: 9789722127721
Origem: Comprado

Sinopse: Descobri que Estava Morto é um romance sobre a morte, «real», do autor. Ou melhor, sobre a famosa questão da “morte do autor” no sentido real e no literário.

A ação passa-se num atualíssimo Rio de Janeiro pré-olimpíadas 2016; onde a «expulsão» e a «pacificação» dos favelados e outros excluídos da sociedade carioca «deixa permanecer» uma corrupta e endinheirada classe média e alta que tanto sai beneficiada como se «perde» na turbulência da cidade.

Opinião: Falei-vos aqui da minha iminente estreia na Comunidade de Leitores Leya em Grupo. Infelizmente, a sessão de dezembro acabou por não se realizar devido à impossibilidade do autor em comparecer, mas nessa altura já tinha o livro e estava a lê-lo e, por isso, não havia motivo para interromper a leitura. João Paulo Cuenca não era um desconhecido para mim: há coisa de dois anos, tive a oportunidade de ler Nada Tenho de Meu, um livro que é parte integrante de uma experiência bastante interessante, em que 11 pequenos episódios acompanham o livro. Por ter gostado, havia alguma expectativa em ler algo do autor em formato romance.

Descobri que Estava Morto tem uma premissa original: J.P. Cuenca, o escritor e também personagem principal do livro, descobre por acaso que existem documentos que provam a sua morte. A expectativa que é criada no leitor, a partir daí, é que o livro gire em torno da investigação deste estranho caso, mas o que encontramos é bastante diferente. Este livro não é um policial nem um thriller, é antes uma (por vezes estranha) viagem pelo significado do eu e da vida, num exercício marcado pela constante falta de limites entre realidade e ficção.

Gostei especialmente do início e do fim do livro. Pelo meio, o autor investiga as suas mortes: a literal e, com muito mais profundidade, a figurada. A espiral de destruição, a alienação e a perda dos sentidos – especialmente o sentido da existência – são a pedra de toque da narrativa e a ligação entre as duas mortes o final bem conseguido. Mas entretanto, passei por várias secções do livro que não me despertaram o mínimo interesse e que considero pouco terem contribuído para enriquecê-lo.

No final de contas, foi um livro que me deixou com sentimentos contraditórios: se, por um lado, gostei da premissa, do final e da escrita do autor, por outro o interesse que o livro me suscitou foi muito volátil, não permitindo que esta leitura se tornasse marcante. Ainda assim, ficam bons sinais para futuras experiências com outros livros do autor.

É raro entendermos como são frágeis os laços que nos ligam a nossa rotina, círculo social, relações de família e trabalho. Como a nossa vida pode subitamente transformar-se no quarto vazio e iluminado onde o morto deixa para trás os sapatos ao lado da cama. Preferimos manter a crença irracional de que o desenrolar dos fatos nos levará inevitavelmente para casa, como se fôssemos moscas num pote de vidro. Mas às vezes algo acontece.

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.