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[Opinião] Fala-me de um Dia Perfeito, de Jennifer Niven

26837000Autor: Jennifer Niven
Ano de Publicação:
 2015
Editora: Nuvem de Tinta
Páginas: 360
ISBN: 9789898775788
Tradutor: Isabel Veríssimo
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Violet Markey vive para o futuro e conta os dias que faltam para acabar a escola e poder fugir da cidade onde mora e da dor que a consome pela morte da irmã. Theodore Finch é o rapaz estranho da escola, obcecado com a própria morte, em sofrimento com uma depressão profunda. Uma lição de vida comovente sobre uma rapariga que aprende a viver graças a um rapaz que quer morrer. Uma história de amor redentora.

Opinião: Se me acompanham com alguma regularidade já devem ter percebido que romances contemporâneos dentro do género young adult não são propriamente a minha praia. Passei completamente ao lado de fenómenos como A Culpa é das Estrelas, só para dar um exemplo, sem qualquer remorso e admito que fruto de alguma embirração. A referência a este livro não é inocente, na medida em que Fala-me de um Dia Perfeito lhe tem vindo a ser comparado e isso seria, à partida, motivo quase suficiente para nem sequer pensar em lê-lo. Mas chegou-me a casa, cortesia do grupo Penguin Random House, inaugurando uma nova chancela – a Nuvem de Tinta – e pensei “porque não?“.

Fala-me de um Dia Perfeito é contado a duas vozes por Violet e Finch, adolescentes prestes a terminar o ensino secundário, e que carregam, cada um deles, os seus demónios pessoais. Violet perdeu a irmã num acidente de automóvel há quase um ano e tem vindo, desde então, a ter dificuldades em lidar com a sua perda; Finch é um de três irmãos, recentemente abandonados por um pai que sempre revelou problemas no papel. A ideia de colocar os protagonistas deste livro a conhecerem-se quando ambos pensam em terminar com a sua própria vida foi, quanto a mim, um pouco exagerada, e pouco verosímil, e confesso que fiquei um bocado apreensiva.

Após o encontro inicial, Violet e Finch vão criando cada vez mais uma empatia inesperada pelo estatuto de ambos na escola (ela popular, ele o renegado) e quando o trabalho numa disciplina os junta e os leva a conhecer locais interessante no estado em que residem, começam a perceber que o que os une é muito mais do que empatia. 

A meu ver, há um desequilíbrio entre o interesse que ambas as personagens suscitam: Finch parece muito mais a três dimensões que Violet, é-nos apresentado como uma personagem mais complexa e interessante, de tal modo que por vezes parece muito mais velho do que os seus 17 anos. A alguns leitores poderá parecer menos real por isto, mas eu prefiro não julgar a maturidade das pessoas pela sua idade. Finch é um rapaz que sofre de doenças mentais graves (depressão, bipolaridade) e isso reflete-se de forma intensa no seu comportamento e relacionamento interpessoal; penso que este foi mesmo um dos pontos mais bem conseguidos do livro. Por outro lado, Violet é uma miúda com os pés mais bem assentes na terra, uma rapariga popular na escola e que usa essa popularidade como uma capa para a sua dificuldade em lidar com a ausência da irmã. Ou, pelo menos, é isso que a autora nos diz. Não consegui “sentir” a tristeza de Violet, os seus problemas, a sua alegria reencontrada, e por isso foi uma personagem que me pareceu bastante unidimensional e que me deixou indiferente.

Jennifer Niven utilizou a sua experiência pessoal para escrever este livro e, pela nota final, pareceu-me ter querido utilizar como tema central as doenças mentais e o suicídio, que por vezes é a sua infeliz consequência. São temas importantes e que têm de ser desmistificados, tendo a autora tentado chamar a atenção para a sua incidência em idades mais baixas. Isto é, sem dúvida, um ponto a seu favor. A minha experiência pessoal com estes temas pedia, porém, uma abordagem menos leve e mais aprofundada e foi principalmente por isso que não apreciei tanto este livro como aconteceria, certamente, a alguém mais jovem e para quem tudo isto é completamente novo.

Apesar da minha falta de identificação com a forma como o tema do livro é abordado e considerar que, em termos narrativos, a história precisava de alguns ajustes, não me arrependo da leitura. O tempo e a experiência vão-nos ajudando a filtrar o que lemos e a acertar cada vez mais nos livros que escolhemos; este livro ajudou-me a cimentar esse conhecimento sobre mim, como leitora. E, só por isso, já valeu a pena.

Classificação: 2/5 – OK


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.