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[Opinião] Vai e Põe uma Sentinela, de Harper Lee

01040619_Vai_Poe_SentinelaAutor: Harper Lee
Ano de Publicação:
2015
Editora: Editorial Presença
Páginas: 240
ISBN: 9789722356879
Tradutor: Isabel Nunes e Helena Sobral
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Jean Louise Finch – Scout – a inesquecível heroína de Matar a Cotovia, regressa de Nova Iorque a Maycomb, a sua cidade natal no Alabama, para visitar o pai, Atticus. Decorre o turbulento período de meados de 1950, numa nação dividida em torno das dramáticas questões raciais. É com este pano de fundo que Jean Louise descobre verdades perturbadoras acerca da sua família, da cidade e das pessoas de quem mais gosta, o que a leva a interrogar-se sobre os seus valores e princípios, e a confrontar-se com complexos problemas de ordem pessoal e política. Vai E Põe Uma Sentinela, romance inédito de Harper Lee, cujo manuscrito se havia perdido mas descoberto em 2014, foi escrito antes de Matar A Cotovia e apresenta-nos muitos dos personagens dessa mítica obra, agora vinte anos mais velhos. Um livro magnífico, comovente e de grande fascínio de um dos maiores vultos da ficção contemporânea.

Opinião: Gostei muito de Por Favor, Não Matem a Cotovia (ou Matar a Cotovia). É daqueles livros mágicos, que têm o condão de encantar toda a gente, um clássico na verdadeira aceção da palavra. Por isso, fiquei bastante entusiasmada quando foi anunciada a publicação de um novo livro da autora, que voltava a levar-nos à companhia de Scout e Atticus, cerca de 20 anos depois dos acontecimentos relatados naquele primeiro livro. Vai e Põe uma Sentinela foi o primeiro livro que Harper Lee escreveu, mas quando o apresentou ao editor foi-lhe dito para reescrever a história focando-se nos flashbacks de Jean Louise, quando era criança – foi daí que nasceu Por Favor, Não Matem a Cotovia, tendo Vai e Põe uma Sentinela ficado na gaveta durante cerca de 55 anos. Ao fim de todos estes anos, viu finalmente a luz do dia, não sem polémica: muitas pessoas consideram que Harper Lee não estará na posse de todas as suas faculdades e que se não publicou o livro durante todos estes anos era porque não pretendia que isso acontecesse; a verdade é que ele aqui está para toda a gente ler.

Para além da polémica que rodeou a sua publicação, a grande discussão em redor deste livro centra-se na alteração da perceção que tínhamos de Atticus Finch: de herói que luta contra a maré e que decide defender um negro numa época em que a segregação ainda era regra no sul dos Estados Unidos, passa a racista e defensor da segregação racial. Como conciliar as duas visões da mesma personagem pareceu-me ser o maior desafio desta leitura: Jean Louise sempre viu o pai como um herói, como alguém que lutou e luta pela igualdade entre todas as pessoas, mas quando regressa a Maycomb e assiste a uma reunião em que se defende a superioridade da raça branca e a segregação racial, com o pai presente, o altar onde o colocou parece ruir definitivamente. 

Quando este livro saiu, li um artigo que defendia uma teoria de que gosto bastante: a única forma de conciliar os Atticus dos dois livros e de encontrar uma continuidade entre ambos é considerar que a realidade está em Vai e Põe uma Sentinela e que Por Favor, Não Matem a Cotovia era uma versão ficcionada, relatada pela criança Jean Louise, testemunho de uma altura na sua vida em que existia o Bem e depois existia o Mal, estando o seu pai definitivamente do lado do Bem. Em Vai e Põe uma Sentinela, as coisas são mais complexas e o leitor, que adorou o primeiro, acaba por reagir perante o segundo como Jean Louise reage perante a perceção de quem realmente é o seu pai.

Tenho de confessar que não estava à espera de gostar muito deste livro, e encarava a sua leitura mais como uma curiosidade do que como uma inevitabilidade. Mas a verdade é que Vai e Põe uma Sentinela venceu-me: assim que comecei a ler, as páginas voaram, com a prosa hipnotizante de Harper Lee a embalar-me e a fascinar-me. Harper Lee tem uma magnífica capacidade de nos enredar nas suas palavras, de nos puxar para dentro das suas histórias e aqui, ainda que amiúde se note o facto de ser um primeiro livro a precisar de um pouco mais de polimento, a autora conseguiu de novo cativar-me. Foi um livro que me fez refletir, e que ressoou na minha realidade, com a altura da minha vida em que percebi que também o meu herói não era perfeito, mas que o adorava independentemente das diferenças de opinião.

Não diria que Vai e Põe uma Sentinela é uma leitura indispensável para quem leu e adorou a obra mais conhecida da autora, pela possível dificuldade em conciliar os dois livros; é, sim, um livro importante para a compreensão do processo de escrita de Harper Lee, e mais do que isso, uma obra importante por si própria, que pessoalmente não manchou a impressão que tinha da leitura do primeiro livro. Está a venda a partir de hoje e leva o meu selo de recomendação.

A ilha de cada um de nós, Jean Louise, a sentinela de cada um é a sua consciência. A consciência coletiva, tal coisa não existe.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

Nota: Para mais informações sobre Vai e Põe uma Sentinela, clica aqui.


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.