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[Opinião] O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa

o vendedorAutor: José Eduardo Agualusa
Ano de Publicação:
2004
Editora: Dom Quixote
Páginas: 232
ISBN: 9789722026673
Origem: Empréstimo

Sinopse: “Félix Ventura. Assegure aos seus filhos um passado melhor”. É a partir deste cartão-de-visita que se desenrolam os capítulos de “O Vendedor de Passados”, novo romance de José Eduardo Agualusa. A mentira e a verdade, o(s) homem(s) e o(s) seu(s) duplo(s), a memória e a memória da memória, a ficção e a realidade. Angola (“é importante ironizar com a sociedade angolana, que é uma sociedade que se construiu e se continua a construir assente em muitas ficções” – o autor ao Público, 19/06/04). Tudo poderia acontecer. Tudo poderia ter acontecido. (Susana Moreira Marques, Público, Mil Folhas: “A determinada altura a osga recorda a mãe num momento da sua vida passada: ‘Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros'(p. 122). José Eduardo Agualusa provavelmente escolhe a vida.”) Isto é: os livros?

Opinião: Aconteceu-me uma coisa engraçada com este livro. Comecei a lê-lo durante uns bocados à noite, quando o sono já era algum, e talvez isso explique que só tenha percebido que o narrador era uma osga quando já tinha lido um terço. De facto, havia ali coisas que não tinha percebido bem, mas assim que se fez luz as peças começaram a encaixar no lugar, ainda que tenha achado necessário voltar ao início para melhor aproveitar a história.

Este livro é narrada por uma osga, outrora um ser humano, que vive na casa de um angolano albino. Félix Ventura é um vendedor de passados, alguém que arranja passados ilustres a quem os deseje. A visita do homem que se irá chamar José Buchmann despoleta uma série de acontecimentos que nos vão sendo narrados pela inefável osga. Os acontecimentos presentes vão sendo frequentemente interrompidos por sonhos que a osga tem, em que assume a sua anterior forma humana e dialoga com os outros protagonistas da história.

Como pontos positivos, destacaria a originalidade em relação ao narrador da história e a escrita, com um embalo muito próprio. É uma história que, apesar da relativa complexidade que exige alguma atenção, acaba por se tornar numa leitura rápida e com vários pontos de interesse. Gostei bastante também da forma como o autor desenvolve esta história à volta do tema da procura de identidade de um povo (relacionada de forma próxima com as alterações advindas da descolonização). Das personagens, a melhor é sem dúvida a osga; das restantes fica a sensação que poderiam ter sido melhor trabalhadas e desenvolvidas. O enredo deixou um bocado a desejar; é interessante, mas não entusiasmante, tem a forma mas falta-lhe um pouco de conteúdo. 

Contudo, o balanço é positivo. Gostei de conhecer este escritor lusófono, e o que ganhei com esta leitura foi uma enorme vontade de continuar a descobrir a sua obra.

Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre.

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.