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Entrevista a Célia Correia Loureiro

Li A Filha do Barão há pouco tempo e fiquei agradavelmente surpreendida com a qualidade do livro. Fez-me ganhar vontade de descobrir mais autores portugueses e de apostar no que é nosso. Decidi, por isso, pedir à Célia Correia Loureiro se poderia responder a algumas perguntas para ficarmos todos a conhecê-la melhor e o pedido foi simpaticamente aceite. Aqui ficam as respostas e o meu grande obrigado pela disponibilidade e o desejo de muitos sucessos no futuro.

 

 

53555711 – Com que idade é que percebeste que gostavas de escrever? Houve algum momento-chave ou foi uma revelação que se foi desvendando?

O momento chave foi o momento em que a minha avó me ofereceu o livro de Histórias da Branca de Neve. Comecei a querer mexer com os destinos daquelas personagens tão obscuras.

 

2 – Que autores e géneros gostavas de ler em criança/adolescente? São muito diferentes dos atuais?

São diferentes, mas a alguns mantive-me fiel: a saga do Harry Potter está-me no sangue. Mas outros, como a Daniele Steel e o Nicholas Sparks, ou mesmo a Sveva Casatti Modignani, que lia muito porque eram as leituras que a minha prima tinha na sua biblioteca e me passava, fui deixando. Neste instante estou a apostar em leitores portugueses, com muitas surpresas! Seja ao nível de personalidades (dos mais humildes às prima-donnas) seja ao nível das obras… da mais pura mediocridade ao talento oculto.

 

3 – De onde te surgem ideias para os livros que escreves?

É como se fosse assombrada por pessoas e histórias que exigem ver a luz. A História de Portugal, sobretudo, é tão rica que insiste em ser escrita sob os mais diversos momentos e prismas. Mas é muito trabalhosa… De resto, alguns dos meus livros nascem de momentos inesperados. Escrevi “O Funeral da Nossa Mãe” a partir de um sonho que tive. A emoção mexeu tanto comigo que tive de exorcizá-la. Outras alturas procuro andar com os pés na terra, mas a percepção das coisas torna-se mais sensível, mais premente, e acabo por não poder evitar senti-la e, a partir disso, escrevê-la.

 

4 – És do tipo de escritor que começa um livro com tudo mais ou menos delineado ou escreves mais ao sabor da maré? Fala-nos um bocadinho da tua rotina de escrita.

Depende muito. Um livro como “A Filha do Barão” deveria ter sido planeado à loucura. Porém, quando fui comparar o resultado final com o esquema inicial (que preparo para livros que se adivinham mais complicados) descobri que fugi muito à ideia que tive de princípio. As personagens acabam por ganhar vontade própria, não posso arrastá-las para o que quero. A sua personalidade e ambições pessoais (ou mesmo inseguranças, traumas) levam-nas para onde alguém, humano, iria. Esforço-me para não ser deus e para fugir à perfeição na escrita. Quanto mais falíveis, melhor moldadas estão as personagens.

 

5 – Qual a tua opinião sobre a visibilidade dos novos autores portugueses e a receptividade que têm com os leitores?

Eu estou muito satisfeita, e cada vez mais. No início eram menos os aventureiros… As pessoas estão cada vez mais interessadas em apoiar e seguir os autores nacionais. Compram-nos, leem-nos, fazem-nos perguntas e publicitam-nos nos blogues. Isso é muito gratificante. Acabaram com o meu próprio preconceito quanto à literatura lusófona. A visibilidade dos autores nacionais está em alta! Basta ver as iniciativas das editoras: a Marcador, à qual pertenço, com Os Livros RTP, a SDE com uma série de livros históricos, mesmo a Planeta e a Leya, através da Casa das Letras. Muito bem, estão todas de parabéns!!!

 

157126246 – Achei que “A Filha do Barão” tinha por detrás uma pesquisa notável. Quanto tempo te demorou a fazê-la?

Muito. Decididamente mais do que a escrevê-lo. Mas era absolutamente necessário ambientar o livro o melhor possível. Não queria criar só mais um romance… queria que qualquer português visse um pedacinho do seu passado nele. Acho que consegui.

 

7 – Como é que se evitam as armadilhas que envolvem escrever um romance histórico? Nomeadamente erros factuais, anacronismos, etc?

Pesquisando muito, lendo e relendo vezes sem conta o que se escreveu, pedindo muitos conselhos, duvidando de tudo o que julgamos saber de antemão e munindo-se de uma grande dose de humildade. Saber aceitar que nos digam que facto tal está errado ou foi revogado: a história move-se, vai-se revelando aos poucos. O que aprendemos pode estar errado, há que saber admitir essa possibilidade, buscar fontes actuais e fazer as perguntas certas.

 

8 – Sei que já terminaste a sequela de “A Filha do Barão”, que provavelmente dará respostas às questões que ficaram em aberto nesse livro. Podes desvendar alguma coisa sobre personagens e enredo? Já existe data de publicação?

O principal, na minha opinião, é que saibam que “Uma Mulher Respeitável” não é uma continuação unha com carne de “A Filha do Barão”. Os dois livros nunca poderiam fazer parte de um mesmo volume. Gosto de me desafiar e de me reinventar e o novo livro foi escrito em termos muito diferentes. Vão redescobrir a Mariana, o Daniel, outras personagens-chave do 1.º volume e também uma mulher muito bonita e muito misteriosa, bem como um leque de personagens novo. Em “Uma Mulher Respeitável” ninguém é inocente e ninguém é o que parece. É um livro para se ler de pé atrás com todos.

 

9 – Em relação a projetos futuros, o que nos podes dizer?

Espero pôr-vos “Uma Mulher Respeitável” nas mãos. Depois quero dar uma pausa na escrita história… Ou queria, porque a verdade é que tenho três projectos a pulsar em riste… “1755” sobre um antepassado do barão de “A Filha do Barão”, “1943” sobre as intrigas e a vida boémia no Estoril durante a II Guerra (refugiados, a evolução da Psiquiatria, etc.), e “1910” sobre o neto da Mariana de “A Filha do Barão”. Todos a exigirem ser escritos em simultâneo, cada um a ordenar-me uma pesquisa mais exaustiva que o outro.

 

10 – Queres deixar alguma mensagem aos teus leitores?

Apostem nos autores portugueses, leiam em Português. Só assim evoluímos juntos. Os livros traduzidos não conseguem transmitir a beleza do palavreado de um livro na nossa língua, nem a arte da sintaxe e o vocabulário luso, através do qual sonhamos mais alto numa obra literária. Mesmo a pontuação só é correcta se o próprio autor se empenhar em cuidar da sua língua escrita. Não vou mentir: preparem-se para a mediocridade e as desilusões. Mas descortinar-se uma Dulce Maria Cardoso é motivo de grande orgulho. Então saiamos à caça dos bons!

 


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.