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[Opinião] Stoner, de John Williams

23125794Autor: John Williams
Título Original:
Stoner (1965)
Editora: Dom Quixote
Páginas: 263
ISBN: 9789722055567
Tradutor: Tânia Ganho
Origem: Comprado

Sinopse: Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams – também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade. Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia. Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: “É o melhor romance que ninguém leu”. Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da híper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos – se tivermos um livro a que nos agarrar.

Opinião: Stoner foi publicado há 50 anos, mas vendeu apenas 2.000 cópias antes de ter saído de circulação. Já no século XXI, foi alvo de uma reedição da New York Review Book Classics, e um conjunto de fatores entre os quais se contaram esforços de livrarias e boca-a-boca entre leitores levou a que, em 2013, este livro fosse considerado pelos leitores da cadeia inglesa de livrarias Waterstones o melhor do ano. E foi assim que este livro também foi publicado em Portugal em 2014 e chegou às minhas mãos: de quem foi a “culpa” não sei, mas estou-lhe eternamente grata.

William Stoner é a personagem central do livro a que empresta o nome, um norte-americano de origens humildes, filho de trabalhadores do campo, que ruma à universidade para estudar a área em que trabalhou toda a vida, mas que depressa percebe que o seu fascínio pela literatura o vai levar por caminhos diferentes. Casamento, paternidade, desafios profissionais, a vida de Stoner parece conter tudo aquilo que o comum dos mortais normalmente faz, mas aquilo que no exterior aparenta ser uma vida sem muito que se lhe diga é muito mais, é uma viagem ao interior de um homem fascinante.

Acredito que a medida em que este livro interessa ao leitor que o folheia terá muito a ver com o grau de compreensão para com a personagem principal. Não necessariamente identificação, porque há muita coisa na vida de Stoner que não quereria para a minha, mas é retratado de uma forma tão verdadeira e visceral, que é praticamente impossível não simpatizarmos com ele. Parecerá a muitos uma pessoa inerte, sem perspetivas para o futuro ou algo no passado que seja realmente relevante, mas cativa pela fidelidade e firmeza relativamente aos seus princípios e pela importância que empresta àquilo que acredita ser a sua verdade. Vive no seu mundo, a universidade, um local que vê como não conspurcado, onde vai encontrando réstias de esperança e felicidade face às adversidades que se lhe apresentam lá fora. É um homem que tem dentro de si muito mais do que aquilo que consegue comunicar verbalmente e a palavra escrita acaba por ser um conforto. A vida de Stoner poderá ser avaliada por muitos como aborrecida, inconsequente e de pouca valia, mas quem assim o avaliar provavelmente não o conheceu devidamente e é ainda regido pelos princípios de extroversão que a nossa sociedade valoriza. Stoner vinga por parecer uma pessoa real, por na sua aparente simplicidade conter todas as matizes de complexidade que valorizam o ser humano. É uma personagem tão complexa, tão rica, que poderia ficar o resto do dia a falar nela sem, muito provavelmente, conseguir exprimir tudo aquilo que lhe entrevi ou que com ela aprendi.

Acho que já ficou explícito o quanto esta personagem e livro me marcaram. Não costumo ficar muito tempo a pensar num livro depois de o terminar, porque tenho a capacidade de me desligar rapidamente de uma história antes de partir para outra, mas houve uma série de imagens neste livro que estão comigo e não me largam. E o que dizer da escrita de John Williams? Evocativa, muitas vezes quase poética, mas ao mesmo tempo de uma clareza e frescura quem encantam o mais exigente leitor. 

É um livro riquíssimo a nível das várias reflexões que traz consigo: a infelicidade é uma inevitabilidade? Está dentro ou fora de nós? No final de contas, quando o nosso fim se aproximar, o que nos trará a certeza que valeu a pena? São só algumas das razões para não deixar este livro passar despercebido. Recomendadíssimo.

Classificação: 5/5 – Adorei


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.