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[Opinião] Million Dollar Baby, de F.X. Toole

9764822Autor: F.X. Toole
Título Original:
Rope Burns: Stories from the Corner (2000)
Editora: Impresa
Páginas: 220
ISBN: n.d.
Tradutor: Helena Serrano
Origem: Comprado

Sinopse: Million Dollar Baby é uma contundente compilação que inclui uma novela e cinco contos que refletem a experiência do autor no mundo do boxe. Toole consegue, com esta brilhante estreia, aproximar o leitor da realidade mais íntima e dolorosa dos combates, onde os protagonistas conseguem evadir-se do desespero do mundo em que habitam ao aceitarem a disciplina da luta. A antologia Million Dollar Baby, cujo título original é Rope Burns, toma o título do relato levado à fama graças ao excelente filme de 2004 dirigido por Clint Eastwood e protagonizado por Hilary Sawnk e Morgan Freeman, que conseguiu obter os Óscares para o Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Atriz e Melhor Ator Secundário.

Opinião:  Os livros têm destas coisas: põem-nos muitas vezes a ler sobre coisas que não nos despertam o mínimo interesse na vida real. Boxe era uma das últimas coisas sobre as quais me ocorreria ler, mas, ainda assim, este livro encontrou caminho para chegar até mim e, apesar de não ter sido uma leitura propriamente marcante, acabou por se revelar positiva pelas baixas expectativas com que a iniciei. 

F.X. Toole é pseudónimo de Jerry Boyd, já falecido, que dedicou boa parte da sua vida ao boxe, fosse a combater ou a treinar pugilistas. É importante referir isto porque é bem visível que esta coletânea de contos foi escrita por alguém que amava este desporto e que conhecia os seus meandros. Aqui fica uma apreciação individual para cada um dos contos:

Ar de Macaco: o primeiro conto do livro segue a vida de um cutman veterano, cuja principal função é tratar dos cortes dos pugilistas que acompanha, de modo a estancar o sangue provocado pelas feridas e evitar que estas impeçam que o pugilista continue em prova. Penso que o principal objetivo do autor neste conto é mostrar um pouco dos bastidores do boxe e das artimanhas utilizadas por todos os que circulam à sua volta. Uma história interessante, ainda que longe de notável. – 3/5

Judeu Preto: Também este conto é narrado por um cutman, diferente do da primeira história. Aqui, acompanhamos um pugilista negro de origem judia que parece ter dificuldades em fazer-se respeitar. As diferenças entre um vencedor e um perdedor ficam aqui bem vincadas, mais uma vez com uma visita aos bastidores do boxe. Não achei este conto nada de especial. – 2/5

Million Dollar Baby: o conto que dá nome ao livro (e deu o nome ao filme de Clint Eastwood) era o que mais curiosidade me suscitava nesta coletânea. Frankie Dunn é um treinador de boxe irlandês, já de idade avançada, que é procurado por Maggie, uma jovem de 32 anos que deseja aprender a ser pugilista. Apesar das reticências iniciais, Frankie acaba por aceder treiná-la, e os dois conseguem bastante sucesso num campo anteriormente pouco explorado, o boxe feminino. Mas às tantas algo inesperado acontece, e isso tem um impacto profundo na vida dos dois. Dá para perceber porque é que alguém decidiu fazer desta história um filme; sem dúvida que tem imenso potencial para tal, mas independentemente disso é uma história cativante e bem escrita, apesar de por vezes parecer avançar depressa demais ou necessitar de um pouco mais de desenvolvimento. Penso que teria dado um excelente livro, por si só. Foi o meu conto preferido do livro e fico, por isso, com imensa vontade de ver o filme (que me parece que toda a gente já viu menos eu). – 4/5

Lutar em Filadélfia: mais uma vez pelos olhos de um cutman, acompanhamos um pugilista e a sua equipa, num conto que destaca o trabalho de equipa num combate de boxe, apesar de este ser considerado um desporto individual. Este cutman, Con, é um homem que gosta de literatura e arte, onde encontra o equilíbrio necessário às exigências da sua profissão. A prova do seu lutador pode não correr como o esperado, mas a esperança e o amor de Con por este desporto não esmorecem. Gostei deste conto. 3/5

Água Gelada: temos aqui a história de um ingénuo rapaz da província que vai para Los Angeles com o desejo de se tornar pugilista. Num ginásio, entra em conflito com outro lutador e leva uma sova que o deixa às portas da morte. É o conto mais curto do livro, e não há propriamente grande desenvolvimento da história ou personagens para além do tema dos sonhos de infância perdidos. 2/5

Queimadura das Cordas: esta é a história mais longa do livro, ocupando cerca de um terço do seu tamanho. A personagem central é Mac, um treinador de idade já avançada, que se vê a braços com um jovem negro de 18 anos, de futuro bastante promissor, de tal modo que se consegue apurar para os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Contudo, o contexto social da época acaba por ter um papel fundamental no destino de ambos: o caso Rodney King (taxista negro agredido por polícias) acaba por originar distúrbios na cidade, nos quais o racismo assume papel central. Este é a história do livro em que o boxe fica mais para segundo plano, sendo o destaque dado às convulsões sociais da época, o que o torna bastante interessante. – 4/5

Pelo descrito acima, é fácil perceber que os contos não me despertaram o mesmo nível de interesse, mas ainda assim o facto de conter alguns de que gostei já é, para mim, surpreendente. São contos que conseguem imprimir uma sensação de honra e fascínio a este desporto, mostrando que é muito mais do que os combates que se desenrolam no ringue. Curiosa a constante referência à religião ao longo dos contos, percebendo-se que o autor encarava o boxe, ele próprio, como uma religião. De um modo geral, continuo a não ser fã deste desporto, mas foi bom conhecer outro pontos de vista, e isso é sempre positivo.

Nota final para a tradução: dei uma vista de olhos no texto original e pareceu-me muito bem conseguida, não só pelos variados termos técnicos mas também pela presença constante de vários sotaques. 

Classificação: 3/5 – Gostei


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.