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[Opinião] O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz

11732049Autor: Afonso Cruz
Ano de Publicação: 2011
Editora: Caminho
Páginas: 176
ISBN: 9789722124188
Origem: Empréstimo

Sinopse: A liberdade, muitas vezes, acaba por sobreviver graças a espaços tão apertados quanto o lava-loiças de um fotógrafo. Esta é a história, baseada num episódio real (passado com os avós do autor), de um pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX, no império Austro- Húngaro, que emigrou para os EUA e voltou a Bratislava e que, por causa do nazismo, teve de fugir para debaixo de um lava-loiças.

Opinião: Quando fui à biblioteca devolver O Livro do Ano, estava lá mais este livro de Afonso Cruz e decidi trazê-lo porque me tinha sido muito bem recomendado. O título é muito curioso e, se inicialmente pensei que era uma metáfora, cedo descobri que esta história é mesmo sobre um pintor que, a dada altura da sua vida, viveu debaixo de um lava-loiças em Portugal. Afonso Cruz pegou numa história de família, que incluiu os seus avós a darem guarida a um pintor judeu refugiado durante a época de Segunda Guerra Mundial, e criou toda uma história à volta dessa personagem, que no livro dela herdou o apelido.

Afonso Cruz é um escritor muito visual, com particular atenção aos detalhes. Essas características estão muito presentes neste livro, que inclui várias ilustrações a acompanhar o texto e que constrói uma personagem particular, com muitos traços de personalidade normalmente associados aos artistas – que curiosamente tem um pai muito linear, que não compreende de todo o conceito de metáfora e que, à conta disso, não tem um futuro risonho. Josef não tem uma história de vida muito feliz, está constantemente à procura do seu lugar no mundo através das suas ilustrações; por vezes, parece uma personagem desligada do mundo, dos sentimentos e do amor, mas as suas viagens pelo mundo – incluindo Portugal – ensinam-lhe a existência da bondade e da importância dos laços de família.

Gostei sem dúvida mais da reta final da história do que do seu início, em particular das notas finais do autor, que mostram ao leitor onde é que a ficção e a realidade se cruzam. A realidade acaba por emprestar um outro brilho à ficção e fá-la ganhar significado. Gostei de “conhecer” os avós e outros antepassados de Afonso Cruz e encontrar neles aquela centelha de heroísmo e coragem que reconheço no povo português, mas que andam tão arredados por estes dias. É um pequeno grande livro, a confirmar que Afonso Cruz é um dos meus autores portugueses favoritos.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


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