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[Opinião] O Que o Dia Deve à Noite, de Yasmina Khadra

7706674Autor: Yasmina Khadra
Título Original: Ce que le jour doit à la nuit (2008)
Editora: Bizâncio
Páginas: 347
ISBN: 9789725304174
Tradutor: Maria Carvalho
Origem: Comprado

Sinopse: Yasmina Khadra oferece-nos neste livro um grande romance da Argélia colonial (entre 1936 e 1962) — uma Argélia torrencial, apaixonada e dolorosa — e lança uma nova luz, numa escrita soberba e com a generosidade que se lhe reconhece, sobre a separação atroz de duas comunidades apaixonadas por um mesmo país. 
«O meu tio dizia-me: ‘Se uma mulher te amar, e se tiveres a presença de espírito para avaliar a extensão desse privilégio, nenhuma divindade te chegará aos calcanhares.’ Orão sustinha a respiração nessa Primavera de 1962. A guerra iniciava as suas derradeiras loucuras. Eu procurava Émilie. Tinha medo por ela. Tinha necessidade dela. Amava-a e regressava para lho provar. Sentia-me capaz de enfrentar furacões, trovões, todos os anátemas e as misérias do mundo inteiro.»

Opinião: Aqui está um livro que eu nunca teria lido se não fossem as excelentes opiniões que fui lendo pelos blogues e Goodreads. Quando o vi à venda na Feira do Livro por 5€, nem hesitei. Yasmina Khadra era um nome que desconhecia por completo – aliás, até pensei que fosse uma mulher, porque (descobri depois) o nome é um pseudónimo que o autor algeriano utilizou para não sofrer censura por parte do exército do seu país, onde permaneceu até 2001, altura em que a guerra civil no país ainda durava.

Este livro foi um ótimo pretexto para conhecer melhor a história recente deste país que, afinal de contas, nem fica assim tão longe de Portugal. A Algéria é, assim, o pano de fundo desta história que começa nos anos 1930 e acaba já no século XXI. É uma narrativa na primeira pessoa, pela voz de Younes/Jonas, um rapaz que cedo se vê afastado da sua família por uma série de fatalidades e que é adotado pelos seus tios, capazes de lhe darem todas as condições para estudar e viver uma vida desafogada.

E assim vamos acompanhando Younes, primeiro em Orão e depois numa localidade mais rural, Río Salado, onde encontra amigos para a vida e também Émilie, com quem vai viver uma história de amor muito atribulada. Pelo meio, o autor dá-nos conta das convulsões políticas e militares que vão assolando o país, em especial no que respeita à luta pela independência nos anos 1950/60. Essa luta esteve intimamente ligada ao confronto entre colonizadores e colonizados e entre cristãos e muçulmanos. Penso que o autor foi exímio na descrição destas disparidades, fazendo o leitor observar as coisas dos dois lados da barricada.

No que respeita à parte ficcional do enredo, cativou-me. Teria gostado ainda mais se não tivesse tido dificuldade em perceber as amarras que Younes tinha para não poder viver o amor livremente; compreendo as motivações dele e percebo que é necessário olhar para a situação de acordo com o país e a época em que decorre, mas ainda assim não acreditei com facilidade no que evitava a concretização deste amor. 

E deixei para o fim aquele que é, na minha opinião, o maior trunfo deste livro: a escrita. Há algum tempo que não lia um livro tão bem escrito, daqueles em que temos vontade de anotar citações e que têm uma cadência e musicalidade perfeitas, quase poético e sem nunca parecer forçado. Uma verdadeira pérola. Por isso, apesar de a história central deste livro não me ter arrebatado incondicionalmente, gostei muito desta leitura. É um livro muito bem escrito, com uma história algo triste mas cativante, que nos permite aprender mais sobre a história recente da Algéria. Recomendado.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.