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[Opinião] Cinco Quartos de Laranja, de Joanne Harris

Cinco quartos de laranjaAutor: Joanne Harris
Título Original: Five Quarters of the Orange (2001)
Editora: Edições ASA
Páginas: 320
ISBN: 9789724127002
Tradutor: Sara Santa Clara
Origem: Comprado

Sinopse: Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe. Essa espécie de diário contém igualmente uns estranhos apontamentos cuja decifração lançará uma nova luz sobre os dramáticos acontecimentos que marcaram a infância da protagonista nos dias já longínquos da ocupação nazi. Framboise recorda os sabores e os sentimentos da sua infância, numa França marcada pela dor e pela penúria da guerra, e muito especialmente um episódio que marcou a vida da família e constitui, para ela, a perda definitiva da inocência. Agora, já no Outono da vida, chegou a hora de enfrentar a difícil verdade.

Opinião: Há anos que não lia um livro da Joanne Harris. Houve uma altura, antes de ter este blogue, em que li 3 livros dela e gostei de todos, com especial destaque para “Chocolate”, que continua a ser o meu preferido. O desafio Monthly Key Word continua a ir à estante buscar livros esquecidos, e em Agosto voltei à Joanne Harris.

Framboise é a narradora desta história, que recua aos anos da Segunda Guerra Mundial numa pequena localidade francesa, onde vivia com a mãe e os seus dois irmãos, Cassis e Reine-Claude. Os seus nomes de frutas demonstram o amor que a mãe dos três tinha pela suas árvores de fruto (também elas com direito a nomes próprios) e pela culinária, que era a sua paixão. Com exceção da laranja, cujo cheiro lhe provocava terríveis dores de cabeça. Apesar da ocupação alemã, era um tempo de brincadeiras, aventuras e descobertas. Framboise (ou Boise) era o patinho feio, a filha mais nova, cujas capacidades eram normalmente subestimadas pela família e que tinha como grande objetivo apanhar o Velho, um lúcio de quem se dizia dar azar caso fosse avistado e sorte se apanhado e solto de novo, após o pedido de um desejo. As visitas dos irmãos à localidade mais próxima resultam no encontro com um jovem nazi alemão, Tomas Leibniz, por quem Boise se apaixona e que terá uma participação decisiva no futuro desta família.

Mas a narrativa decorre também muitos anos mais tarde, quando Boise regressa à sua terra natal, após a morte da mãe, para tomar conta do diário desta, que é também um livro de receitas. Boise recupera a casa de família e aproveita as receitas da mãe para abrir um restaurante que depressa se transforma num grande sucesso. Mas toda esta aparente vida calma ameaça ruir por causa de um segredo do passado, conhecido pelo sobrinho de Boise e respetiva mulher, que a ameaçam. Esse segredo e as suas consequências têm novos desenvolvimentos quando Boise começa a decifrar os escritos da sua mãe no livro que esta lhe deixou como herança.

Posso dizer que li este livro em dois dias, o que tendo em conta a minha atual velocidade de leitura, é obra. Senti-me absorvida pela história destas pessoas, intrigada pelas peculiares características de Boise e da sua mãe, e curiosa para perceber finalmente qual o acontecimento dramático que marcou esta família. A narrativa vai saltitando entre presente e passado, apesar de se concentrar bastante mais no passado, uma técnica que aprecio bastante desde que bem utilizada, o que nem sempre é fácil. Aqui é bem utilizada em conjunto com a voz particular de Joanne Harris, que é mestre em despertar os sentidos do leitor – neste caso, o paladar. Quanto às personagens, gostei mais da Boise adulta do que da Boise criança: apesar de esta última estar bastante bem caracterizada, por vezes pareceu-me um pouco mais adulta do que seria possível para uma menina de 9 anos. Não é uma personagem de quem é fácil gostar porque à sua inteligência nata alia uma irreverência que por vezes roça a maldade e a crueldade gratuitas. A mãe de Boise, Mirabelle, é uma mulher com várias faces, soturna no exterior, mas com muito mais dentro de si do que revela, incluindo vários demónios. Foi a minha personagem preferida.

Gostei muito deste livro, cuja mensagem principal acaba por ser: “pequenos gestos, por mais bem intencionados que sejam, podem ter consequências graves”. Foi bom regressar a esta autora e perceber que o que me cativou anteriormente nos livros dela continua válido para mim, como leitora. 

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante

 


Sobre Célia

Tenho 36 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.