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[Opinião] Os Despojados: Uma Utopia Ambígua, de Ursula K. Le Guin

Autor: Ursula K. Le Guin
Título Original: The Dispossessed: An Ambiguous Utopia (1974)
Editora: Europa-América (livros bolso)
Páginas: 156+156
ISBN: 9789721006126+9789721006133
Tradutor: Maria Freire da Cruz
Origem: Comprado

Sinopse: No seu romance mais ambicioso e profético, Ursula K. Le Guin realizou um espantoso tour de force: a arrebatadora história de Shevek, um físico brilhante que tenta reunir sozinho dois planetas, separados um do outro por séculos de desconfiança. Anarres, a pátria de Shevek, é uma lua árida, colonizada por uma civilização anarquista utópica: Urras, o planeta-mãe, é um mundo muito semelhante à Terra, com as suas nações beligerantes, grande pobreza e imensa riqueza. Shevek arrisca tudo numa corajosa visita a Urras – para aprender, para ensinar, para partilhar. Mas a sua dádiva transforma-se em ameaça… e no conflito profundo que daí resulta, Shevek é forçado a reexaminar a sua filosofia de vida.
 

Opinião: Os Despojados é uma das obras mais emblemáticas de Ursula K. Le Guin: escrita em 1974, venceu vários prémios (entre eles o Hugo e o Nebula, dos mais importantes dentro da ficção especulativa), mas obteve igualmente reconhecimento fora do âmbito da chamada genre fiction

Há algum tempo que tinha vontade de experimentar outra coisa desta autora desde Lavínia, que não me convenceu. Algumas recomendações (especialmente a da White Lady) foram o empurrão necessário. Apesar de ser uma história independente, Os Despojados faz parte do chamado Ciclo Hainish, quase todo publicado em português.

A história deste livro decorre em dois planetas fictícios: Urras e Anarres. O primeiro, bastante semelhante à Terra, é um planeta rico em termos de recursos naturais, mas também marcado pelos constantes conflitos entre os seus povos; Anarres é a lua de Urras, um planeta inóspito, que uma facção dissidente de urrasti decidiu colonizar a fim de lá implementar uma sociedade igualitária, baseada no anarquismo e na partilha de bens. Neste contexto, o leitor toma contacto com a personagem central, o físico anarresti Shevek, que no início do livro ruma a Urras, tornando-se assim o primeiro anarresti a fazê-lo.

O livro alterna entre capítulos onde a ação decorre num e noutro planeta, mas não de forma linear. Em Anarres, acompanhamos os acontecimentos da vida de Shevek antes de rumar a Urras; nos capítulos deste último, percebemos como decorre a chegada a este novo planeta, as dificuldades que sentiu, e todas as ilusões e desilusões que experienciou.

O que mais me agradou neste livro foi a riqueza em termos de temas para reflexão. Através da construção de dois mundos fictícios (ou nem tanto assim, pelo menos no que respeita a Urras) que se posicionam praticamente em extremos opostos, a autora faz com que reflitamos na imperfeição de ambos e que nos questionemos sobre o que realmente é a liberdade e o livre-arbítrio do indivíduo inserido numa sociedade. Dentro da temática social, o livro foca também o tema da inevitabilidade da existência de estruturas de poder. Mas os temas tratados vão muito para além disto: reflete-se sobre a importância dos recursos naturais e sobre a natureza das relações humanas, já para não falar da importante teorias físicas sobre o tempo (tema sobre o qual pouco percebo e que me fez compreender um pouco pior certas secções do livro).

Durante praticamente toda a leitura, senti que as personagens e a forma como estes mundos foram construídos eram bastante reais e achei a escrita de Ursula K. Le Guin muito acima da média. Talvez não o tenha lido na fase mais propícia da minha vida, mas ainda assim foi um livro que me fez pensar e que penso estar mais atual do que nunca, tendo em conta o contexto presente. 

E, dia a dia, a vida é uma tarefa difícil, cansas-te, perdes o padrão. Precisas da distância, do intervalo. A maneira de ver como a Terra é bela é vê-la da Lua. A maneira de ver como a vida é bela é vê-la do melhor miradouro, a morte.

Veredicto final: Um livro que brilha pela forma intemporal como retrata os dilemas de encontrar a sociedade ideal, com o equilíbrio na distribuição de recursos. A acompanhar isto, uma escrita notável e um rol de personagens marcantes. Recomendado.

Classificação: 4/5 – Gostei Bastante


Sobre Célia

  • Eu adorei este livro. Por acaso também não o li numa altura propícia, e por isso custou-me a entrar na leitura, mas quando insisti e levei a leitura até ao fim fiquei maravilhada e a querer relê-lo. O retrato das sociedades e dos dois mundos é fantástico e tão válido perante os tempos em que vivemos.

    Ah bolas que está-me a dar vontade de o ler outra vez…

    • Célia

      O tempo é que não estica, não é? 😀

      • Não. 🙁 Mas se calhar ainda o releio numa temporada FC. 😀 Eu e as temporadas… Mas agora a sério, apesar de entender as alternâncias entre capítulos, pois tinham sempre algum ponto em comum se bem me lembro, tinha ficado com vontade de ler cronologicamente. Ler de seguida todos os capítulos de Anarres e depois os de Urras, para depois voltar a ler alternadamente. 😀 Coisas parvas mas pronto…

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