Não terminar um livro
Eu adoro a lista dos 10 Direitos Inalienáveis do Leitor, que Daniel Pennac partilhou no seu livro “Como um Romance”, e gosto de todos eles, mas queria falar um pouco sobre o 3.º, o direito de não acabar um livro.
Das centenas de livros que comecei a ler, penso que se contam pelos dedos de uma mão aqueles cuja leitura não terminei. É certo que houve aqueles que deram mais luta, outros que se leram quase num ápice, e dentro destas duas categorias, livros que amei, odiei ou gostei assim-assim. Julgo que sempre senti uma espécie de dever ou obrigação de terminar um livro que comecei, fosse porque tinha investido o meu tempo e dinheiro, fosse porque achava que o autor merecia que lhe desse uma oportunidade, para não correr o risco de o livro melhorar muito na parte final e eu acabar por nunca “presenciar” essa evolução. O blogue foi mais uma motivação para terminar o que começava, porque continuo a achar que uma opinião será sempre mais bem fundamentada quando o livro é lido na sua totalidade.
Até que ultimamente me apercebi de uma coisa que deve ser óbvia para muita gente: o nosso tempo é finito e os livros potencialmente interessantes não param de crescer. Não me posso dar ao luxo de gastar o meu tempo com livros que não me trazem valor acrescentado, que me aborrecem de morte e que não me dão aquilo que procuro nos livros, que será diferente de leitor para leitor, mas válido em qualquer dos casos. Assim, o melhor a fazer é, das duas uma: ou voltar a colocá-lo na prateleira e aguardar por uma altura melhor ou fazer com que o livro chegue a alguém que o possa verdadeiramente apreciar, dando/vendendo o livro a alguém ou doando o exemplar à biblioteca. Não é uma tarefa fácil para quem, como eu, viveu tanto tempo a achar que tinha de acabar de ler tudo o que começava, desse por onde desse. O último livro que deixei a meio continuo a pairar à minha volta, como um fantasma. A seu tempo, os remorsos irão embora.
A mensagem mais importante: seja qual for o motivo por que leem, apreciem cada momento e não gastem o vosso tempo com aquilo que não vos faz feliz.




não posso deixar de concordar com o post…
só por curiosidade, qual é o livro que ficou a meio?
Quando escrevi este texto, referia-me ao “Dark Lover” da J.R. Ward ( http://www.estantedelivros.com/2011/08/dark-lover.html ). Entretanto, deixei outro livro a meio, o “Perturbações Atmosféricas”, de Rivka Galchen… não estava a gostar muito e desta vez fiquei com menos remorsos
Oh pah como entendo esses fantasmas que pairam à nossa volta!!
A mim também me custa imenso deixar um livrito a meio ou não o terminar :S mas lá está o nosso tempo é finito e há que selecionar o que lemos!
E o livro que referiste de Daniel Pennac parece interessante
Cheers
O livro é muito giro, lê-se num instantinho e é quase impossível não gostar
Antes de mais, parabéns pelo texto. Gostei bastante =)
Salvo raras excepções, quando não estou a gostar de um livro, acabo-o por o pôr de lado há espera de dias melhores. Pois é como dizes, existe tanta oferta apetecível e o nosso tempo é limitado, que se não gosto mesmo nada não faço o esforço para o ler até ao fim.
E fazes tu muito bem! Eu para lá caminho, a pouco e pouco…
Até aos 50 anos nunca “abandonei” um livro. Dessa época ainda tenho alguns em espera porque, ao espreitar as primeiras páginas, ficava com receio de não o conseguir levar até ao fim. A partir dos 50 apercebi-me de que as pilhas de livros por ler aumentavam e o tempo para os ler diminuia. Comecei a praticar, e com muito sucesso, a leitura na diagonal. Por norma se um livro não se revela nas primeiras 50 a 100 páginas é porque não tem nada para me dizer. Então começo a saltar parágrafos ou páginas, até chegar ao fim, apenas pelo enredo.
Leitura na diagonal é interessante, mas acho que não consigo fazer. :/ Já me acontece, por vezes, perder-me a meio da leitura e a ter que voltar a ler toda uma página porque parece que há coisas que não fazem sentido.
Eu acho que ler na diagonal é uma arte!
Que eu não domino, mas várias vezes dou por mim a apetecer-me fazê-lo…
Mais do que nunca este ano apercebi-me disso. O tempo é demasiado curto para o gastarmos com coisas que não nos estão a agradar. Não quer dizer que não volte a pegar neles pois muitas vezes a ocasião não é a melhor, outras vezes o livro parece uma cópia de outros que se encontram melhor desenvolvidos. Quando percebi isto, passei a não ter tantos remorsos e a colocar de lado livros que não me estavam a dizer nada.
E agora passo ao ponto 4, o direito de reler.
Ao mesmo tempo que deixei de ter remorsos por deixar livros a meio, ou para uma outra altura, percebi que o tempo também é curto para deixar livros que AMEI (e sim, tem de ser em maiúsculas) para reler mais tarde. Há livros que nos tocam por alguma razão e que por isso parecem portos de abrigo em determinadas alturas. É com enorme prazer que volto a pegar neles e a lê-los. É como ver um filme que adoramos, vezes e vezes sem conta. Ouvir uma música que nos toca num determinado momento até nos fartarmos. Reli vários livros este ano e por mim até relia mais, houvessem mais horas num dia, mais meses num ano. Não interessa que se saiba o final, que já se saiba passagens de cor e salteado, o facto de reler um livro é como rever um velho amigo que não víamos à anos e é sempre reconfortante.
Ultimamente, também tenho andado a reler algumas coisas e conto ler o Lord of the Rings em breve. Acho que é como reencontrar um velho amigo, apesar de haver sempre aquele receio de “estragar” a primeira impressão, em especial com livros que nos marcaram muito…
Concordo plenamente e a verdade é mesmo essa, o tempo que perdemos a ler um livro que não nos grada, é tempo que não passamos a ler algo que realmente gostamos.
Uma filosofia para pôr cada vez mais em prática!
Eu sou daqueles a quem custa muito pôr de lado um livro. Tenho também a noção de que, como bem dizes, não devemos gastar o tempo a ler aquilo que não nos faz felizes… Mas custa-me a aceitar. Não me esqueço de experiências como “Memórias de Adriano”, que quase chorei tal foi o sacrifício para conseguir chegar ao fim. Acredito que nalguma altura da minha vida (daqui a alguns anos hehe) volte a pegar nele e até o aprecie melhor.
Também já tive alturas, há bem pouco tempo, na minha vida em que pegava num livro, lia 2 páginas e voltava a pousá-lo. Mas acho que isso não conta como não terminar de lê-lo.
A verdade é que, por muito mau que esteja a ser o livro, não dou o meu tempo por perdido. Não estou à espera de gostar de todos os livros que leio. Mas vou sempre formar uma opinião sobre eles. Para mim, isso não é perder o meu tempo. E quando o reler, não deixarei de ter uma primeira experiência.
Acredito que um dia a minha opinião mude.
Mas lá está, Pedro, mesmo que não estejas a gostar do livro dizes que o terminas para poderes ter uma opinião: é a isso que me refiro quando falo em valor acrescentado. É importante para ti acabares um livro porque te dá alguma coisa em troca, e é por isso que te esforças. Eu descobri simplesmente que perdia mais do que ganhava ao fazer esse esforço
Sim, já abandonei alguns e também fico com essa sensação de “fantasmas” comigo. O que já me aconteceu foi pegar neles meses ou anos depois e já não me custar a ler. Um bom exemplo disso foi o “Eurico o Presbítero” que abandonei quando o devia ter lido (no secundário) e peguei nele anos depois e adorei-o! Por isso acho que, no meu caso, é mais uma questão de adiar a leitura do que o abandono total, propriamente dito.
Cada vez mais acho que o timing de leitura de um livro é fundamental. Mas também acho que há livros que muito dificilmente algum dia irei gostar de ler…
É mesmo. Eu tenho alguns escritores que jurei nunca mais voltar a ler, cujos livros li mas que detestei tanto que sei que dificilmente irei mudar de ideias e vir a gostar.
Tambem me sentia muito culpada de nao acabar livros, mas ultimamente tambem tive a mesma realizacao que tu: tantos livros, tao pouco tempo (inserir aqui a citacao fantastica do Almada Negreiros que agora me escapa). Desde que comecei o blog a minha pilha de livros para ler aumentou imenso, e isso tambem ajudou ‘a minha posicao mais dura.
Mesmo assim, ja estou no 70-e-tal livros lidos este ano e so desisti de 4.
Este ano ainda só desisti de 2, mas tenho a impressão que esse número tem tendência a aumentar…
Uma professora minha disse-nos uma vez, numa aula, a propósito de leituras: há tantos livros bons, não percam o vosso tempo com livros que não gostam… E por acaso é uma filosofia que eu tenho seguido. Não tenho paciência para ler livros de que não estou a gostar, aborrece-me, põe mal-disposta. Por isso, volto a guardar na estante e das duas uma: ou leio noutra altura ou vendo/dou a alguém. E assim ficamos todos felizes!
É precisamente essa filosofia que estou a tentar pôr em prática
Hear, hear!
Também me custa ter de desistir de um livro, mas quando um me dá mais dores de cabeça do que momentos de felicidade e escapatória, fecho-o e vai para a estante. Também os dou a quem os quiser, às vezes – ou vão para o Bookmooch.
Não conhecia essa lista de direitos, muito boa!
Já agora, recomendo o livro também… é um mimo para quem gosta de livros sobre livros
Eu não consigo parar uma leitura a meio. Enlouquecia com essa questão dos fantasmas…
Mesmo que não estejas a gostar nada, nada, nada, nadinha?
“Não me posso dar ao luxo de gastar o meu tempo com livros que não me trazem valor acrescentado, que me aborrecem de morte e que não me dão aquilo que procuro nos livros, que será diferente de leitor para leitor, mas válido em qualquer dos casos.”
Destaco esta tua frase, pois resume tudo: cada livro tem um interesse para o leitor, e o facto do valor acrescentado que os livros nos trazem, pois às vezes há livros que nos interessam menos, mas que queremos ler precisamente por esse valor acrescentado!
Por um tempo eu também me achava no dever e ler um livro até o fim, ainda mais quando se tratava de um clássico da literatura ou um best-seller. Mas aí parei para pensar no que a leitura e livros significam para mim, é uma fonte de diversão, delite, distração, uma paixão minha, para quê contaminar algo que é para descontrair juntamente com esse sentimento de compromisso? Desde então, se não gostei, seja qual for o autor, eu abandono. Ou deixo para depois, como você mesmo mencionou, ou admito que realmente não vou querer saber e vendo/passo para outra pessoa.
Adorei o texto, não conhecia os direitos do leitor, me identifiquei bastante!