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Não terminar um livro

Wednesday, November 2, 2011 Post de Célia

Eu adoro a lista dos 10 Direitos Inalienáveis do Leitor, que Daniel Pennac partilhou no seu livro “Como um Romance”, e gosto de todos eles, mas queria falar um pouco sobre o 3.º, o direito de não acabar um livro.

Das centenas de livros que comecei a ler, penso que se contam pelos dedos de uma mão aqueles cuja leitura não terminei. É certo que houve aqueles que deram mais luta, outros que se leram quase num ápice, e dentro destas duas categorias, livros que amei, odiei ou gostei assim-assim. Julgo que sempre senti uma espécie de dever ou obrigação de terminar um livro que comecei, fosse porque tinha investido o meu tempo e dinheiro, fosse porque achava que o autor merecia que lhe desse uma oportunidade, para não correr o risco de o livro melhorar muito na parte final e eu acabar por nunca “presenciar” essa evolução. O blogue foi mais uma motivação para terminar o que começava, porque continuo a achar que uma opinião será sempre mais bem fundamentada quando o livro é lido na sua totalidade.

Até que ultimamente me apercebi de uma coisa que deve ser óbvia para muita gente: o nosso tempo é finito e os livros potencialmente interessantes não param de crescer. Não me posso dar ao luxo de gastar o meu tempo com livros que não me trazem valor acrescentado, que me aborrecem de morte e que não me dão aquilo que procuro nos livros, que será diferente de leitor para leitor, mas válido em qualquer dos casos. Assim, o melhor a fazer é, das duas uma: ou voltar a colocá-lo na prateleira e aguardar por uma altura melhor ou fazer com que o livro chegue a alguém que o possa verdadeiramente apreciar, dando/vendendo o livro a alguém ou doando o exemplar à biblioteca. Não é uma tarefa fácil para quem, como eu, viveu tanto tempo a achar que tinha de acabar de ler tudo o que começava, desse por onde desse. O último livro que deixei a meio continuo a pairar à minha volta, como um fantasma. A seu tempo, os remorsos irão embora.

A mensagem mais importante: seja qual for o motivo por que leem, apreciem cada momento e não gastem o vosso tempo com aquilo que não vos faz feliz. 


Categorias Célia, Textos

28 Responses to “Não terminar um livro”

  1. Marta C. says:

    não posso deixar de concordar com o post…
    só por curiosidade, qual é o livro que ficou a meio?

  2. Janita Lima says:

    Oh pah como entendo esses fantasmas que pairam à nossa volta!!

    A mim também me custa imenso deixar um livrito a meio ou não o terminar :S mas lá está o nosso tempo é finito e há que selecionar o que lemos!

    E o livro que referiste de Daniel Pennac parece interessante ;)

    Cheers

  3. Tita says:

    Antes de mais, parabéns pelo texto. Gostei bastante =)
    Salvo raras excepções, quando não estou a gostar de um livro, acabo-o por o pôr de lado há espera de dias melhores. Pois é como dizes, existe tanta oferta apetecível e o nosso tempo é limitado, que se não gosto mesmo nada não faço o esforço para o ler até ao fim.

  4. Teresa Proença says:

    Até aos 50 anos nunca “abandonei” um livro. Dessa época ainda tenho alguns em espera porque, ao espreitar as primeiras páginas, ficava com receio de não o conseguir levar até ao fim. A partir dos 50 apercebi-me de que as pilhas de livros por ler aumentavam e o tempo para os ler diminuia. Comecei a praticar, e com muito sucesso, a leitura na diagonal. Por norma se um livro não se revela nas primeiras 50 a 100 páginas é porque não tem nada para me dizer. Então começo a saltar parágrafos ou páginas, até chegar ao fim, apenas pelo enredo.

    • WhiteLady3 says:

      Leitura na diagonal é interessante, mas acho que não consigo fazer. :/ Já me acontece, por vezes, perder-me a meio da leitura e a ter que voltar a ler toda uma página porque parece que há coisas que não fazem sentido.

    • Célia says:

      Eu acho que ler na diagonal é uma arte! :D Que eu não domino, mas várias vezes dou por mim a apetecer-me fazê-lo…

  5. WhiteLady3 says:

    Mais do que nunca este ano apercebi-me disso. O tempo é demasiado curto para o gastarmos com coisas que não nos estão a agradar. Não quer dizer que não volte a pegar neles pois muitas vezes a ocasião não é a melhor, outras vezes o livro parece uma cópia de outros que se encontram melhor desenvolvidos. Quando percebi isto, passei a não ter tantos remorsos e a colocar de lado livros que não me estavam a dizer nada.

    E agora passo ao ponto 4, o direito de reler. :D Ao mesmo tempo que deixei de ter remorsos por deixar livros a meio, ou para uma outra altura, percebi que o tempo também é curto para deixar livros que AMEI (e sim, tem de ser em maiúsculas) para reler mais tarde. Há livros que nos tocam por alguma razão e que por isso parecem portos de abrigo em determinadas alturas. É com enorme prazer que volto a pegar neles e a lê-los. É como ver um filme que adoramos, vezes e vezes sem conta. Ouvir uma música que nos toca num determinado momento até nos fartarmos. Reli vários livros este ano e por mim até relia mais, houvessem mais horas num dia, mais meses num ano. Não interessa que se saiba o final, que já se saiba passagens de cor e salteado, o facto de reler um livro é como rever um velho amigo que não víamos à anos e é sempre reconfortante. :)

    • Célia says:

      Ultimamente, também tenho andado a reler algumas coisas e conto ler o Lord of the Rings em breve. Acho que é como reencontrar um velho amigo, apesar de haver sempre aquele receio de “estragar” a primeira impressão, em especial com livros que nos marcaram muito…

  6. Ana C. Nunes says:

    Concordo plenamente e a verdade é mesmo essa, o tempo que perdemos a ler um livro que não nos grada, é tempo que não passamos a ler algo que realmente gostamos.

  7. Pedro says:

    Eu sou daqueles a quem custa muito pôr de lado um livro. Tenho também a noção de que, como bem dizes, não devemos gastar o tempo a ler aquilo que não nos faz felizes… Mas custa-me a aceitar. Não me esqueço de experiências como “Memórias de Adriano”, que quase chorei tal foi o sacrifício para conseguir chegar ao fim. Acredito que nalguma altura da minha vida (daqui a alguns anos hehe) volte a pegar nele e até o aprecie melhor.

    Também já tive alturas, há bem pouco tempo, na minha vida em que pegava num livro, lia 2 páginas e voltava a pousá-lo. Mas acho que isso não conta como não terminar de lê-lo.

    A verdade é que, por muito mau que esteja a ser o livro, não dou o meu tempo por perdido. Não estou à espera de gostar de todos os livros que leio. Mas vou sempre formar uma opinião sobre eles. Para mim, isso não é perder o meu tempo. E quando o reler, não deixarei de ter uma primeira experiência.
    Acredito que um dia a minha opinião mude.

    • Célia says:

      Mas lá está, Pedro, mesmo que não estejas a gostar do livro dizes que o terminas para poderes ter uma opinião: é a isso que me refiro quando falo em valor acrescentado. É importante para ti acabares um livro porque te dá alguma coisa em troca, e é por isso que te esforças. Eu descobri simplesmente que perdia mais do que ganhava ao fazer esse esforço ;)

  8. tchetcha says:

    Sim, já abandonei alguns e também fico com essa sensação de “fantasmas” comigo. O que já me aconteceu foi pegar neles meses ou anos depois e já não me custar a ler. Um bom exemplo disso foi o “Eurico o Presbítero” que abandonei quando o devia ter lido (no secundário) e peguei nele anos depois e adorei-o! Por isso acho que, no meu caso, é mais uma questão de adiar a leitura do que o abandono total, propriamente dito.

    • Célia says:

      Cada vez mais acho que o timing de leitura de um livro é fundamental. Mas também acho que há livros que muito dificilmente algum dia irei gostar de ler…

      • tchetcha says:

        É mesmo. Eu tenho alguns escritores que jurei nunca mais voltar a ler, cujos livros li mas que detestei tanto que sei que dificilmente irei mudar de ideias e vir a gostar.

  9. Tambem me sentia muito culpada de nao acabar livros, mas ultimamente tambem tive a mesma realizacao que tu: tantos livros, tao pouco tempo (inserir aqui a citacao fantastica do Almada Negreiros que agora me escapa). Desde que comecei o blog a minha pilha de livros para ler aumentou imenso, e isso tambem ajudou ‘a minha posicao mais dura.

    Mesmo assim, ja estou no 70-e-tal livros lidos este ano e so desisti de 4.

    • Célia says:

      Este ano ainda só desisti de 2, mas tenho a impressão que esse número tem tendência a aumentar…

  10. Diana says:

    Uma professora minha disse-nos uma vez, numa aula, a propósito de leituras: há tantos livros bons, não percam o vosso tempo com livros que não gostam… E por acaso é uma filosofia que eu tenho seguido. Não tenho paciência para ler livros de que não estou a gostar, aborrece-me, põe mal-disposta. Por isso, volto a guardar na estante e das duas uma: ou leio noutra altura ou vendo/dou a alguém. E assim ficamos todos felizes! :)

  11. jen7waters says:

    Hear, hear!

    Também me custa ter de desistir de um livro, mas quando um me dá mais dores de cabeça do que momentos de felicidade e escapatória, fecho-o e vai para a estante. Também os dou a quem os quiser, às vezes – ou vão para o Bookmooch.

    Não conhecia essa lista de direitos, muito boa! :D

    • Célia says:

      Já agora, recomendo o livro também… é um mimo para quem gosta de livros sobre livros :)

  12. Tiago says:

    Eu não consigo parar uma leitura a meio. Enlouquecia com essa questão dos fantasmas…

  13. “Não me posso dar ao luxo de gastar o meu tempo com livros que não me trazem valor acrescentado, que me aborrecem de morte e que não me dão aquilo que procuro nos livros, que será diferente de leitor para leitor, mas válido em qualquer dos casos.”

    Destaco esta tua frase, pois resume tudo: cada livro tem um interesse para o leitor, e o facto do valor acrescentado que os livros nos trazem, pois às vezes há livros que nos interessam menos, mas que queremos ler precisamente por esse valor acrescentado!

  14. pinkperry says:

    Por um tempo eu também me achava no dever e ler um livro até o fim, ainda mais quando se tratava de um clássico da literatura ou um best-seller. Mas aí parei para pensar no que a leitura e livros significam para mim, é uma fonte de diversão, delite, distração, uma paixão minha, para quê contaminar algo que é para descontrair juntamente com esse sentimento de compromisso? Desde então, se não gostei, seja qual for o autor, eu abandono. Ou deixo para depois, como você mesmo mencionou, ou admito que realmente não vou querer saber e vendo/passo para outra pessoa.
    Adorei o texto, não conhecia os direitos do leitor, me identifiquei bastante!


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