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[Opinião] Batalha, de David Soares

Autor: David Soares
Ano de Publicação: 2011
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 200
ISBN: 9789896373184
Origem: Recebido para crítica

Sinopse: Em Batalha, David Soares apresenta uma história em que os animais são protagonistas. Passado no início do século XV, Batalha é um romance sombrio, filosófico e comovente, que observa o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais e especula sobre o que significa ser-se humano. 
Batalha, a ratazana, procura por sentido, numa viagem arrojada que a levará até ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, o derradeiro projecto do mestre arquitecto Afonso Domingues. 
Entre o romance fantástico e a alegoria hermética, Batalha cruza, com sensibilidade e sofisticação, o encantamento das fábulas com o estilo negro do autor.

Opinião: Apesar de ter já lido anteriormente dois livros do autor e de ter gostado, não contava ler este Batalha em breve, se não fosse a editora me ter cedido um exemplar. E que pena teria sido, pois digo desde já que este foi, dos três, aquele que mais gostei.

Batalha é o nome de uma ratazana que foi abandonada no mundo em pequena e acolhida por uma família de ratos do campo. Como pouco sabia do mundo, Batalha não percebia porque era maior e mais feia que a sua família. Estas características trouxeram-lhe alguns dissabores, mas a sua lucidez, coragem e bom-senso viriam a ser os principais motores da viagem que o leva ao local onde o Mosteiro de Santa Maria da Vitória se encontra a ser construído, onde a sua vida mudará para sempre.

David Soares escreve aqui num registo um pouco diferente do habitual (pelo menos no que tive oportunidade de ler), com menos elementos de horror pelo meio. Cheguei mesmo a achar a narrativa bastante terna, em alguns momentos. Mas a utilização de palavras pouco comuns, já imagem de marca, continua presente, à qual é adicionada, em termos de estilo, o uso regular de aliterações, que dão um tom bastante peculiar e interessante à narrativa. O caráter alegórico da história está bem vincado e é, em meu entender, muito bem conseguido.

Este livro está repleto de pequenos momentos comoventes e marcantes. Os diálogos de Batalha com as várias personagens que vai encontrando pelo caminho, humanos ou animais, são deliciosos, pelos vários momentos de reflexão e de compreensão que não só Batalha, mas também o leitor, vai experienciando. As reflexões abordam vários temas, desde a morte ao sentido da vida (ambas com ligação próxima), passando pela religião e pelo amor. A principal lição – pelo menos a que eu retirei – é que, grandes ou pequenos, todos temos lugar no mundo e uma tarefa a desempenhar, e seja ela grande ou pequena, será tanto mais valiosa quanto maior foi a dedicação e empenho que lhe devotarmos.

Existem inúmeras passagens que tenho vontade de descrever transcrever, mas deixo-vos aqui uma das minhas favoritas:

Essa é que era a verdadeira razão de viver: não era o mundo que tinha que dar sentido à vida, mas era ela que tinha de dar sentido ao mundo.”

De forma resumida, foi sem dúvida um dos livros que mais gostei de ler nos últimos tempos. Muito bem escrito, a convidar o leitor a refletir no sentido da vida e a questionar vários aspetos relacionados com a condição humana. Muito bom.

Classificação: 5/5 – Adorei


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.