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[Opinião] As Intermitências da Morte, de José Saramago

Autor: José Saramago
Editora: Caminho
Páginas: 216
ISBN: 9789722117388
Origem: Comprado

Sinopse: «No dia seguinte ninguém morreu». 
Que a morte tem as suas extravagâncias, já todos nós sabíamos. Mas que se cansasse de exercer a sua principal actividade, nunca nos passou pela cabeça! 
Imagine que, de um momento para o outro, num certo país, as pessoas deixam de morrer. Estarão os líderes e os habitantes desse país preparados para gerir a vida eterna e as suas consequências? 
Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas vertentes, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Opinião: Depois de no ano passado ter lido, e adorado, o Ensaio Sobre a Cegueira, era só uma questão de tempo (e levou mais do que pretendia) até que voltasse a pegar num livro de José Saramago. Nesta última Feira do Livro de Lisboa, cheguei ao stand da Caminho, agarrei no As Intermitências da Morte e um desconhecido colega leitor, brasileiro, decidiu encetar um diálogo comigo sobre o quanto tinha gostado deste livro. Achei imensa piada à situação e acabei mesmo por trazê-lo comigo.

Num país cujo nome nunca é referido e acerca do qual só vamos conhecendo algumas características, como o facto de ter dez milhões de habitantes, ao bater a meia-noite numa passagem de ano as pessoas deixaram de morrer. Na primeira parte do livro, observamos todas as implicações que este facto tem para a sociedade, para quem a governa, e para instituições como a Igreja, as empresas funerárias e as agências de seguros. Aquilo que à primeira vista parecia um acontecimento extraordinário, com a capacidade para mudar completamente as perspectivas de futuro das pessoas, depressa se torna também num martírio para os moribundos e doentes, que, estando com um pé para a cova, permanecem num limbo entre a vida e a morte, em constante sofrimento.

E é aqui que entra a morte, como personagem… assim, com letra minúscula. Dona da decisão entre quem vive e quem morre, esta fase em que esteve “desempregada” foi sua opção. E também está no seu poder voltar a implementar a morte como factor inultrapassável à condição humana. Nesta segunda parte do livro, a morte é a personagem central, que o leitor tem oportunidade de acompanhar e conhecer, à medida que ela percebe que nem sempre os seus métodos são infalíveis e que o ser humano é mais interessante do que lhe podia parecer à primeira vista.

Sendo este o meu segundo livro do autor, já estava habituada à sua forma de escrita, com diálogos no meio do texto, e com muitas vírgulas entretanto. Confesso que gosto, acho que confere personalidade ao texto e lhe dá um toque muito particular. Comparando com o Ensaio, achei aqui o tom um pouco mais formal, mais polido, e talvez por isso às tantas achei que se tornou um pouco cansativo.

Senti-me definitivamente mais interessada pela premissa original do livro e pela fase inicial, na qual são relatadas as consequências do “desaparecimento” da morte. Muito interessantes (e irónicas, também) as reflexões à volta das reacções de políticos, jornalistas, filósofos ou economistas. Pouco tempo após começar a ser dado destaque à morte – personagem – o meu interesse desceu a pique. Apesar de considerar uma abordagem original a esta personagem, não mais consegui elevar o meu interesse pela história aos níveis do início.

Apesar disso, foi bom voltar a Saramago. Se tudo correr bem, não demorarei a ler o próximo. 

Classificação: 3/5 – Gostei

 


Sobre Célia

Tenho 37 anos e adoro ler desde que me conheço. O blogue Estante de Livros foi criado em Julho de 2007, e nasceu da minha vontade de partilhar as opiniões sobre o que ia lendo. Gosto de ler muitos géneros diferentes. Alguns dos favoritos são fantasia, romances históricos, policiais/thrillers e não-ficção.