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Uma Questão Pessoal

Monday, March 28, 2011 Post de Estante de Livros

Autor: Kenzaburō Ōe
Título Original: Kojinteki na taiken (1964)
Editora: Biblioteca Sábado
Páginas: 177
ISBN: n.d.
Tradutor: Nuno Castro

Sinopse
Bird, um professor de inglês cronicamente frustrado que sonha com viajar a África, recebe uma notícia que vai alterar bruscamente o resto da sua vida: é o pai de um bebé com uma hérnia cerebral. Percebendo esse recém-nascido como uma ameaça, sente-se reconfortado quando lhe dizem que a sua vida será extremamente breve e procura refugiar-se no álcool e na companhia de uma velha amiga durante esses dias. No entanto, a ânsia de viver da criança acabará por obrigar Bird a enfrentar radicalmente a sua existência…

Opinião
Quis o acaso que tivesse incluído no meu desafio de Março um livro de cada um dos dois japoneses galardoados com o Prémio Nobel da Literatura até ao presente. Não apreciei particularmente o Terra de Neve, por isso tinha a esperança que este pudesse cativar-me um pouco mais, mas infelizmente parecem ter sido dois tiros ao lado.

Basta ler a sinopse acima para se perceber que estamos perante um livro com uma história dura, cujo desenvolvimento, dependendo da experiência de cada um, pode tornar a leitura mais ou menos suportável. A personagem principal, Bird, é um homem estranho. Professor universitário, está prestes a ser pai, mas aquilo que mais parece preocupá-lo é a perspectiva da concretização de um sonho antigo: viajar para África. Vive numa espécie de equilíbrio precário, devido à sua personalidade instável, e não poucas vezes refugiou-se no álcool para conseguir enfrentar os seus demónios. Quando sabe que a sua mulher deu à luz um bebé com uma hérnia cerebral, entra numa espiral de negação e culpa em relação ao pequeno ser, que o leva às profundezas mais negras da alma humana.

Se me tivesse ficado apenas pela leitura, sinceramente acho que não conseguia apontar um único motivo para dar o meu tempo por bem empregue. Não gostei nem um pouco de Bird, que, perante uma situação dramática se refugia no sexo extra-matrimonial e pouco convencional, que encara aquele pobre ser como um obstáculo à sua vida e aos seus planos e que só suscita ódio no leitor, pelas coisas que diz, pensa e faz. Mas depois decidi tentar perceber o que levou a que esta seja considerada uma das obras maiores do autor. A verdade é que se trata de uma história semi-autobiográfica, uma vez que, no ano anterior a ter escrito este livro, Kenzaburō Ōe tinha sido pai de uma criança que nasceu com uma hérnia cerebral, que teve consequências no seu normal desenvolvimento com problemas mentais. O livro foi, assim, uma forma de exorcizar demónios; e acho que deve ter sido necessária uma grande dose de coragem para o fazer. E, com este dado adicional, percebi que é suposto odiarmos esta personagem. Também percebi que quanto maior for o nosso envolvimento pessoal na história e as suposições sobre o que teríamos feito se algo assim nos acontecesse, provavelmente mais difícil será apreciar esta leitura.

É um livro negro, muito negro. Demasiado para o meu gosto pessoal e que me deixou, por assim dizer, de rastos quando terminei. Este género de livros é bom para nos fazer entrar em mundos diferentes, alternativos, para ajudar a abrir a mente e a, como dizem os ingleses, go out of the box. Esta não foi uma viagem que me tivesse deixado boas recordações; deixo a recomendação em aberto para quem ache que a consegue aguentar. – Célia M.

2/5 – OK






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6 Responses to “Uma Questão Pessoal”

  1. slayra says:

    Aflige-me ler livros como este, parece que fico deprimida depois… para mim é preciso ter alguma coragem para os ler, por isso parabéns por teres conseguido ler até ao fim. O_O Mas perversamente fiquei com vontade de o ler… mais ou menos.

  2. kikwasses says:

    Parece ser interessante, sou um apreciador deste tipo de livros negros, acho que são capazes de puxar emoções muito fortes

  3. WhiteLady3 says:

    É um dos livros que mais tenho curiosidade em ler mas devido à aura negra e pessimista que emite tenho adiado, simplesmente porque não estou com espírito para embarcar na leitura. A leitura para mim, neste momento, tem de constituir um escape e não ser um reavaliar da minha pessoa e convicções, como este livro parece fazer. :)

  4. Sara says:

    É interessante esta dicotomia livros “densos” \ livros “leves”….Eu sou apreciadora de histórias mais duras, que nos deixam desconcertados, que nos levam para fora da zona de conforto como se costuma dizer. Não tenho muita paciência para histórias light, embora tenha uns poucos por cá…às vezes até calha bem.

    Tanto este como o outro livro (terra da neve) me parecem interessantes, nunca li autores japoneses -_-

    • Estante de Livros says:

      Acho que tudo depende de quem somos e do que procuramos nos livros. Pessoalmente, gosto de variar, mas tendo a gostar mais de livros menos densos. Não estou a falar de histórias cor-de-rosa ou mal escritas, mas sim de livros que me façam sentir bem, que me ensinem, que contenham coisas e pessoas com as quais me identifico. Por norma não atino muito com livros que me deixam desconfortável e que contenham situações que choquem com as coisas em que acredito. Mas sim, concordo que de vez em quando é bom sairmos da nossa zona de conforto e confrontar outras histórias e outras vivências. Foi o meu objectivo ao ler este livro. Apesar de não ter ficado fã, valeu a pena por isso ;)

      Célia


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